No já longínquo ano de 1985, entrei numa (agora defunta) sala de cinema (o saudoso Chaplin, em Leça da Palmeira), acompanhado pelo meu irmão, para ver O Ano do Dragão, a primeira obra de Michael Cimino após o gigantesco fiasco de As Portas do Céu (1980).
Para além da realização vertiginosa de Cimino, O Ano do Dragão confirmava Mickey Rourke como o ator mais interessante da década de 80, entregando-se de corpo e alma a uma interpretação eletrizante. Naquela altura, corria o rumor de que ele seria o próximo 007. Era isso mesmo, um rumor, nada mais. Rourke não tinha paciência para Hollywood e gostava pouco de realizadores, tendo posteriormente rejeitado papéis em filmes que poderiam ter dado um rumo diferente à sua carreira e à sua tumultuosa vida pessoal. No entanto, Cimino era um dos poucos eleitos e viria a trabalhar com ele, cinco anos depois, no thriller visceral "A Noite do Desespero". A aura de cineasta maldito talvez tenha contribuído para a química e a comunicação entre o realizador e o ator.
O Ano do Dragão era uma espécie de regresso às personagens de O Caçador (Cimino, 1978). Nele, Mickey Rourke é Stanley White, veterano da guerra do Vietname, agora chefe da polícia de Chinatown determinado a combater a máfia chinesa que domina o tráfico de droga naquele bairro nova-iorquino. White é arrogante, racista e tendencialmente niilista, o que contribuiu muito para as acusações movidas por grande parte da crítica de que o argumento de Oliver Stone seria profundamente racista e Cimino um republicano xenófobo a ajustar contas com o passado (nomeadamente, a derrota humilhante sofrida pelos EUA no Vitename). Visão redutora, e até deturpada, acerca de um filme em torno de um anti-herói incorruptível, determinado a fazer justiça, qual xerife de um western clássico (com John Ford à cabeça). Em boa verdade, Rourke provava que podia ser um ator maior que a vida, uma interessante combinação entre John Wayne e Marlon Brando (de resto, chegou a ser caracterizado por boa parte da imprensa como "o novo Marlon Brando"). Arriscaria mesmo considerar O Ano do Dragão como o maior filme policial da década de 80.
Michael Cimino lega-nos uma obra pequena em número - assinou apenas 7 películas -, mas fica a sensação de que, independentemente das vicissitudes da sua carreira (e foram muitas!), realizou os filmes com total liberdade artística, deixando uma marca pessoal indelével em todos. Talvez tenha chegado a altura dos historiadores e críticos de cinema reavaliarem parte da sua obra cinematográfica (a começar precisamente por O Ano do Dragão) e não celebrar apenas O Caçador e As Portas do Céu. Cimino foi mais do que estes dois filmes, talvez o maior discípulo de Orson Welles - na visão, no solipsismo e (por que não?) na megalomania. Ou, como ele gostaria de ser recordado: "Cimino - um cineasta individualista".

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