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segunda-feira, 17 de outubro de 2022

“Uma Paixão Simples” – Annie Ernaux (1) por Danielle Arbid

 

Para muitos, Annie Ernaux talvez seja maior descoberta literária de 2022. No entanto, apesar da postura discreta, a escritora já há muito que é, sobretudo em França, um nome prestigiado das letras. A sua obra é pioneira num registo que vem sendo designado como autoficção, embora na entrevista que deu ao Expresso (publicada na edição do último fim de semana) a autora considere mais ajustado o termo cru e direto ao osso – biografia.

Um dos seus livros mais conhecidos é, precisamente, Uma Paixão Simples (editada em Portugal pela Livros do Brasil), que, em 2020, foi adaptado ao grande ecrã por Danielle Arbid, tendo obtido a honra de integrar a seleção oficial de Festival de Cannes desse ano.

Se quisermos identificar um bom exemplo de narrativas que, em mãos capazes, funcionam da melhor forma em livro mas não em cinema, Uma Paixão Simples será uma escolha adequada.

Conta a história de uma professora universitária que se envolve romanticamente com um enigmático diplomata russo (e, já agora, fervoroso admirador de Putin).

Imagino que um mestre como Wong Kar Wai faria de tal material narrativo (que, como o título indica, é bem simples) um grande melodrama, mas não é o cineasta de Hong Kong quem quer. Por isso, enquanto cinéfilos, ficaremos infinitamente melhor servidos revendo a obra seminal de Kar Wai, Disponível Para Amar.

Uma nota positiva para o bom trabalho dos atores e para a excelente banda sonora. Contudo, estes são pormenores que não bastam para salvar o filme do imenso vazio a que se entrega.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Paul Schrader (3) – “The Card Counter – O Jogador”

William Tell é um ex-militar com grande talento para o jogo de cartas, a que se dedica obsessivamente, de modo a manter o passado convenientemente recalcado. Em boa verdade, este jogador profissional, metódico e ritualista (cobre com lençóis brancos todos os móveis dos quartos de hotel onde fica hospedado) esteve muitos anos preso devido à cumplicidade nos crimes cometidos na prisão de Abu Ghraib durante a Segunda Guerra do Golfo. No entanto, as memórias desses anos ressurgem quando assiste a uma palestra de um antigo oficial responsável por treinar militares em técnicas de tortura.

Com The Card Counter regressámos ao cinema de autor daquele que é, porventura, a par de Woody Allen, um dos mais coerentes e intransigentes cineastas norte-americanos. Uma vez mais, Schrader cria uma obra pessoal, marcada por personagens trágicas em busca de redenção. Ora, para um intelectual tão marcado pela teologia cristã como Schrader só o sacrifício possibilita a redenção. Por isso, desde o argumento de Taxi Driver que este autor parece estar (quase) sempre a contar a mesma história – mas fá-lo sempre com ousadia e inconformismo.

William Tell (meticulosamente interpretado por Oscar Isaac) não é um sucedâneo de Travis Bickle (o icónico personagem imortalizado por Robert De Niro em Taxi Driver), embora com ele estabeleça pontos de contacto, senão vejamos: (i) são os dois ex-veteranos de duas guerras que, em tempos diferentes, mancharam a reputação libertária do exército norte-americano; (ii) sentem-se acossados pela participação numa guerra cujo propósito não compreenderam; (iii) vivem como presbíteros mundanos em busca da virtude. Todavia, William Tell, na sua aparente lucidez, está mais próximo de Ernest Toller, personagem central de No Coração da Escuridão, filme anterior de Schrader. Mas é tão-só isso: a (aparente) lucidez e – diria até – a formação intelectual de William Tell e Ernest Toller (Travis Bickle era demasiado autocentrado e indiferente à cultura académica). Porque, de resto, a loucura e a violência sacrificial mantêm-se à flor da pele.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

"A Noite dos Reis" - de Philippe Lacôte

Segunda longa-metragem do costa-marfinês Philippe Lacôte, A Noite dos Reis passa-se no interior da super-prisão MACA, na Costa do Marfim, um mundo à parte, dirigido pelos próprios reclusos, com os seus próprios códigos e leis. Um novo prisioneiro, qual Sheherazade das Mil e Uma Noites, é forçado a tornar-se o "contador de histórias" da prisão, pretexto para Lacôte criar uma parábola para a história recente da Costa do Marfim e, por que não, do próprio continente africano violentado por conflitos e guerras tribais intermináveis.

Um filme pungente, que encena uma dramaturgia dilacerante e nos transporta para uma África distante de exotismos e de lugares-comuns.



sábado, 7 de agosto de 2021

"Contos de um Verão Negro" - de Damiano e Fabio D'Innocenzo

No início de Contos de um Verão Negro o narrador afirma: "o que se segue é inspirado por uma história verdadeira; a história verdadeira é inspirada por uma mentira; a mentira não é lá muito inspirada". Fica dado o mote para o que se segue: uma narrativa nada agradável que, pelo contrário, explora histórias (talvez seja melhor dizer pequenas narrativas que se entrelaçam) que revelam o pior do ser humano (ou, pelo menos, de uma certa classe média baixa italiana).  

Efetivamente, os irmãos D'Innocenzo, que assinam, simultaneamente, o argumento e a realização (em 2020, o filme arrecadou o Urso de Prata para melhor argumento no Festival de Berlim), não revelam qualquer esperança na humanidade (nem sequer carinho pelos seus personagens). Nestes Contos de um Verão Negro ninguém sai incólume, sobretudo as crianças. Os adultos são eternos petizes imaturos (que transformam a sua fragilidade em perversidade) sem qualquer capacidade para enfrentar obstáculos hodiernos e muito menos para servirem de (bons) exemplos para os seus filhos. Por sua vez, as crianças são vítimas do egoísmo, do desamor e da crueldade dos pais. É também por aqui que se encontra a maior vulnerabilidade da obra (acutilante) de Damiano e Fabio D'Innocenzo.

