
A partir de uma série de revistas de banda desenhada de cariz autobiográfico - precisamente o "American Splendor" a que o título do filme se refere -, a película acompanha a vida do seu autor, Harvey Pekar, desde os anos 60 até à presente década.
Interessa aos autores do filme reconstruir a génese da referida BD, retratando o quotidiano incolor do seu criador: os casamentos falhados, a paixão por discos de jazz e revistas de banda desenhada (que Harvey Pekar colecciona compulsivamente), a desarrumação da casa, o trabalho deprimente como arquivista num hospital público, as idiossincrasias dos colegas de trabalho, enfim, a vida hodierna da classe média de Cleveland, aqui filmada como uma cidade triste e descaracterizada.
Na verdade, durante mais de duas décadas, as páginas da revista "American Splendor" documentaram as atribulações mundanas, as experiências e os entusiasmos culturais de Pekar na sua cidade natal.
Apesar de este ser um filme narrativa e esteticamente coerente, quero destacar três momentos que demonstram o carácter suis generis da publicação escrita pela pena de Pekar:
i) o primeiro, a presença estranha de Pekar no talk-show de David Letterman. O famoso apresentador ficou fascinado com a postura peculiar do arquivista/criador de BD, que se apresentava sempre com um comentário antecipado à pergunta do entrevistador. Harvey Pekar era um autêntico alien no programa de televisão mais visto pelos americanos;
ii) o segundo, a descoberta do tumor maligno que obrigou Pekar a sessões dolorosas de quimioterapia, as quais foram desenhadas e narradas numa premiada novela gráfica - "Our Cancer Year" - que Pekar escreveu em colaboração com a sua mulher. É raro ver no cinema a doença ser tratada com tamanha humanidade;
iii) o terceiro momento, a concretização do desejo da mulher de Pekar em ser mãe, adoptando uma criança, filha de um casal disfuncional recém-divorciado. Neste ponto, o modo como a menina se integra no lar anarquista do casal Pekar é filmado de acordo com uma fluência narrativa tão espontânea, que achamos que ela sempre pertenceu ali.
O filme termina com a aposentação de Harvey Pekar que, apesar do sucesso e do fenómeno de culto em torno da sua revista, nunca teve condições financeiras para abandonar um emprego com o qual jamais se sentiu identificado. A forma como a dupla de cineastas que assina o filma caracteriza o personagem principal, fez-me recordar nomes como Fernando Pessoa e Franz Kafka. Também estes autores, vultos maiores da literatura do século XX, nunca viveram da sua escrita, mantendo-se por necessidade de sobrevivência em empregos que, pelas entediantes rotinas e despersonalizadas tarefas que exigiam, contrastavam paradoxalmente com a genialidade dos artistas. No fundo, os três - Pessoas, Kafka e Pekar - são criadores que tiveram profissões sem rosto, e através das suas obras encontraram forma de se humanizarem e distinguirem da prole. A individualidade das suas obras maiores, bem como o lugar único que hoje ocupam na história da cultura ocidental, está aí para a posteridade.
Tal como Pessoa em Portugal, Harvey Pekar é um anti-herói americano. O filme em análise dá-lhe a merecida dignidade e o mais que justificado reconhecimento. É pena que em Portugal ainda não tenham feito o mesmo, com esta qualidade, em relação ao poeta.
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