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sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Mudar


Por vezes, sentimos que precisamos de recomeçar. Contudo, começar de novo implica estarmos dispostos a nos reinventarmos, a procurar outras soluções para velhos problemas. Se não tivermos ainda percebido que a natureza está em permanente devir (e Heraclito registou esta evidência, a partir da observação rigorosa, há mais de dois milénios), também não seremos capazes de mudar. O problema é que, quando menos esperamos, as circunstâncias requerem capacidade de adaptação e, caso não revelemos essa aptidão, se formos resistentes à mudança, estagnamos e tornamo-nos inflexíveis.

Ora, o recolhimento proporciona momentos de reflexão cuidada que sustentam as melhores escolhas que podemos fazer.

É bom lembrar as palavras de Curzio Malaparte no livro Kaputt: “Prefiro que seja necessário refazer tudo a ser obrigado a aceitar tudo como uma herança imutável”.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Autonomia

 


Na sua autobiografia, Woody Allen confessa que a sua maior fobia é o medo de entrar. Convidado frequentemente a festas de gente ilustre (por vezes, políticos ou artistas que ele muito admirava) deixava-se ficar à porta a esforçar-se por superar o medo de entrar e ser forçado a estar presente, a ter que sorrir e socializar.

Na verdade, sempre vimos com melhores olhos pessoas populares e altamente sociáveis do que aquelas que preferem estar sós. Contudo, tal como Woody Allen, na maior parte das vezes, também eu “prefiro ficar no meu apartamento”. Por isso, há que conseguir dizê-lo alto e bom som; sabermos recusar o convite sem receio do que os outros possam pensar. Nesse aspeto, a personalidade daquele cineasta norte-americano é admirável, aliás, chegou a recusar prémios pela sua obra porque a condição para os receber seria ter que estar presente na cerimónia de entrega e recebê-los pessoalmente.

No início, pode custar, mas cedo nos habituaremos a decidir autonomamente, não cedendo a pressões ou a preocupações com aquilo que os outros irão pensar. Diz um conhecido aforismo que se é verdade que não posso controlar o que os outros pensam, posso controlar aquilo que penso.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Correr

 


Há cerca de dez anos, redescobri um dos meus prazeres de infância: correr. A corrida (tal como a caminhada) é um exercício terapêutico: liberta toxinas, reequilibra mente e corpo, mas também proporciona momentos de introspeção, reflexão e balanço interior.

Correr regularmente reposiciona-nos perante o mundo, ajudando-nos a mitigar problemas e preocupações. Em boa verdade, correr produz efeitos semelhantes à meditação e, ainda que possamos treinar em grupo ou em equipa, os resultados são mais benéficos quando corremos sozinhos. Primeiro, porque exercitamos a motivação intrínseca (dependemos apenas de nós próprios para superarmos limites); segundo, porque definimos o nosso ritmo individual e as metas que pretendemos alcançar, tornando a prática mais livre e saudável; e, por último, porque desenvolvemos a capacidade para nos concentrarmos no silêncio, apurando o foco e depurando o pensamento.

Por isso, correr também é um ato solitário.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Detox

 


Na canção referida no capítulo anterior, Rui Veloso canta (…) e vale mais uma palavra / que mil imagens por minuto. Embora a música tenha sido composta na década de 90 do século XX, a letra está mais atual do que nunca.

De facto, vivemos, definitivamente, na era das imagens, aceleradas por redes sociais virtuais como o Instagram. Publicamos fotografias das férias de Verão em poses encenadas, dos aniversários dos filhos, da iguaria prestes a degustar à mesa do restaurante, enfim, um sem-número de atos quotidianos triviais que tornamos públicos, esbatendo a fronteira com a esfera privada. É a distopia Orwelliana materializada pela vontade individual (egocêntrica e acrítica, diria eu).

Mas não será esta aparente obsessão coletiva com as imagens uma máscara da solidão individual? Uma forma de nos iludirmos (e de iludirmos os outros) de que somos populares, bem-sucedidos e levamos a vida perfeita?

Tal banalização do quotidiano sobrepõe-se ao prazer espontâneo que outrora sentíamos naquilo que experienciávamos. Agora, há que registar tudo na câmara do smartphone e publicar as imagens, identificando devidamente o local.

Afinal, queremos ser permanentemente observados? E estamos a comunicar com quem? Com centenas, quando não milhares de amigos virtuais, muitos deles seguidores que nunca vimos fora do ecrã do telemóvel?

Há que redescobrir o prazer da fruição do instante, viver o momento apenas para vivê-lo e esquecer a pressão da foto, exercitando, desse modo, a memória afetiva.

Ao invés de querer encenar mais uma fotografia, experimente o prazer de apenas conversar com a pessoa que o/a acompanha. Ou, em alternativa, concentre-se no silêncio, na paz que o momento lhe transmite, na música que está a ouvir no concerto, no prato que está a saborear ou, simplesmente, limite-se a comungar com a Natureza. Vai ver que vale a pena!

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Lentidão

 


No mundo urbano do século XXI, tanto em países ricos como em países pobres, precisamos que tudo seja rápido, desde o nascer do dia até ao cair da noite. Pensemos sobre há quanto tempo não contemplamos a aurora ou o anoitecer com o devido vagar. E, a seguir, tomemos consciência do quanto isso nos faz falta. Será que a forma como vivemos corresponde ao modelo de vida que desejamos? Poderá a voragem dos dias proporcionar sentido para a existência?

