quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"Polissia" - um filme direto ao osso

Para que não restem dúvidas: "Polissia", magistralmente realizado por Maïwenn (que também participa como atriz), é um filme fabuloso. Posto isto, podemos ir direto ao osso.

Acompanhamos uma brigada de proteção de menores em França, imergindo sem rede num universo extremamente duro, difícil, nauseabundo e aversivo. Tal como a personagem interpretada pela própria realizadora também nós vemos através de uma lente a rotina de polícias que lutam diariamente contra pesadelos; sentimos no seu quotidiano o terror e a frustração por saberem que, muitas vezes, têm o seu grito de presença abafado; imaginamos quão difícil deve ser regressarem a casa, ao final do dia, com a memória de tantas crianças tratadas de forma indigna por adultos com - como diz um dos personagens da película - complexos de Édipo mal resolvidos; crianças a quem foi roubada a infância, obrigadas a participar no mundo insano e criminoso de adultos com fixações execráveis. O título do filme (com a palavra polícia escrita com dois 'ss') remete simultaneamente para o erro ortográfico naturalmente cometido por crianças a aprender a escrever e para os desejos distorcidos/doentios de pedófilos e de pais que não têm competências para cuidar dos seus filhos.

"Polissia" é uma obra brutal na verbalização dos casos das crianças vítimas de abusos e maus tratos, mas não menos forte quando nos embrenhamos na intimidade dos polícias. Estamos, portanto, perante um filme que se enquadra numa matriz realista em que poucos cineastas se têm destacado. Maïwenn consegue a proeza de agarrar o espectador do princípio ao fim, num filme de câmara cru, ousado e que nunca nos dá tréguas. Venceu justamente o prémio do júri do Festival de Cannes de 2011.

Trailer de "Polissia", de Maïwenn

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