segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão


Em O Rapaz da Montanha, Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumidamente autobiográfica. O disco convoca memórias da infância e juventude num país ainda marcado pela ditadura, mas projeta igualmente as conquistas e virtudes da democracia nascida após o 25 de Abril de 1974. A música, fiel à identidade do compositor, mantém-se melancólica, nostálgica e orquestral, explorando paisagens sonoras que oscilam entre a intimidade pessoal e a memória coletiva. Ao mesmo tempo evocativo e reflexivo, o álbum confirma a singularidade de Rodrigo Leão enquanto narrador musical da experiência portuguesa, capaz de transformar recordações em emoção partilhada e em obra de grande densidade artística.
Um disco bem apropriado para nos acompanhar nestes dias pré-outonais.



domingo, 7 de setembro de 2025

“A História de Souleymane": ecos do neorrealismo no presente


Em A História de Souleymane, Boris Lojkine constrói um retrato cru e profundamente humano de um jovem imigrante da Guiné que vive em Paris como estafeta de entregas. O filme aposta num realismo direto, despojado de artifícios, em que a câmara acompanha de perto as dificuldades, a precariedade e a dignidade de quem luta por um lugar no mundo. A narrativa, simples na sua forma, revela-se exemplar na sua capacidade de dar voz a uma realidade tantas vezes invisível, erguendo-se ao serviço das personagens e, em última instância, da humanidade. Com ressonâncias do cinema verité e ecos de mestres como Vittorio De Sica, Ken Loach ou os irmãos Dardenne, A História de Souleymane impõe-se como uma das grandes obras do ano: contida, comovente e politicamente necessária.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

"The Bear": caos, luto, família e identidade


The Bear é uma série que mergulha no caos e na intensidade do quotidiano de uma pequena cozinha, transformando-a num espaço de confronto, fragilidade e reinvenção. A narrativa acompanha Carmy, um jovem chef de alta cozinha que regressa a Chicago para assumir o restaurante da família, enfrentando não só os desafios da restauração como também os fantasmas do luto e da memória. Com ritmo frenético, diálogos incisivos e uma realização visualmente marcante, as duas primeiras temporadas impõem-se como retrato vigoroso de dedicação, vulnerabilidade e busca de sentido. As temporadas seguintes mantêm a coerência e a identidade da série, mas já não atingem o mesmo fulgor, oscilando entre a repetição e o experimentalismo. Ainda assim, The Bear permanece uma obra singular no panorama televisivo contemporâneo, capaz de equilibrar tensão dramática e humanidade com rara intensidade.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

"O Livro das Despedidas" - Velibor Colic e a esperança no exílio


Em O Livro das Despedidas, Velibor Colic revisita em tom memorialista a experiência do exílio em França, após a guerra na Bósnia. O narrador, que é também o próprio autor, reconstrói episódios de desorientação, solidão e perda, mas fá-lo com uma prosa de rara delicadeza, onde a melancolia se mistura com a nostalgia e a ternura. Mesmo diante do desespero, a escrita nunca abdica da esperança nem da celebração da vida, revelando um olhar profundamente humano sobre os gestos mais simples e os encontros que iluminam a escuridão. Trata-se de uma obra intimista, atravessada pela dor da separação, mas igualmente pelo amor à memória, à dignidade e às pessoas.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...