quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Se isto é um homem" - obra incontornável de Primo Levi

Escrito entre o final de 1945 e o início de 1947, ou seja, imediatamente após os factos narrados, Se isto é um homem é, antes de mais, a narrativa seca e minuciosa, a crónica submissa e por vezes intencionalmente humilde, de uma experiência extrema: um ano vivido por Primo Levi (1919-1987) no campo de concentração de Auschwitz, vítima e testemunha do maior horror que o século XX produziu. E um horror que ressalta em toda a sua evidência "natural", justamente pela firme recusa por parte do autor de qualquer forma de amplificação retórica, de qualquer forma de "fingimento" literário, ainda que legítimo; um horror nu e cru, e totalmente autêntico: por isso mesmo, tanto mais aterrador, tanto mais iniludível e impossível de exorcizar.

Trata-se definitivamente de um testemunho sobre a condição humana, sobre os seus limites e os seus insuspeitáveis recursos, sobre a sua obstinada capacidade de conceber o bem e sobre a fragilidade das suas defesas perante a sugestão do mal. Não é tanto a relação carrasco-vítima que interessa a Levi (os carrascos raramente aparecem no livro, longínquos e ausentes, encerrados numa dimensão quase estranha), mas sim a que se cria entre uma vítima e outra, nas absurdas hierarquias internas, nos ingénuos conluios com o poder e nas igualmente ingénuas esperanças numa humanidade sobrevivente, no escárnio dos prisioneiros "veteranos" nos confrontos com os "noviços", ou de alguns grupos étnicos nos confrontos entre si.

E é no lúcido registo da terrível desumanização a que todos, sem exceção, se submetem no campo de concentração, que encontramos a mensagem da mais elevada e sofrida ética contida em Se isto é um homem. O juízo moral, naturalmente, não invalida nem ignora as responsabilidades individuais e coletivas, conseguindo sempre, no entanto, avaliá-las na base simples mas difícil da consciência humana: o inapelável tribunal dos justos que se encontra no fundo de cada um de nós, e que Primo Levi consegue inteira e miraculosamente trazer à luz do dia. 

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