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terça-feira, 2 de setembro de 2025

"O Livro das Despedidas" - Velibor Colic e a esperança no exílio


Em O Livro das Despedidas, Velibor Colic revisita em tom memorialista a experiência do exílio em França, após a guerra na Bósnia. O narrador, que é também o próprio autor, reconstrói episódios de desorientação, solidão e perda, mas fá-lo com uma prosa de rara delicadeza, onde a melancolia se mistura com a nostalgia e a ternura. Mesmo diante do desespero, a escrita nunca abdica da esperança nem da celebração da vida, revelando um olhar profundamente humano sobre os gestos mais simples e os encontros que iluminam a escuridão. Trata-se de uma obra intimista, atravessada pela dor da separação, mas igualmente pelo amor à memória, à dignidade e às pessoas.

domingo, 31 de agosto de 2025

"O Coração de Inglaterra" - Jonathan Coe e o retrato de uma Inglaterra dividida


Jonathan Coe constrói em O Coração de Inglaterra um retrato subtil e irónico da sociedade britânica no período que antecedeu o referendo do Brexit. Através da saga da família Trotter e do seu círculo alargado de relações, o autor examina as tensões entre gerações, regiões e classes sociais, expondo as fraturas que a decisão de saída da União Europeia apenas tornou mais visíveis. Com uma escrita fluída, pontuada por humor e melancolia, Coe dá voz tanto à nostalgia de uma Inglaterra idealizada como ao desencanto perante um país dividido e em mutação. O romance funciona, assim, como uma crónica literária da desagregação de consensos e como um olhar atento sobre as cicatrizes que a política e a história recente deixaram na vida quotidiana dos ingleses.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Um livro para a Primavera (2) - "A Tirania do Mérito", de Michael J. Sandel


Numa altura em que tantos, nos meios de comunicação social, nas escolas e universidades, e até a maioria dos governantes (tanto à esquerda como à direita), exaltam as vantagens e virtudes da meritocracia, Michael J. Sandel convida-nos a pensar seriamente sobre se deve ser esse o caminho a seguir no contexto das democracias modernas. 
Em A Tirania do Mérito, Sandel advoga outra forma de pensar o sucesso, mais atenta ao papel da sorte, mais de acordo com a ética da humildade e preocupada com o bem comum. Como ponto de partida, o filósofo norte-americano desconstrói e confronta alguns dos discursos políticos e filosóficos de referência dos últimos cem anos, mostrando como a insistência na justeza da meritocracia conduziu as democracias ocidentais, já em pleno século XXI, para o ressurgimento de partidos populistas, que mais não são do que a resposta à arrogância dos discursos liberais e libertistas que criaram a ilusão de que, uma vez garantida a igualdade de oportunidades (como se tal fosse possível!), qualquer indivíduo pode ascender socialmente, e fomentaram a crescente vaga de ressentimento em todos aqueles (sobretudo, os mais pobres) que foram deixados para trás pela globalização e pela ditadura dos mercados. Temos, portanto, que repensar o bem comum e o valor social do trabalho.
Uma leitura que classificaria como "obrigatória".

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Um livro para a Primavera - "O Meu Irmão Serge", de Yasmina Reza


A Quetzal tem-nos oferecido o privilégio de ter fácil acesso à obra literária da dramaturga e atriz francesa Yasmina Reza. A leitura de Felizes os Felizes, já há alguns anos, deixou-me a memória de algumas horas comoventes (no seu realismo tão próximo das vivências do leitor) e bem divertidas (no seu humor tão direto quanto subtil).

O Meu Irmão Serge é a obra mais recente de Yasmina Reza publicada em Portugal. O livro acompanha a relação entre três irmãos oriundos de uma família judaica - os Poppers -, todos já na meia-idade, que, por influência da jovem filha de um deles, decidem visitar o campo de concentração de Auschwitz. Serge, personagem truculenta, impulsiva e incorrigível, é o irmão mais velho, mulherengo e hipocondríaco; Nana é a irmã do meio, outrora vista como a mais inteligente da família e, previsivelmente, destinada a um futuro glorioso, mas que acaba condicionada pelo casamento com um esquerdista espanhol, trabalhador precário e sem recursos financeiros; Jean, o irmão mais novo, é o narrador, aquele a quem os irmãos mais velhos nunca prestaram particular atenção, embora seja ele a cola que une e religa os irmãos.

