José Lucas irritava-se com a contemporânea obsessão pelo desporto e pela boa forma física. Parecia que vivíamos numa época de não-morte e de culto da vida eterna. Que não se confundisse isto com uma espécie de ritual apolíneo nem tampouco com espiritualidade. Não, a fixação consumista era mesmo com o culto do eu. O self. As selfies. Pobre vocabulário reinventado.
As maratonas - que agora assumiam a forma de minis e meias - pareciam competir com os festivais de música: começaram timidamente até dominarem a publicidade, invadirem praças, parques naturais e baldios.
Incomodava-o ver novos, velhos, deficientes motores, doentes (quase) terminais, todos sorridentes, em calções, a caminhar aos encontrões, a correr ou a serem empurrados como se se tratasse somente de um passeio relaxante. E a morte uma eterna coisa adiada.
(Esta gente julga que não vai morrer. Porventura, acham que um ou dois anos mais de vida significa alguma coisa na Grande História Universal. Ou na História Cósmica. Estas pessoas levam-se demasiado a sério. Sobrevalorizam-se. Ou, como diria o meu avô, esta gente pensa que vai ficar cá para semente.)
Após vencer a maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, sempre que José Lucas via o Carlos Lopes como convidado em programas de televisão ou como rosto da publicidade a uma marca de iogurtes, ficava impressionado com o ar pouco saudável que o antigo atleta aparentava. Parecia alguém que, após anos de privação alimentar forçada, inchara à custa de bom vinho e de duas doses de cozido à portuguesa por refeição.
(Fazia-lhe bem umas caminhadas. Ao Carlos Lopes. Digo eu!)

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