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terça-feira, 25 de outubro de 2022

Banda sonora para o Outono (42) - David Cross and Andrew Keeling: "October Is Marigold"

Na semana em que iremos passar à hora de inverno, e em pleno mês de outubro, nada como escutarmos um disco pensado, precisamente, como banda sonora para o outono. Trata-se de música de câmara com harmonias eletrónicas que traduzem a imagética desta estação do ano em paisagens sonoras executadas com a mestria própria de dois compositores gigantes, oriundos do rock progressivo e da música clássica. October Is Marigold deve ser fruído do princípio ao fim. 

domingo, 23 de outubro de 2022

Banda sonora para o Outono (41) - a-ha: "True North"

Banda com quase quatro décadas de percurso artístico e criativo, os a-ha ficaram, irreversivelmente, marcados pelo hit Take On Me, canção que, em boa verdade, abria um álbum - Hunting High and Low (1985), de seu nome - que estava cheio de melodias pop bem urdidas e quase todas mais interessantes do que aquele single. 

Uma dezena de álbuns de originais depois, o grupo norueguês continua em boa forma, tendo lançado esta semana um disco orquestral, pleno de canções compostas com o cuidado e o rigor próprios da maturidade que os quarenta anos de experiência musical tornam possível. Convém sublinhar que True North (assim se chama o LP) é um disco pop, sim, mas contra a corrente, avesso a modas ou a sonoridades mais modernas, optando por harmonias intemporais, muito graças à colaboração com a Orquestra Filarmónica do Árctico. 

Carta de amor à natureza, True North é uma obra maior do que a soma das suas partes. Um dos discos do ano - vale a pena ouvi-lo do princípio ao fim.



segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Banda sonora para o outono (40) - Sweet Billy Pilgram: "Wapentak"


Agora reduzidos a um duo, os Sweet Billy Pilgrim aproveitam para ensaiar uma viagem alternativa às texturas sónicas complexas (e sempre surpreendentes), rumo a canções simples e despojadas dos arranjos épicos que caracterizaram parte dos trabalhos anteriores.

Wapentak é um disco de canções gravadas quase sempre num registo acústico para realçar a melodia e a voz. E que canções, senhoras e senhores! Ouça-se Ash on the blacktop, Asking for a friend ou A shelter of reeds e entenda-se por que esta transformação intencional no som não representa uma descaracterização do projeto estético da banda, mas sim a exploração de uma música mais orgânica, romântica e melancólica. E, por que não, outonal.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Banda sonora para o outono (39) - Lloyd Cole: "Guesswork"

Eis o primeiro grande disco para o outono que agora começa. Estivessem as estações do ano a revelarem os padrões que outrora as definiam e as canções de Lloyd Cole seriam a banda sonora melancólica perfeita.

Cantautor veterano, poeta de primeira água e compositor inspirado, Cole talvez seja o maior herdeiro de Leonard Cohen. 

Guesswork está aí para se tornar um clássico. Neste álbum, o autor de Rattlesnakes (1984) experimenta sonoridades eletrónicas com a classe e a sofisticação a que nos habituou desde aquele disco seminal. Ouça-se, com a atenção que o artista britânico merece, as canções Night sweats, Violins, The afterlife e When I came down from the mountain, momentos de génio de uma obra sublime.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Banda sonora para o outono (38) - Bat For Lashes: "The Bride"


Saiu no verão, mas é um álbum outonal na forma (texturas sonoras delicadas, cordas dedilhadas com elegância, teclas afloradas com graciosidade, voz melancólica) e no conteúdo (é como se fosse a versão poética de "O Monte dos Vendavais", de Emily Brontë).

The Bride é um disco lindíssimo que, à semelhança da última obra de Nick Cave, vale pelo todo, não se reduzindo às suas (lindíssimas) canções.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Banda sonora para o outono (37) - Nick Cave: "Skeleton Tree"


Em 2015, Nick Cave perdeu um filho. Chamava-se Arthur, tinha 15 anos e morreu num brutal e inesperado acidente (caiu de uma ravina). Skeleton Tree foi composto e gravado durante o processo de luto, um luto sempre inacabado para pais que perderam um filho. A música que resulta desse período é uma viagem ao reino de Jesus Cristo, que tem como ponto de partida o inferno. Poemas metafísicos, pautas celestiais e voz sofrida. É como se o artista australiano vestisse a pele de Orfeu e embarcasse numa viagem sónica rumo às profundezas do Hades, não para resgatar Eurídice mas para salvar o filho - projeto inacabado de si próprio. 