Sempre com apontamentos humorísticos (até porque Reza lembra o leitor do facto de a vida ser demasiado breve para se levar demasiado a sério) - de resto, tal como acontece em Felizes os Felizes e Babilónia, obras precedentes de Yasmina Reza -, a história dos Poppers funciona como um espelho da condição humana: como lidamos com as relações familiares, o envelhecimento, a memória do passado (e até com a própria memória histórica) e a morte.

Para quem não conhece a autora, garanto que a descoberta vale bem a pena.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Contos de Silvina Ocampo (2) - "Os Dias da Noite"

A propósito dos contos de Silvina Ocampo, Jorge Luís Borges fez notar que, neles, há uma particularidade difícil de compreender, a saber: “o seu estranho amor por uma certa crueldade inocente ou oblíqua”. O incontornável autor argentino atribuía essa singularidade “ao interesse, o interesse atónito que o mal inspira numa alma nobre”.

Na verdade, tal como nos contos de Borges, tudo coabita no universo elegíaco de Silvina Ocampo: vidas enredadas na ficção, traições ardentes e vinganças geladas, espelhos ou sonhos que refletem fantasmas de carne e osso; o quotidiano banal que se faz mágico, fruto de agoiros e presságios, ora bons ora maus. A unir a maioria dos contos de Os Dias da Noite (editado em Portugal pela Livraria Snob) está sempre a infância, essa etapa dada ao fantástico, mas que Ocampo também vê como propensa para a crueldade. A infância como a fina fissura entre inocência e perversão.

A Fúria e outros contos e Os Dias da Noite constituem-se como leituras urgentes de uma escritora a (re)descobrir.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Contos de Silvina Ocampo (1) – “A Fúria"

Escritora dotada de uma imaginação prodigiosa e de uma técnica narrativa singular, Silvina Ocampo é usualmente apontada como uma destacada rebelde das letras argentinas. Foi companheira de Adolfo Bioy Casares e amiga íntima de Jorge Luís Borges.

A Fúria e outros contos é, talvez, a sua obra-prima. Neste livro, editado em Portugal pela Antígona, reúnem-se trinta e quatro contos com narrativas plenas de notas de insólito, humor, drama, fantasia e terror, que reclamam leitura ávida e apuram o bom gosto literário.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Prémio Nobel da Literatura 2022


O Prémio Nobel da Literatura deste ano foi entregue à escritora francesa Annie Ernaux, "pela coragem e acuidade clínica com que ela põe a descoberto as raízes, alienações e constrangimentos coletivos da memória pessoal".

Quanto a mim, irei começar, em breve, a ler a obra "O Acontecimento", editada, este ano, em Portugal pela editora Livros do Brasil.

sábado, 28 de agosto de 2021

"O Clube do Crime das Quintas-Feiras" - um bom divertimento para a "silly season"

Richard Osman conseguiu cumprir com sucesso o projeto pessoal de escrita de um primeiro romance. E desenganem-se aqueles que pensam que um livro comercial não pode ter qualidade. É que, em boa verdade, O Clube do Crime das Quintas-Feiras está muito bem escrito. Trata-se de uma obra leve, claro, mas com uma trama urdida com classe e personagens que facilmente transpõem os limites próprios da ficção para a realidade. Há, no entanto, um pormenor na estrutura narrativa que Osman poderia ter claramente evitado: a inserção de registos do diário da personagem Joyce. 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

"Um Crime em Windsor" - de S. J. Bennett

A silly season (também) pede leituras frescas e leves (não confundir com literatura de cordel). Nesse contexto, o recente Um Crime em Windsor, de S. J. Bennett, é um livro de mistério ao melhor estilo de Agatha Christie, mas agora, em vez de Miss Marple, tem  uma protagonista, no mínimo, insólita: a Rainha Isabel II. 

Com um fino sentido de humor, a autora inglesa imagina uma rainha arguta e extremamente perspicaz que, sempre que necessário e sem descurar os seus deveres reais, resolve crimes secretamente. 

