domingo, 8 de julho de 2012

As trafulhices de quem se arroga de nos (des)governar - ainda a propósito da licenciatura "honoris causa" de Miguel Relvas

Entre as várias características que podem determinar a vantagem competitiva de um país, uma cultura de seriedade é, sem sombra de dúvida, uma das mais significativas. Desde logo, porque a cultura deve ser entendida como o espelho de um povo, pelo que uma forte cultura organizacional pode servir para transformar a própria cultura sem que daí resultem as habituais resistências à mudança. Essa é uma indubitável vantagem competitiva, uma vez que os países, nessas circunstâncias, mudam porque os seus concidadãos têm consciência de que devem mudar e não porque são constrangidos a mudar. Em tais contextos, uma cultura de seriedade deve ser uma consciência quotidiana, de onde se segue que aquele que prevaricar - políticos incluídos -, para além dos tribunais, é ostracizado pela própria sociedade.

Hoje, quando olhamos para o país verificamos que, de há demasiados anos a esta parte, vivemos uma cultura de corrupção. Foi o BPN e a SLN, o Freeport, a Face Oculta, o caso da Cova da Beira, múltiplas parcerias público-privadas e tantos outros casos que já caíram no esquecimento porque, infelizmente, a memória dos portugueses é curta e, por essa razão, estamos a viver cada vez pior. Mas parece que, para além de terem memória curta, os portugueses aceitam resignadamente viver paredes meias com gente corrupta. O problema é que esta cultura de corrupção está a sair demasiado cara ao país.

É urgente tomarmos consciência de que a mentalidade permissiva que há muito habita no nosso espírito, sobretudo daqueles a quem o poder subiu à cabeça, atingiu os limites do impossível e, similarmente à democracia tão criticada por Sócrates - o filósofo - na Grécia Antiga, tornou-se legal. Senão vejamos: o que se ouve dizer é que Miguel Relvas do ponto de vista moral prevaricou, mas do ponto de vista jurídico não se lhe pode acusar de nada, o que significa que a corrupção aconteceu em conformidade com a lei e, como tal, passa a fazer parte dos não assuntos. Conclusão: legalizaram-se as trafulhices.

Ora, um país cujos governantes pensam desta maneira vai a caminho do cano de esgoto da História. Portugal não resiste muito mais tempo a esta cultura de corrupção. Haja vergonha!

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