Estamos perante uma obra impressionante (diria até impressionista), quase uma peça de câmara, rigorosamente escrita, realizada e interpretada. Sem dúvida, um dos melhores filmes estreados em 2020.
Ideias, opiniões, gostos, prazeres, fruições, sensibilidades e rotinas serão aqui registadas.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2021
"O Ninho" - o vício do capital, segundo Sean Durkin
O Ninho é um espantoso filme de Sean Durkin (que já antes assinara o perturbador Martha Macy May Marlene). A ação situa-se na segunda metade da década de 80 e centra-se num família que se muda de Nova Iorque para Londres, movida pela ambição desmedida e sempre insatisfeita de um yuppie. Aquilo a que assistimos a seguir é a descida ao inferno em que se torna a vida quando é direcionada exclusivamente pela obsessão pelo capital.
quinta-feira, 5 de agosto de 2021
"O Rei de Staten Island" (2020) - de Judd Apatow
Judd Apatow é um dos comediantes, guionistas, produtores e realizadores mais interessantes dos últimos trinta anos. A sua prolífica carreira inclui a assinatura de filmes tão hilariantes e singulares (no sentido de não se limitarem a repetir fórmulas, antes evidenciado marcas do seu autor) como Virgem aos 40 e Aguenta-te aos 40!. A sua obra mais recente, O Rei de Staten Island, é uma comédia brilhante sobre um adolescente tardio que vive desorientado desde a morte do seu pai, um bombeiro que morreu em serviço. Scott, o protagonista, tem já 24 anos mas ainda vive com a mãe, não concluiu o ensino secundário, está desempregado e sem vontade de encontrar trabalho, passa os dias a fumar erva e a exercitar as suas competências como tatuador, embora o seu talento como desenhador seja, no mínimo, peculiar.
Apatow dá ao filme um sentido de espontaneidade, como se tudo fosse simples captação da realidade em bruto. Para esse realismo muito contribui a excelência dos atores e do argumento baseado na vida do ator principal, Pete Davidson. Estamos, portanto, perante um curioso exercício de autoficção.
quarta-feira, 4 de agosto de 2021
"Bill e Ted salvam o universo" (2020) - de Dean Parisot
Se aproveitar as possibilidades de uma máquina do tempo para reunir Mozart, Louis Armstrong e Jimi Hendrix numa superbanda de rock sinfónico parece ser uma ideia engraçada, o terceiro filme da saga iniciada em 1989 por Stephen Herek (A Fantástica Aventura de Bill e Ted) encarrega-se de nos mostrar que não bastam boas premissas para construir boas histórias e fazer bons filmes.
Na verdade, Bill e Ted salvam o universo é uma comédia anódina, que se limita a clonar fórmulas gastas com propósitos inteiramente comerciais. A evitar!
sábado, 27 de junho de 2020
"Da 5 bloods" - apologia da inter-racialidade
Descobri o cineasta Spike Lee com o filme Do The Right Thing, corria o ano de 1989 e estava a terminar o liceu (por onde anda esta palavra, verdadeira referência identitária de uma adolescência quase adulta?). Alguns críticos referiam-se a Spike Lee como o Woody Allen negro, mérito das suas primeiras obras (She's Gotta Have It, de 1986, e School Daze, de 1988), onde, sendo já possível encontrar as marcas distintivas do seu cinema (e que iria apurar em obras posteriores), conhecíamos personagens urbanas intelectuais de classe média, as suas relações afetivas e dilemas existenciais embrulhados numa estética próxima dos primeiros clássicos do realizador de Annie Hall (1979) e Manhattan (1979). Rever hoje She's Gotta Have It ou Do The Right Thing é redescobrir comédias frescas, ousadas e, acima de tudo, livres. Sim, as melhores Spike Lee joints são aquelas em que se sente que o realizador está - à semelhança de Allen, Coppola, Kubrick ou Tarantino - a fazer realmente o filme que queria com total liberdade criativa.
Estamos em 2020 e o cinema já não é sinónimo de sala escura e grande ecrã. Spike Lee disse numa entrevista recente que fica estupefacto quando os seus alunos de cinema lhe contam que viram épicos de David Lean no telemóvel, e é essa a sensação do cinéfilo ao ver que o novo filme do autor de Jungle Fever (1991) foi concebido para a Netflix e não para o grande ecrã. Mas Da 5 bloods é cinema autêntico: uma comédia trágica americana filmada com o rigor e a sabedoria de um artista já veterano e o desprendimento experimental do jovem que assinou Do The Right Thing há mais de 30 anos.
Quatro velhos amigos, irmãos de armas na Guerra do Vietname, regressam a este país, 50 anos depois, para resgatarem o corpo de um soldado e recuperarem as barras de ouro que esconderam na selva vitenamita. Spike Lee intercala a narrativa principal com imagens de arquivo e com flashbacks dos cinco camaradas no inferno da guerra mantendo os atores sem qualquer rejuvenescimento (ao contrário, por exemplo, do artificialismo digital de O Irlandês (2019), de Martin Scorsese).
Que não restem dúvidas: este é o Spike Lee pregador, historiador especialista em african-american history, intelectual num perpétuo estado de angústia, mas também o artista otimista que vê claramente que Deus é Amor, que Ele está na beleza das canções de Marvin Gaye, na inter-racialidade e que só o Amor nos pode salvar enquanto indivíduos e enquanto espécie. Ah!, e há um Delroy Lindo no papel da sua vida. Só por ele, e pela garra da sua interpretação, já valia a pena ver este digno sucessor de BlacKkKlansman (2018) e - por que não dizê-lo - Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
"A Despedida" - os bons afetos, numa película delicada de Lulu Wang
Nomeado para dois Globos de Ouro, A Despedida baseia-se numa história pessoal da realizadora Lulu Wang, aqui representada pela estrela sino-americana Awkwafina, uma jovem adulta, Billi de seu nome, filha de emigrantes chineses nos Estados Unidos da América, à beira de ser despejada do seu apartamento e sem perspetivas de futuro em terras do tio Sam. Quando recebe a notícia de que a sua avó, Nai Nai, padece de uma doença fatal, Billi discorda da decisão da família de ocultar a enfermidade à matriarca; contudo, alinha na encenação de montagem apressada de um casamento como pretexto para a reunião da família na China. Aí, é tempo de revisitar as raízes há muito recalcadas de uma infância longínqua e idílica.
A realização de Lulu Wang é delicada, claramente à procura de não sobrepor um qualquer olhar estético aos personagens e à essência - simples - do argumento. Por vezes, lembra o Ang Lee de O Banquete de Casamento (1993), mas mais pretensioso e sem o sentido de humor e a ousadia deste. Acompanhado por uma discreta mas belíssima banda sonora, é um filme agradável sobre o desenraizamento, embora demasiado leve para ser mais do que uma passagem pelo álbum de família da cineasta.
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