terça-feira, 21 de julho de 2015

"House of Cards" - a corrupção democrática

O sistema político norte-americano apresenta incontáveis diferenças em relação ao nosso. Trata-se de uma república democrática, é certo, mas com muitos e distintos Estados, e outros tantos Governadores, além de se tratar de um regime presidencialista; todavia, na sua essência é uma democracia similar à nossa, a mais antiga e - talvez - exemplar. Na verdade, o republicanismo norte-americano deu ao mundo figuras modelares da importância de Lincoln, Roosevelt ou Kennedy. Figuras inspiradoras. Father figures.

Mas na era dos mass media e dos sound bites, a democracia partidária já passou há muito a idade da inocência. House of Cards, a série produzida por David Fincher para o Netflix (em Portugal passa no TV Séries), recorda-nos os fundamentos da descrença na democracia representativa. Representativa de quê? De interesses pessoais; de lobbys (políticos, económicos, empresariais, que se servem do manto de sinceridade de algumas ONG para servirem monopólios e altos interesses financeiros); de chicana político-partidária (dentro de um partido ou Governo constrói-se e destrói-se a imagem pública de alguém ao ritmo de um estalar de dedos); de gente que se serve em vez de servir a coisa pública; de traições e deslealdades.

Em boa verdade, House of Cards é um ensaio sobre o poder político e aquilo que ele faz aos homens. À semelhança de uma tragédia shakespeariana, a sede de poder corrompe e corrói o melhor (e, por isso mesmo, o mais frágil) da essência humana. O Mal impera e jamais será vencido pelo Bem ou por uma ideia platónica de Justiça.

Pode o Presidente da República ser um corruptor assassino? Sim. E ninguém melhor do que Kevin Spacey para o representar.

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