Cave imagina quem o filho poderia ter sido se chegasse à velhice ou voltasse a nascer. Renasce Lázaro. Regressa Arthur.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Banda sonora para fim de outono - Jose James: "Yesterday I Had The Blues - The Music Of Billie Holiday"

Se os ouvidos do século XXI estivessem para aí virados, Jose James não seria apenas catalogado como músico de jazz (o que, em boa boa verdade, já não é pouco) - com muitos fãs conquistados numa carreira que ainda vai em meia dúzia de anos, convém salientar - e passaria a ter o estatuto de artista global, que bem merece, tanto pela substância das canções contidas nos seus três álbuns como pela diversidade estética de que se mostra capaz a cada novo disco.

No mais recente Yesterday I Had The Blues - The Music Of Billie Holiday, Jose James homenageia a diva da música negra norte-americana de forma simultaneamente reverente (o respeito pela melancolia das canções originais) e irreverente (as interpretações de James conferem novas formas ao espólio selecionado, levando o ouvinte a facilmente esquecer que estas canções foram celebrizadas pela voz de Billie Holiday).

Obrigatório! 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Banda sonora para o outono - Genesis: "R-Kive"

Com Pink Floyd e Yes, os Genesis formam o sacrossanto triunvirato do rock progressivo. Acabam de lançar o seu mais detalhado acervo com o triplo R-Kive. Trata-se de uma coletânea que reúne excertos das três fases da banda britânica, além de músicas representativas dos projetos de Peter Gabriel, Steve Hackett, Tony Banks, Mike Rutherford e Phil Collins fora dos Genesis. Num século que parece apostado em eliminar a memória dos clássicos da cultura popular, é bom lembrar que os Genesis trouxeram ao mundo obras como Selling England by the Pound, Foxtrot, The Lamb Lies Down on Broadway, Wind & Wuthering e A Trick of the Tail. Ouvir Genesis, hoje, é saber que houve um tempo em que os músicos populares não temiam o risco e procuravam persistentemente fazer Arte. E, mais estranho, vendiam a sua obra às massas. Era o tempo em que as estações de televisão e as emissoras de rádio cumpriam o seu papel de educar o público.

Ouçam-se canções como The Carpet Crawlers e Mama e compare-se com o que hodiernamente se ouve nas rádios. A música dos Genesis não tem paralelo com a maioria do rock contemporâneo, sendo, ainda hoje, mais moderna e ousada do que aquilo que se ouve por aí. Genesis R-Kive é, indubitavelmente, um dos acontecimentos discográficos de 2014.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Banda sonora para o outono - Pink Floyd: "The Endless River"

Não podíamos deixar passar ao lado aquele que é, talvez, o acontecimento musical de 2014: o lançamento do novo álbum dos Pink Floyd, The Endless River. Primeiro, porque se trata quase de certeza da última obra da mítica banda de rock progressivo; depois, porque é um disco de uma humildade desconcertante, revelando a maturidade de dois músicos (David Gilmour e Nick Mason) que já nada têm a provar ao mundo, certos de que já imprimiram a sua marca incontornável na história da arte há muitos anos atrás; mas sobretudo porque The Endless River é uma comovente homenagem a Rick Wright. É como se os Pink Floyd celebrassem uma última vez o prazer de estar em estúdio antes de saírem pela porta principal, talvez com um olhar sereno por cima do ombro e fechando a porta suavemente.


sábado, 27 de setembro de 2014

Banda sonora para o outono - Alt-J: "This Is All Yours"

Adivinha-se um outono com muitos bons discos, sendo, definitivamente, esta a estação do ano pródiga em Arte, assim na música como nas exposições, nos livros e no cinema. 

