Quando há dois ou três anos li Passagens fiquei arrebatado. Isto acontece-nos pontualmente na vida enquanto procuramos a Beleza - e onde encontrá-la senão na Arte? Acontece quando escutamos um disco que nos enche a alma, quando vemos um filme que nos eleva os sentidos e a razão em toda a plenitude, quando contemplamos um quadro sublime, quando assistimos àquela peça de teatro e a um certo espetáculo de dança ou quando, por entre tantos outros, concluímos a leitura de um certo livro e descobrimos que é por isto que a literatura continua a valer a pena e que o ofício da escrita deveria estar reservado apenas a alguns (brilhantes) artesãos. Como Teolinda Gersão. Brilhante escritora, com um percurso académico distinto e importantes prémios literários conquistados.
Vem isto a propósito de um dos grandes livros que deram à estampa em 2017 - Prantos, amores e outros desvarios. Nele se reúnem contos bem diversos e um refinado pequeno ensaio sobre futebol (Jogo Bravo). Teolinda Gersão consegue a proeza de experimentar diversos géneros literários sem perder identidade e sempre com a qualidade dos grandes romancistas.
Regresso ao ponto de partida desta humilde recensão (onde encontrar a beleza senão na Arte?), destacando o conto que encerra o livro (e também o mais extenso), Alice in thunderland, sobre a génese do clássico infanto-juvenil de Lewis Carroll na perspetiva da sua protagonista, a Alice real, que terá ficado para sempre - e tragicamente - fechada dentro daquele livro feito país das maravilhas. Leiam Prantos, amores e outros desvarios para saber porquê.

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