Como bom entretenimento, vale a pena ler esta obra.

domingo, 22 de agosto de 2021

"A minha irmã é uma Serial Killer" - de Oyinkan Braithwaite

Este talvez seja o livro do verão de 2021. Vem com boas referências: venceu o British Books Awards Crime & Thriller 2020 e esteve nomeado para o Booker Prize 2019. Traz a assinatura de uma jovem escritora nigeriana, tem um ritmo trepidante e um sentido de humor mordaz. Ah!, e está-se mesmo a ver que é também um thriller (ainda que muito leve).

Não sei se justifica o hype gerado à sua volta, mas reconheço que as 230 páginas de A minha irmã é uma Serial Killer leem-se de uma assentada com prazer. Não é (ainda) grande literatura, mas é uma primeira obra competente. Boa para dias de estio. 

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

"Um sentido para a vida" - recolha de ensaios de Antoine de Saint-Exupéry

O livro Um sentido para a vida resulta da compilação de textos filosóficos e crónicas jornalísticas do aviador-escritor Antoine de Saint-Exupéry, alguns deles publicados postumamente.

Nele exibe-se a profundidade humana do autor de O Principezinho, mas também a sua maestria como escritor maior.

Abordando as suas experiências como aviador e correspondente de guerra (na Guerra Civil de Espanha e na 2ª Guerra Mundial), Um sentido para a vida revela-nos um autor inconformado com o rumo que o século XX estava a tomar e pessimista em relação à natureza humana.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

"Nada", de Janne Teller - A infância na era do consumismo

Janne Teller é uma conceituada autora dinamarquesa de origem germano-austríaca. Estudou macroeconomia, trabalhou na ONU e na UE nas áreas da resolução de conflitos e questões humanitárias em muitos países, especialmente em África, onde viveu durante vários anos.

Nada é um romance polémico (chegou a ser proibido, vejam lá, na Dinamarca), no qual Teller ensaia uma narrativa cruel e amarga em torno da perceção que as crianças ocidentais têm acerca da dignidade humana e do sentido da existência.

A história arranca com um rapaz de doze anos, de nome Pierre Anthon, que acha que nada vale a pena e que a vida, tal como a morte, não tem qualquer sentido. No primeiro dia de aulas do ano letivo, manifesta isso mesmo aos colegas, abandonando a sala de aula para se refugiar, desse dia em diante, no ramo de uma ameixeira. Em vão, os seus colegas recorrem a um sem-número de subterfúgios para o tirar da árvore, pelo que decidem então pôr em prática um plano: fazer uma "pilha de significado". O que significa que cada um deve dar algo que tenha significado para si, mas com uma condição: devem ser os outros a decidir. A partir daqui as personagens criam as condições para se imporem exigências extremas e colocar-se em prática a instrumentalização do outro, num microcosmos sedento de vontade em humilhar e até violar a dignidade da pessoa humana.

Trata-se de uma obra literária que deveria constar do Plano Nacional de Leitura do Ministério da Educação. Talvez propondo-se esta opção de leitura, seguida de debate, no décimo ano de escolaridade.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

"Almoço de Domingo" - Rui Nabeiro por José Luís Peixoto

O último romance de José Luís Peixoto é uma sentida homenagem ao ilustre comendador Rui Nabeiro, fundador da Delta.

Almoço de Domingo percorre os temas centrais da obra literária de JLP: a família, as raízes, a inexorabilidade do tempo e a memória enquanto complexo e misterioso puzzle cujas peças são compostas por instantes que já não existem senão no espírito de quem lhes sobreviveu.

Dividido em três partes (26, 27 e 28 de Março de 2021, três dias em que se percorre uma vida inteira) nas quais o narrador evoca momentos fundamentais da vida de Nabeiro, o livro tem todas as marcas distintivas da prosa poética do autor. 

sábado, 9 de maio de 2020

"Um Pequeno Favor" - Darcey Bell, mais uma autora empenhada em imitar Gillian Flynn e Patricia Highsmith

Se Gillian Flynn já mereceu o estatuto de legítima herdeira (na forma e no conteúdo) do estilo narrativo de Patricia Highsmith, Paula Hawkins e Darcey Bell mais não são do que artesãs de sucedâneos de marca branca travestidas de autoras-sensação do momento.