Ao lançar às urtigas qualquer possibilidade de ligação emocional (ou sequer algum resquício de empatia) do espectador com os personagens, revela uma total ausência de pathos. É pena, porque, verdade seja dita, estamos perante uma obra que expõe de modo cru e implacável a era do vazio (ético e afetivo), em que os laços comunitários são apenas um ténue véu apolíneo que mal consegue rebuçar a essência dionisíaca que facilmente os desfaz. Como assegura um adulto, já próximo do final do filme, o que podemos pretender mais da vida quando temos uma mesa posta com mortadela, mozarela e vinho?

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

"O Pai" - de Florian Zeller

Anthony, de 83 anos, recebe a visita regular da sua filha. Aparentemente, o octogenário vive orgulhosamente só, no seu apartamento, contra a vontade daquela, que, devido aos graves sinais de demência que o pai claramente revela, insiste em contratar uma nova cuidadora (Anthony terá recusado as cuidadoras anteriores).

Se este é o início do filme O Pai, modelarmente escrito e realizado por Florian Zeller, rapidamente descobrimos que estamos a assistir à construção e reconfiguração do complexo e intricado puzzle em que se tornou a mente de Anthony. O seu mundo interior, severamente estilhaçado pelos efeitos da doença de Alzheimer, determina o modo como perceciona o real, que se confunde com a sua mente turbada. A filha e a cuidadora são a mesma pessoa? Quem é o companheiro da filha? A nova cuidadora é uma projeção da filha que faleceu? Ser bailarino com talento para sapateado corresponderá a um sonho de infância recalcado?

No fim, ficamos inevitavelmente comovidos com a impressionante interpretação do outro Anthony, o Hopkins, sempre no tom certo e com a expressão ajustada. Esquecemo-nos que estamos a ver um filme com um rosto conhecido por todos. Anthony é inteiramente o ator que lhe dá corpo, alma e voz. A realização de Zeller é subtil, sempre comprometido com a história e ao serviço dos atores, sobretudo daquele que é, indubitavelmente, um dos melhores de sempre.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

"Presos no Tempo" (2021) - de M. Night Shyamalan

Olvidável retorno de Shyamalan ao cinema, Presos no Tempo é um drama patético, que não se percebe bem se é ficção científica, thriller, terror ou mistério. No fim, ficam os despojos de uma comédia tola involuntária, que, no limite, se compreenderia se o seu autor fosse Ed Wood (para quem não sabe, Ed Wood ficou conhecido por ter concebido alguns dos piores filmes da história do cinema, mas mantendo sempre a ambição "visionária" de fazer obras à altura de Citizen Kane).

Quem assistir a Presos no Tempo desconhecendo obras-primas como O Sexto Sentido (1999), O Protegido (2000), Sinais (2002) ou A Vila (2004), provavelmente pensará que foi escrito e realizado por um qualquer neófito deslumbrado pela primeira oportunidade em Hollywood. É que este pretensioso "tratado" sobre o envelhecimento e a finitude tem o potencial para destruir carreiras, pelo menos as do realizador e dos atores. Um filme que só não chega a ser dececionante por ser desastroso.

domingo, 1 de agosto de 2021

"Annette" (2021) - de Leos Carax

Filme de abertura do último Festival de Cannes, Annette marca o regresso de Leos Carax, cineasta de culto que, em cerca de 40 anos de carreira, assina aqui a sua sexta longa-metragem. E valeu a pena a espera, pois este é um filme grandioso (talvez seja mais ajustado dizer grandíloquo), uma ópera rock trágica realizada com alma e que dá aos seus dois atores principais (Marion Cotillard e Adam Driver) a oportunidade para prestações memoráveis (sobretudo, Adam Driver, que tem aqui um desempenho soberbo).

Leos Carax aproveita a estética do musical para construir uma parábola sobre os tempos que correm, lançando um duro golpe ao público consumidor acéfalo da informação veiculada nas redes sociais e aos órgãos de comunicação que, para sobreviverem, se renderam às imagens vazias do YouTube, Facebook ou Instagram. 

Uma lição de mise-en-scène majestática. Um filme obrigatório! (O melhor que veremos em 2021?)

domingo, 3 de janeiro de 2021

"Wolfwalkers" - cinema de animação exemplar

Maravilharmo-nos com o visionamento de "Wolfwalkers", obra-prima do novo cinema de animação europeu, é uma excelente forma de inaugurar o novo ano cinéfilo. Filme poético, onírico e (porque não dizê-lo) folk, traz a assinatura dos artistas Tomm Moore e Ross Stewart.

Baseado em lendas célticas, a ação situa-se em meados do século XVII na Irlanda rural dominada por Lord Protector, tirano inglês que oprime e subjuga o povo de uma pequena cidade que vive apavorada com a ameaça de uma alcateia que tem atacado as ovelhas. Certo dia, Robyn, uma menina inglesa que sonha seguir as pisadas do pai como caçador de lobos, aventura-se na floresta e trava amizade com uma criança de longos cabelos ruivos, que é, na verdade, uma wolfwalker

E mais não digo para não tirar ao leitor o prazer de assistir a este filme de animação de recorte clássico, desenhado à mão como os mais emblemáticos desenhos animados de outros tempos.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...