Gostava de entender o outro, mas às vezes não chego lá. Há um outro que me atazana o juízo nestes dias de verão, porque ao fim da tarde, a melhor hora para contemplar em sossego o céu a alaranjar-se no oceano, insiste em ouvir música (?) minimal eletrónica, de graves intensos, que estremecem a areia, desfazem as conchas e afugentam os escaravelhos. Esse outro, que não concorda comigo, é uma multidão que se abana em fato de banho e biquíni num bar de madeira, emborcando bebidas coloridas, gritando inanidades aos ouvidos, enquanto o sol - pobre coitado que prefere o silêncio - lá se esconde no horizonte, lamentando que a natureza não lhe permita que acelere o processo.
Devem render bastante estas licenças de décibeis, atendendo à propagação de festas do género nos últimos verões. E se tantos concelhos se orgulham de ter praias com bandeira azul, questiona-se que raio de classificação é esta que não contempla a poluição sonora.
Se é assim ao lusco-fusco, durante o dia a coisa não melhora muito. Os veraneantes são maioritariamente citadinos e devem andar tão viciados no tráfego que, só para matar saudades, enquanto descansam na praia, regalam-se a ouvir o som de fundo das motas de água. São cada vez mais os pontos de entrada desses hediondos brinquedos. Quase desapareceram as gaivotas. Não me refiro aos pássaros, outros pobres coitados, mas das pequenas embarcações a pedal, demasiado simples para um mundo tecnológico. Gosto dos surfistas, que desafiam o mar com uma prancha, mas nunca desses demónios a motor, que empestam o mar de gasolina e barulho, deixando-o, tenha a certeza, um pouco menos azul.
O último grito da tecnologia é o silêncio - esse é o verdadeiro luxo. Mas é um luxo desprotegido e em vias de extinção porque, por mais que se levante o volume do silêncio, o ruído ouve-se sempre mais alto. O silêncio não se pode gritar.

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