Na verdade, a densa e complexa perversidade, o intenso negrume que contorna a alma humana (e que Flynn tão bem tem conseguido replicar nas suas obras), em Um Pequeno Favor (tal como na obra que popularizou Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio) fica reduzido a um grosso traço esquemático que tudo revela e nada esconde. Entediante!

Nota final: Curiosamente, o livro de Bell inspirou uma excelente adaptação cinematográfica hitchcockiana assinada por Paul Feig, provando, uma vez mais, que nem sempre o livro é melhor do que o filme. Há livros que, aparentemente, nasceram para servir esse propósito, o de germinarem bons filmes. De resto, Hitchcock fê-lo, exemplarmente, ao longo da sua extensa filmografia.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

"Guerra Americana", de Omar El Akkad - o futuro, hoje


Omar El Akkad é um jornalista e autor premiado que viajou por todo o mundo para cobrir as mais importantes histórias reais (notícias) das últimas duas décadas: guerra no Afeganistão, julgamentos militares em Guantánamo, revolução da Primavera Árabe no Egito, para nomear apenas alguns acontecimentos que foram registados à luz das suas lentes translúcidas de jornalista maior.

El Akkad estreia-se na ficção com um grande romance americano, aspiração de quase todos os candidatos a escritor em terras do Tio Sam.

A história de "Guerra Americana" tem início em 2075, tendo por protagonista Sarat Chestnut, uma orfã de guerra. Os EUA estão, nessa altura, a travar a sua Segunda Guerra Civil, com os estados do norte e (alguns) do sul divididos quanto à proibição do consumo de combustíveis fósseis. Forçada a viver num campo de refugiados, Sarat rapidamente começa a ser moldada por esse tempo e lugar até que, finalmente, pela influência de um misterioso conspirador sulista, se transforma numa letal, doutrinada e convicta terrorista.

Que não restem dúvidas acerca da acutilância e atualidade desta obra visionária onde o autor transfigura, de modo pertinente e ambicioso, inúmeras marcas do tempo presente num romance pensado e construído ao milímetro, suportando-se numa narrativa de cariz realista, aqui e ali intercalada com relatos jornalísticos e depoimentos históricos (ficcionados, é claro).

quinta-feira, 19 de julho de 2018

"Prantos, amores e outros desvarios" - pérolas sob a forma de short stories

Quando há dois ou três anos li Passagens fiquei arrebatado. Isto acontece-nos pontualmente na vida enquanto procuramos a Beleza - e onde encontrá-la senão na Arte? Acontece quando escutamos um disco que nos enche a alma, quando vemos um filme que nos eleva os sentidos e a razão em toda a plenitude, quando contemplamos um quadro sublime, quando assistimos àquela peça de teatro e a um certo espetáculo de dança ou quando, por entre tantos outros, concluímos a leitura de um certo livro e descobrimos que é por isto que a literatura continua a valer a pena e que o ofício da escrita deveria estar reservado apenas a alguns (brilhantes) artesãos. Como Teolinda Gersão. Brilhante escritora, com um percurso académico distinto e importantes prémios literários conquistados.

Vem isto a propósito de um dos grandes livros que deram à estampa em 2017 - Prantos, amores e outros desvarios. Nele se reúnem contos bem diversos e um refinado pequeno ensaio sobre futebol (Jogo Bravo). Teolinda Gersão consegue a proeza de experimentar diversos géneros literários sem perder identidade e sempre com a qualidade dos grandes romancistas.

Regresso ao ponto de partida desta humilde recensão (onde encontrar a beleza senão na Arte?), destacando o conto que encerra o livro (e também o mais extenso), Alice in thunderland, sobre a génese do clássico infanto-juvenil de Lewis Carroll na perspetiva da sua protagonista, a Alice real, que terá ficado para sempre - e tragicamente - fechada dentro daquele livro feito país das maravilhas. Leiam Prantos, amores e outros desvarios para saber porquê.

terça-feira, 17 de julho de 2018

"Ronda das mil belas em frol" - Exortação ao erotismo

Mário de Carvalho é um mestre da arte do conto e confirma-o, uma vez mais, no livro Ronda das mil belas em frol, acervo conceptual de histórias curtas, mas nem por isso menores na sua importância ou na qualidade estética.

