Gus Van Sant talvez seja o maior ícone do que se convencionou chamar de cinema independente norte-americano. Em boa verdade, tal designação é já um género de cinema per si. Todavia, podemos dividir os filmes de Van Sant entre aqueles que obedecem a uma narrativa clássica, de cariz, diria mais académico, e aqueles que transcendem o cânone e assumem uma matriz formal mais livre e não diretamente identificável num qualquer padrão estético. De qualquer modo, em todos eles há o toque pessoal bem evidenciado do autor de O Bom Rebelde (1987). Não te preocupes, não irá longe a pé enquadra-se na primeira categoria, também ela correspondente à vertente mais popular do cineasta.
O filme baseia-se na autobiografia de John Callahan, cartoonista de traço singular, autor sarcástico, senhor de um humor corrosivo e frequentemente polémico graças às suas vinhetas politicamente incorretas.
Van Sant explora com sensibilidade e classe a dramática situação do protagonista, que ficou confinado à cadeira de rodas após um grave acidente de automóvel provocado pela sua dependência do álcool. Orfandade, desenraizamento, sexo, identidade, psicoterapias, amizade, perdão, morte e redenção são alguns dos temas caros a Gus Van Sant e que atravessam toda a sua filmografia, incluíndo esta delicada película, brilhantemente protagonizada por Joaquin Phoenix. De facto, Phoenix, sempre subtil e no tom certo, agarrou a personagem transmutando-se nela própria, com toda a verdade que o labor de ator deveras exige. Uma palavra de louvor também aos atores que gravitam à sua volta, nomeadamente a Jonah Hill (num impressionante registo de contenção), Jack Black (numa breve mas extraordinária performance), Kim Gordon (a mítica fundadora dos Sonic Youth) e Beth Ditto (sim, essa mesmo, a ex-vocalista dos Gossip, aqui quase irreconhecível).

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