Vejamos: os U2 regressaram em força com Songs of Innocence, Leonard Cohen comemorou oito décadas de vida com o belíssimo Popular Problems, Thom Yorke aprofunda texturas eletrónicas em Tomorrow's Modern Boxes e os Alt-Jay crescem a olhos vistos no seu segundo LP, This is All Yours. São 13 delicadas canções pop, que anunciam a estação da melancolia redentora. Quando revisitarmos 2014 para escolher as melhores canções, talvez não selecionemos qualquer tema do novo disco dos Alt-J porque se trata de uma obra onde o todo é mais importante que a soma das partes. Mesmo assim, arrisco "Nara" e "Hunger of the Pine" como duas das canções do ano. 

Um álbum obrigatório!



terça-feira, 9 de setembro de 2014

Banda sonora para o fim do verão: Rustie - "Green Language"

Para quem já sente saudades do outono, eis a música ideal: o álbum Green Language, de Rustie. Para que não restem dúvidas, as 13 delicadas ambiências sonoras que constituem o disco são geniais e, indubitavelmente, pensadas, testadas e, melhor ainda será afirmarmos, experimentadas como um todo. Trata-se de um produto claro de um laboratório sonoro com um pé no calor de fim de tarde numa qualquer esplanada à beira-mar e outro a pisar chão de folhas caídas. Ouça-se "Raptor" ou "Dream On" e a metáfora anterior será claramente percebida.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Banda sonora para o outono - Fish: "A Feast of Consequences"



Há artistas que decidem virar costas à fama quando a integridade artística e a criatividade se aproximam de um limbo. Fish é um desses casos. Corria o ano de 1988 e os Marillion encontravam-se no auge do sucesso comercial, tendo concluído uma digressão mundial impressionante que culminava uma carreira ascendente de (na altura) apenas seis anos. Os dois últimos álbuns foram, bem vistas as coisas, os discos que salvaram o rock progressivo: os míticos "Misplaced Childhood" e "Clutching at Straws". Eram obras pensadas, criadas, compostas e gravadas com cuidado e minúcia arquitetónicas. À frente dos Marillion, Fish era o cantor-poeta, o gigante carismático de voz gentil mas sofrida, que aquelas letras eram de homem vivido. Então, porquê abandonar o grupo nesse pico criativo? Porque sim, pronto. Porque há autores que preferem percorrer o seu próprio caminho mesmo que ele implique abnegação. Porque o solipsismo é coisa que nasce connosco e determina as escolhas que fazemos. Porque há homens que não foram talhados para a fama. Porque há artistas que perspetivam o reconhecimento das massas como uma ameaça à criatividade. Porque a divergência exige risco.

Pois bem, Fish acaba de editar "A Feast of Consequences", obra densa, profundamente poética, que mesmo nos momentos mais delicados não deixa de ser intensamente negra. Em entrevista recente a uma revista britância, o artista afirma que não há razões na vida para sermos otimistas, acrescentando que o seu ceticismo o mantém lúcido e irremediavelmente longe da alienação. Convém referir que o cantautor passou por um interregno editorial forçado, já que um tumor nas cordas vocais levaram-no a pensar que nunca mais poderia voltar a cantar. Em boa hora, Fish recuperou a saúde e foi desenvolvendo o conceito para um disco concetual a partir de uma pesquisa detalhada sobre a experiência dos seus avós como soldados nas trincheiras durante a 1ª Guerra Mundial. O resultado é um álbum espantoso, que vai conquistando os ouvidos a cada nova audição. Claro que não é peça para qualquer ouvido. É, antes de mais, preciso perceber que o rock também pode ser música erudita com voz, guitarra, baixo e bateria. Ouça-se, por exemplo, as suites "High Wood" e "Perfume River", ou as canções (belíssimas!) "The Other Side of Me", "Blind to the Beautiful" e "The Great Unravelling".

Sem dúvida, um dos melhores discos do ano.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Banda sonora para o outono: Blackfield - "IV"

Só a distração e o mau gosto da imprensa especializada em música pode justificar passar ao lado de um dos grandes discos deste outono. Trata-se do projeto Balckfield e do álbum "IV", autêntico tratado de perfecionismo pop-rock assinado por músicos oriundos da área do rock sinfónico e progressivo (o israelita Aviv Geffen e o mestre do prog introspetivo Steven Wilson). Juntamente com os novos LPs de Fish, John Lees' Barclay James Harvest e Dream Theater são, talvez, os melhores discos deste outono.