Mário de Carvalho domina e manipula a língua portuguesa em todo o esplendor, traçando naquela obra um retrato implacável, belo, assumidamente libidinoso e despudorado de encontros sexuais furtivos, passageiros e, por vezes, perversos.

Os contos ali reunidos são uma exortação, simultaneamente erógena e poética, à sexualidade hedonista escrita com a classe de um grande autor.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"A Voz da Mãe Dava Sentido às Estrelas" - Um livro para a eternidade de Rabindranath Tagore


A Assírio & Alvim vem, no ano da graça de 2017, lembrar-nos de um escritor algo esquecido por cá, Prémio Nobel da Literatura em 1913, poeta, pintor, pedagogo, músico, ser humano com tudo o que ser humano devia representar, autor dos mais belos textos sobre a infância de que há memória. Rabindranath Tagore (1861-1941) é o seu nome e a obra agora publicada reúne a versão integral do livro The Crescent Moon, que o autor dedicou ao filho após a morte de sua mãe, e textos extraídos dos livros My Reminiscenses e My Childhood Days. A natureza destes escritos resulta da apurada sensibilidade poética do autor, estimulada pela presença da beleza que envolve o nascimento de uma criança e pelo encantamento que é observar o seu crescimento, havendo também lugar para delicadas reflexões sobre o mistério e o significado da morte.

Tagore foi um exímio manipulador de palavras, cuidadoso nos objetivos, primoroso nas imagens e poético na prosa.

A propósito da morte da sua mãe, escreveu: 

"Mais tarde, vagabundeando eu pelo mundo na liberdade da juventude, quando chegava a primavera prendia no meu cachecol um ramo de brancos jasmins; estes roçavam suavemente na minha testa, e sentia-os como se fossem os dedos da minha mãe que me tocavam; e concluía que a ternura que se desprendia da ponta daqueles doces dedos era a mesma que desabrochava todos os dias na pureza daqueles jasmins em botão; e, hoje, tenha ou não consciência disso, sei que a mesma ternura está espalhada por toda a terra em doses infinitas."

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"Histórias Curtas" - a ficção, segundo Rubem Fonseca


Contista, romancista, ensaísta e guionista, Rubem Fonseca já há muito que convive com o estatuto de um dos mais originais prosadores brasileiros contemporâneos. De resto, em 2003 ganhou o Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa.

As suas Histórias Curtas (Sextante Editora, 2016) são constituídas por 38 narrativas velozes e sofisticadamente urbanas, cheias de violência, erotismo, irreverência e construídas num estilo elíptico, quase cinematográfico. Lêem-se num ápice, com prazer. 

Contudo, convém fazer um aviso à navegação: nem todos os leitores aguentam este nível de violência (crua é a palavra certa) e aceitam o sentido de humor (negro, há que dizê-lo sem pudor) tão característico e comum à prosa de Rubem Fonseca.

terça-feira, 4 de julho de 2017

"O Velho e o Gato" - uma história de amor felino vivida por Nils Udderberg

Da Primavera sueca chega-nos um livro escrito com uma simplicidade desarmante por um psiquiatra e intelectual prestigiado.

Em O Velho e o Gato, Nils Uddergerg, antigo professor universitário na área da Psiquiatria, conta como, numa fria manhã de Inverno, se tornou dono de uma gata, embora nunca tenha desejado qualquer espécie de animal doméstico. Ao longo da obra, o autor vai narrando a forma como o pequeno felino se introduziu, suave mas firmemente, na sua vida. Nessa leve e permanente intromissão, o autor encontra a oportunidade para especular acerca da vida interior do gato, bem como refletir sobre a natureza da relação entre um animal e um ser humano.

Longe de ser uma obra literária incontornável (nem sequer aspira alcançar tal estatuto), O Velho e o Gato vale, sobretudo, enquanto ato de humildade intelectual ao não pretender ser mais do que aquilo que é: o registo afetivo de uma vinculação inesperada na terceira idade do seu autor.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...