Na canção
referida no capítulo anterior, Rui Veloso canta (…) e vale mais uma palavra / que mil imagens por minuto. Embora a
música tenha sido composta na década de 90 do século XX, a letra está mais
atual do que nunca.
De facto, vivemos, definitivamente, na era
das imagens, aceleradas por redes sociais virtuais como o Instagram. Publicamos
fotografias das férias de Verão em poses encenadas, dos aniversários dos
filhos, da iguaria prestes a degustar à mesa do restaurante, enfim, um
sem-número de atos quotidianos triviais que tornamos públicos, esbatendo a
fronteira com a esfera privada. É a distopia Orwelliana materializada pela
vontade individual (egocêntrica e acrítica, diria eu).
Mas não será esta aparente obsessão
coletiva com as imagens uma máscara da solidão individual? Uma forma de nos
iludirmos (e de iludirmos os outros) de que somos populares, bem-sucedidos e
levamos a vida perfeita?
Tal banalização do quotidiano sobrepõe-se
ao prazer espontâneo que outrora sentíamos naquilo que experienciávamos. Agora,
há que registar tudo na câmara do smartphone e publicar as imagens,
identificando devidamente o local.
Afinal, queremos ser permanentemente
observados? E estamos a comunicar com quem? Com centenas, quando não milhares
de amigos virtuais, muitos deles seguidores que nunca vimos fora do ecrã do
telemóvel?
Há que redescobrir o prazer da fruição do
instante, viver o momento apenas para vivê-lo
e esquecer a pressão da foto, exercitando, desse modo, a memória afetiva.
Ao invés de querer encenar mais uma
fotografia, experimente o prazer de apenas
conversar com a pessoa que o/a acompanha. Ou, em alternativa, concentre-se
no silêncio, na paz que o momento lhe transmite, na música que está a ouvir no
concerto, no prato que está a saborear ou, simplesmente, limite-se a comungar com
a Natureza. Vai ver que vale a pena!

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