terça-feira, 4 de outubro de 2022

Detox

 


Na canção referida no capítulo anterior, Rui Veloso canta (…) e vale mais uma palavra / que mil imagens por minuto. Embora a música tenha sido composta na década de 90 do século XX, a letra está mais atual do que nunca.

De facto, vivemos, definitivamente, na era das imagens, aceleradas por redes sociais virtuais como o Instagram. Publicamos fotografias das férias de Verão em poses encenadas, dos aniversários dos filhos, da iguaria prestes a degustar à mesa do restaurante, enfim, um sem-número de atos quotidianos triviais que tornamos públicos, esbatendo a fronteira com a esfera privada. É a distopia Orwelliana materializada pela vontade individual (egocêntrica e acrítica, diria eu).

Mas não será esta aparente obsessão coletiva com as imagens uma máscara da solidão individual? Uma forma de nos iludirmos (e de iludirmos os outros) de que somos populares, bem-sucedidos e levamos a vida perfeita?

Tal banalização do quotidiano sobrepõe-se ao prazer espontâneo que outrora sentíamos naquilo que experienciávamos. Agora, há que registar tudo na câmara do smartphone e publicar as imagens, identificando devidamente o local.

Afinal, queremos ser permanentemente observados? E estamos a comunicar com quem? Com centenas, quando não milhares de amigos virtuais, muitos deles seguidores que nunca vimos fora do ecrã do telemóvel?

Há que redescobrir o prazer da fruição do instante, viver o momento apenas para vivê-lo e esquecer a pressão da foto, exercitando, desse modo, a memória afetiva.

Ao invés de querer encenar mais uma fotografia, experimente o prazer de apenas conversar com a pessoa que o/a acompanha. Ou, em alternativa, concentre-se no silêncio, na paz que o momento lhe transmite, na música que está a ouvir no concerto, no prato que está a saborear ou, simplesmente, limite-se a comungar com a Natureza. Vai ver que vale a pena!

Sem comentários:

Enviar um comentário

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...