sábado, 19 de outubro de 2013

Banda sonora para o outono - Kenny Garrett: "Pushing The World Away"

Kenny Garrett é um dos nomes fortes do jazz contemporâneo. Tocou na orquestra de Duke Ellington e na banda de Miles Davis, tendo editado o seu primeiro LP em nome próprio em 1984. Desde então, tem construído a sua obra num tecnicismo crescente e em estéticas herdeiras de John Coltrane e Sonny Rollins. "Pushing The World Away", editado no início do outono, é um álbum que harmoniza o post bop e o jazz fusion mais espiritual com resultados impressionantes do ponto de vista da composição e da execução. 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Banda sonora para o outono - Gregory Porter: "Liquid Spirit"

Há um disco que não sai da minha aparelhagem há já duas semanas: chama-se "Liquid Spirit" e traz a assinatura de Gregory Porter, talvez a mais profunda voz do jazz surgida no século XXI. Descobri este artista num concerto transmitido no canal Mezzo. Fiquei imediatamente hipnotizado pelo canto natural e pela simpatia de Porter. De grande porte, mas com pose elegante, o músico destaca-se pelo timbre e fraseado singular, por uma voz simultaneamente suave e poderosa, que evoca toda uma tradição de cantores norte-americanos de jazz e soul. 

Gregory Porter cresceu na Califórnia mas foi do lado Atlântico do continente americano que nasceu, verdadeiramente, para a música. Na verdade, foi já a viver em Brooklyn que lançou, em 2010, o seu disco de estreia, Water, seguido em 2012 pela obra-prima Be Good. Agora, aos 41 anos, assinou contrato com a editora Blue Note para a edição do terceiro álbum, o espiritual Liquid Spirit. Que não restem dúvidas: Liquid Spirit é mesmo um disco para polir a sensibilidade e elevar a alma. Quem não ouviu ainda Gregory Porter que o faça imediatamente, pois arrisca-se a passar ao lado do futuro do jazz e - mais importante ainda - poderá nunca vir a perceber por que razão a música também pode ser uma experiência religiosa.

Gregory Porter dará esta semana dois concertos em Portugal: dia 9 no CCB e dia 11 na Casa da Música. Que fizemos nós para merecer isto? 


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Banda sonora para o outono (27) - Cody ChesnuTT: "Landing on a hundred"

Cody ChesnuTT foi o autor de "The headphone experience", provavelmente a maior obra da soul music da década passada. Na verdade, esse foi um disco monumental composto por mais de trinta canções da mais pura filigrana musical, à altura do legado de autores como Marvin Gaye e Stevie Wonder. 

Dez anos volvidos sobre a dita obra, finalmente Cody ChesnuTT edita o LP sucessor (sim, o homem compõe sem pressa, consciente de que quando a música é boa o artista não é esquecido). Chama-se "Landing on a hundred" e justifica o tempo que levou a bulir. É um disco com doze canções nascidas de uma alma maior, que sabe que a música vale por si mesma e que uma obra-prima basta-se a si própria. Além disso, talvez esteja aqui a melhor canção do ano: "Chip's Down (in a landfill)".

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Banda sonora para o outono (26)

Corresponsáveis pelo ressurgimento em força do rock progressivo, os Muse acabam de lançar o muito aguardado sexto álbum de uma carreira discográfica fulgurante. The 2nd Law prolonga o esforço da banda para criar uma sonoridade cada vez mais pop e orelhuda. Estamos, portanto, perante um disco com algumas boas canções (Madness, Big Freeze, Follow Me são épicos que vão com certeza levar os fãs ao rubro nos concertos de estádio), mas que está longe de ser uma obra-prima, aumentando a distância dos Muse em relação às suas grandes referências, nomeadamente aos bíblicos Radiohead e Pink Floyd. Na verdade, The 2nd Law soa a um bom disco dos Queen. Nem mais nem menos.

Muse - "Madness"

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Banda sonora para o outono (25) - "HQ Live", Incubus

Há cerca de um ano, os Incubus editaram aquele que é talvez o melhor disco da sua carreira, "If not now, when?". Álbum confessional, de pendor introspetivo, foi considerado por este escriba um dos dez melhores álbuns de 2011. Para promover o lançamento dessa obra, a banda norte-americana decidiu oferecer aos fãs um concerto intimista, cujas impressões foram registadas sob a forma de desenhos numa grande tela. Finalmente, todos podemos desfrutar da gravação desse concerto em "HQ Live". 

