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domingo, 26 de julho de 2015

A vida entre parêntesis - Capítulo 3 (sementes numa mini-maratona)

José Lucas irritava-se com a contemporânea obsessão pelo desporto e pela boa forma física. Parecia que vivíamos numa época de não-morte e de culto da vida eterna. Que não se confundisse isto com uma espécie de ritual apolíneo nem tampouco com espiritualidade. Não, a fixação consumista era mesmo com o culto do eu. O self. As selfies. Pobre vocabulário reinventado.
As maratonas - que agora assumiam a forma de minis e meias - pareciam competir com os festivais de música: começaram timidamente até dominarem a publicidade, invadirem praças, parques naturais e baldios.
Incomodava-o ver novos, velhos, deficientes motores, doentes (quase) terminais, todos sorridentes, em calções, a caminhar aos encontrões, a correr ou a serem empurrados como se se tratasse somente de um passeio relaxante. E a morte uma eterna coisa adiada.

(Esta gente julga que não vai morrer. Porventura, acham  que um ou dois anos mais de vida significa alguma coisa na Grande História Universal. Ou na História Cósmica. Estas pessoas levam-se demasiado a sério. Sobrevalorizam-se. Ou, como diria o meu avô, esta gente pensa que vai ficar cá para semente.)

Após vencer a maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, sempre que José Lucas via o Carlos Lopes como convidado em programas de televisão ou como rosto da publicidade a uma marca de iogurtes, ficava impressionado com o ar pouco saudável que o antigo atleta aparentava. Parecia alguém que, após anos de privação alimentar forçada, inchara à custa de bom vinho e de duas doses de cozido à portuguesa por refeição.

(Fazia-lhe bem umas caminhadas. Ao Carlos Lopes. Digo eu!)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A vida entre parêntesis - Capítulo 2 (O Pensador)


Entrou no café, pensativo. Não fosse o estabelecimento chamar-se O Pensador e José Lucas sentir-se-ia um estranho. Estrangeiro. Alienado. Estranho estrangeiro alienado. Em boa verdade, também ali ninguém ousava pensar.

(Até n' O Pensador!)

Sentou-se. Pediu um café. Acendeu um cigarro. Na televisão um par de apresentadores, histéricos, discutiam com um psicólogo os motivos de um crime passional ocorrido no Seixal. O empregado serviu-lhe o café.

(Pode levar o pacote de açucar.)

Com a pequena colher, mexeu o café, hábito que adquirira dos tempos em que costumava pôr um pouco de açucar.
Lá fora, começou a chover.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A vida entre parêntesis - Capítulo 1 (Jesus na Grécia)


Quando, finalmente, conseguiu um lugar para se sentar, na parte de trás do autocarro, José Lucas esforçava-se por não pensar mais naquele assunto que o atormentava desde o dia anterior.

(Poderia a Grécia sair da Zona Euro?)

Escutava com atenção as conversas à sua volta e não entendia a indiferença das gentes de Lisboa. E se era assim na capital, como seria no resto do país?...
Não, José Lucas nunca lidara bem com a indiferença perante o que é realmente importante: as pessoas, as famílias, o cidadão, a microeconomia, a justiça, o outro.

(O que aconteceria se a Grécia não chegasse a acordo com o Eurogrupo?)

O conformismo, a obediência passiva a patrões e burocratas incomodava-o ao ponto de lhe tirar sono. Na última noite não pregara olho.
Quando saiu do autocarro pegou num dos jornais gratuitos do expositor junto à paragem. Leu o título em destaque.

(Jesus já prepara a nova época no Sporting).

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...