Lars von Trier nunca foi tão explícito na sua misoginia quanto em "The House That Jack Built", filme sobre um psicopata com pretensões artísticas.
Jack é um engenheiro civil frustrado (o seu sonho era ter sido arquiteto), que persegue o projeto megalómano de construir uma casa à imagem de grandes obras renascentistas. Compara-se a artistas visionários como Glenn Gould e bebe inspiração em projetos distópicos do Terceiro Reich. Ao longo de mais de uma década, sublima a frustração e o vazio interior torturando e matando dezenas de pessoas.
Dividido em "cinco incidentes" ao ritmo de Fame de David Bowie, e com uma estética experimental (mais ousada do que em filmes anteriores do cineasta dinamarquês), a narrativa encaminha-se em direção ao apocalipse (com reminiscências de Melancolia e O Anti-Cristo), com Jack e o seu alter ego a percorrerem os sete círculos do inferno. Numa espiral de violência que não evita a exposição do horror, von Trier preenche o filme com autocitações (recorre a imagens dos seus últimos filmes) e manda às urtigas a sensibilidade e o pudor do espectador.
O filme é excelente e desde Drugstore Cowboy (Gus Van Sant,1989) que nunca tínhamos visto Matt Dillon assim, numa interpretação visceral, merecedora de um Óscar.

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