O álbum percorre os momentos fundamentais da discografia da banda, desde o clássico "Drive", passando pela adrenalina de "Anna Molly" até à balada arrepiante "If not now, when?". Não é um disco obrigatório, já que por aqui não há nada de novo; mas confirma uma banda na sua plena maturidade artística e em verdadeiro estado de graça.

Incubus - "If not now, when?"

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Banda sonora para o outono (24) - "Tempest", de Bob Dylan

Patriarca dos cantautores, poeta por excelência, vencedor do Pulitzer, um dos candidatos ao Prémio Nobel da Literatura (há quem diga que este ano vai parar às suas mãos), trovador folk e blues carregado de aspereza na voz, músico rock incontornável, ativista político (mesmo que sempre tenha recusado tal epíteto), vencedor de um Óscar, Bob Dylan é tudo isto e muito mais. A sua vida já deu um fabuloso documentário assinado por Martin Scorsese; a sua obra inspirou ícones como Bruce Springsteen; as suas composições têm contribuído para a luta pela defesa dos Direitos Humanos. O mundo comemora este ano o simbolismo de 50 anos de carreira do músico maior do século XX, aproveitando o lançamento do seu 35º LP, "Tempest". E que disco, senhores!

Para quem ainda estiver na disponibilidade de escutar repetida e concentradamente um disco, facilmente se deixará levar pela gentileza melódica de "Duquesne Whistle", a sinceridade crua de "Pay In Blood", o romantismo de "Scarlet Town", a nostalgia trágica do tema-título (ode centenária ao Titanic) e o saudoso abraço de "Roll On John" (canção para relembrar outro ícone do século passado, o enorme John Lennon).

"Tempest" está aí para quem quiser perceber por que Bob Dylan vai ganhar o Nobel e por que será o artista mais celebrado deste fim de ano.

Bob Dylan - "Duquesne Whistle"

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Banda sonora para o outono (23)

José Cid acaba de lançar o álbum "Quem tem medo de baladas". Esperemos que seja o mote para a definitiva reconciliação da crítica com um dos mais brilhantes compositores nacionais.

Em boa verdade, foi um longo e acidentado caminho desde os tempos do Quarteto 1111 (para quem não sabe, foi talvez a melhor banda rock cá do burgo entre as décadas de 60 e 70 do século passado) até ao disco de que agora se fala. Pelo meio, aconteceu o surpreendente disco "10.000 anos depois entre Vénus e Marte" (1978), um marco na história do rock progressivo, que viria mais tarde a obter reconhecimento internacional, sendo incluído numa lista da Billboard dos 100 melhores álbuns desse tão inovador género musical. Como este multifacetado músico conciliou este disco com a participação em inúmeros festivais da canção será tema para uma merecida e exaustiva biografia, a ser lançada, quiçá, um dia.

"Quem tem medo de baladas" é um grande disco para este fim de outono, capaz de desfazer qualquer dúvida dos melómanos mais céticos em relação ao cantautor. Senão vejamos: tem a participação de Os Corvos (na canção de abertura, "Tocas Piano"), composições de Gary Brooker (o poético "Cavalos de Fão"), António Carlos Jobim (o clássico "Discussão"), Vitorino (a popular "Bárbara dos Trovões"), Donovan (o saudavelmente destrambelhado "Mellow Yellow") e do próprio José Cid (de resto, a maioria dos temas são assinados pelo próprio artista); as letras são do autor do clássico "20 anos", mas também resultam de poemas de Sophia de Mello Breyner (o inspiradíssimo "Um dia") e de Ana Sofia Cid (que aqui se estreia num dueto com o pai em "Tempestades"). Cereja no topo do bolo: "Quem tem medo de baladas" termina com um medley, simbolicamente intitulado "Canções de sempre" - designação que só um artista (com "A" maiúsculo) como Cid se pode dar ao luxo (e arrogância!) de advogar. Aos 69 anos, não precisa de provar nada ao país - as suas canções falam por si e ficarão para sempre.

José Cid - "Um louco amor"

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...