A reflexão, seja sob a forma de introspeção ou de pura meditação, exige lentidão. O mesmo acontece com tudo aquilo que nos dá mais prazer: degustar um delicioso prato de comida, visitar um museu, ver um bom filme, ouvir um disco do princípio ao fim, amimar as pessoas que amamos, contemplar uma paisagem natural e até descansar. Tudo isto são prazeres superiores que nos fazem sentir vivos e dão propósito à existência. Ou, pelo menos, proporcionam encontros com sentido. Dito de outro modo: todas as experiências pessoais positivas contribuem para encontrar um sentido, uma orientação ao afirmarem-se como o Norte da nossa bússola interior.

Proponho ao leitor que faça uma pausa e ouça a canção Do meu vagar, composta por Rui Veloso e Carlos Tê. Atente na letra e, depois, reflita.

domingo, 2 de outubro de 2022

Educação e cultura

 


Um aspeto importante a ter em conta é o do papel da educação na forma como perspetivamos e até no modo como desejamos a solidão, o recolhimento interior. Sem educação (e aqui referimo-nos, sobretudo, à educação formal, institucional e académica) teremos dificuldade em compreender a relevância da solidão na busca pelo autoconhecimento, mas também para sabermos manter o foco e disciplinar a capacidade de concentração.

Por outro lado, sem sede de conhecimento, sem interesse pela cultura (tanto a baixa como a alta cultura, se quisermos adotar tal distinção elitista, mas, quanto a nós, são ambas igualmente importantes e o seu acesso deve ser justamente democratizado) não saberemos como desfrutar do tempo em tebaida, teremos até aversão à perspetiva de dedicarmos tempo a nós próprios, considerando-o inútil e o equivalente a um certo descaminho. Mas, também nesse caso, seremos incapazes de entender o valor de um livro (não o conseguiremos verdadeiramente ler, dada a concentração e o foco que a leitura exige), não poderemos desfruir da audição de um disco de John Coltrane, o êxtase proporcionado pela contemplação do Belo (por exemplo, um quadro de Vermeer) ser-nos-á inacessível, assim como será impossível perceber o puro prazer estético proporcionado pelo visionamento de um filme de Ingmar Bergman.

sábado, 1 de outubro de 2022

Autoconhecimento

 

Postulámos anteriormente que a solidão é condição indispensável para o autoconhecimento.

Frequentemente, evitamos o isolamento (no sentido de estarmos connosco próprios) porque tememos não gostar de nos confrontarmos com os nossos pensamentos. Talvez tenhamos algum receio daquilo que possamos descobrir. Mas quem somos nós realmente? Quem sou eu na verdade?

Por isso, enganamo-nos ao considerar que (o convívio com) os outros são condição suficiente (se não mesmo necessária) para a nossa felicidade. Procuramos sistematicamente estar com, buscamos o frenesi, ansiamos pelo bulício, apreciamos ruído e sentimo-nos desconfortáveis quando o silêncio se instala. Estes paraísos artificiais, ainda que importantes (em proporções moderadas) para o bem-estar individual, funcionam quase sempre como fugas (uma espécie de escapismo urbano-hedonista) mas (em doses desproporcionadas) são igualmente obstáculos à introspeção, à predisposição para a autoanálise.

Em boa verdade, a solidão (acompanhada pelo silêncio) é fundamental, na medida em que ela é o primeiro alicerce para a auto-observação que devemos aprender a cultivar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Porquê a solidão?


Retomemos o ponto de partida: há que saber aceitar a solidão como atitude de vida. Isto não significa que devemos votar os outros à solidão ou aceitar a frieza da indiferença (nossa e dos outros). Há, pois, também que clarificar o que não significa a solidão aqui enaltecida, de modo a podermos demarcar com rigor a solidão desejável e que se deve cultivar do sentido comummente aceite.

A solidão como forma de autoconhecimento e condição necessária para a felicidade não deve ser confundida com: (i) desprezo pelos outros nem como uma forma dissimulada de auto-depreciação, (ii) com insensibilidade pelo sofrimento alheio ou pelo isolamento que resulta daquela postura eticamente reprovável, (iii) com menosprezo ou egoísmo, (iv) e, muito menos, com misantropia.

A solidão que devemos ser capazes de desenvolver interiormente é aquela que predispõe para a contemplação da Beleza (seja uma paisagem natural seja uma obra de arte), para a prática anónima da solidariedade (o altruísmo genuíno dispensa a publicidade para o bem que se faz) e para o autoconhecimento que, por seu turno, enterreira para amar sem barreiras.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Consumismo

 

O consumismo é inimigo da solidão que desejamos, pois incrementa a solidão que não devemos alimentar. Esta última forma de solidão advém do desejo intenso de ter e diminui a vontade de ser.

Ficamos presos à ânsia de se possuir mais bens materiais e a uma ilusória sensação de felicidade. Claro que não podemos ser felizes se não formos livres! Mas poder consumir desenfreadamente não é condição necessária, muito menos suficiente, para a liberdade. Pelo contrário, apenas nos torna uma espécie de produto em série da sociedade de consumo.

Se o livre-arbítrio estiver dependente do poder de compra, pense: qual será a percentagem de pessoas felizes?

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Compreender a solidão

 

Há que perceber a solidão, analisá-la, capacitando-nos com uma dádiva que apela ao conhecimento interior. A solidão não está a mais nem a menos. Ela não se instala para cobrar o mal que fizemos, muito menos para nos consciencializarmos de que nos afastámos dos outros, nos desvinculámos da comunidade e que passámos, filauciosos, a viver para nós próprios ou a olhar para o nosso próprio umbigo.

Há que receber a solidão como uma dádiva, deixá-la entrar como se de um entrenervo se tratasse. Ela também faz parte do edifício interior que, ao longo da vida, vamos construindo, embora nem sempre nos apercebamos, já que ela vive no imo ande a alma habita.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...