domingo, 29 de julho de 2018

"Miles Ahead" - Miles forever

Don Cheadle, com certeza por devoção à obra de Miles Davis (mas só os insensíveis é que não o são!), quis transpor para o grande ecrã a sua própria visão acerca do maior trompetista do século XX (e, provavelmente, o músico mais influente dos últimos cem anos). O resultado é Miles Ahead, um singular filme realizado por aquele ator, que aqui também assume o papel principal, apanhando a voz, a figura e os trejeitos do autor de Kind of Blue.

A premissa do argumento é original: na década de 70, um jornalista freelancer interrompe o afastamento autoimposto de Miles Davis das luzes da ribalta (vistos hoje como anos de letargia e bloqueio criativo), invadindo a sua casa sob o pretexto de conseguir entrevistar o músico de jazz acerca de rumores que anunciavam o seu regresso à cena artística. A partir daqui, somos confrontados com uma série de mal-entendidos que envolvem uma suposta gravação em estúdio de temas inéditos do músico, que vive agora dependente de drogas e acorrentado a memórias do passado, nomeadamente à lembrança da mulher que amou e se tornou capa icónica de um dos seus álbuns - Frances Taylor, capa do disco Someday My Prince Will Come (1961).

A realização é dinâmica e o interesse principal de Don Cheadle parece ser mais o de fazer de Davis personagem de um drama do que em filmar um biopic. Nesse sentido, Miles Ahead está mais próximo de Love and Mercy, de Bill Pohlad (2015), do que de The Doors, de Oliver Stone (1991).

No final do filme apenas vemos a data de nascimento de Miles Davis, como se Cheadle nos quisesse dizer que a música de Miles Davis ficará para sempre.

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