Nestes tempos cinzentos que prenunciam um futuro, no mínimo, cinzento escuro, o escapismo tornou-se, não apenas uma opção, mas antes uma necessidade. É talvez por isso que a literatura fantástica ganhou um novo fôlego, sobretudo aquela que se dirige ao público adulto, já que no que concerne à literatura infanto-juvenil já há muito que essa vai de vento em popa.
"As Mentiras de Locke Lamora", do escritor norte-americano Scott Lynch, narra a história de um grupo de ladrões inteligentes e ardilosos, que habitam num espaço e tempo fictícios/alternativos (há por aqui reminiscências da Terra Média de Tolkien), roubando aos ricos mas sem saberem muito bem o que fazer ao dinheiro (o Governo é instável e hipervigilante, pelo que Camorr, a cidade onde vivem os nossos heróis, é um espaço asfixiante e quase claustrofóbico). Todavia, uma guerra clandestina ameaça destruir a própria cidade e o bando de Locke Lamora (conhecido como cavalheiros bastardos, dada a versatilidade do seu líder e o facto de serem órfãos) é lançado num jogo de assassinos e traidores, onde terão de lutar desesperadamente pelas suas vidas. Só mesmo a capacidade de Lamora para se recriar e mentir criativamente os poderá ajudar a sobreviver à guerra iminente.
Dito assim poderá parecer mais um livro de aventuras, o que não faria jus à qualidade literária da obra. É uma história imaginativa, narrada com classe, de um novo autor refinado, que soube encontrar em Charles Dickens, Herman Melville, Júlio Verne, John Steinbeck e, sobretudo, no já mencionado autor de "O Senhor dos Anéis" a devida inspiração.

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