segunda-feira, 15 de junho de 2009

A efémera eternidade, segundo Coppola


Francis Ford Coppola já não filmava - pelo menos, no que à sétima arte diz respeito - há dez anos. Dez anos sem termos o privilégio de nos deslumbrarmos com um filme do autor da trilogia "O Padrinho" (um dos maiores legados artísticos de sempre, independentemente da arte, a trilogia referida é por si só uma Obra de Arte), mas também do introspectivo "Apocalypse Now" e do belíssimo díptico sobre a juventude "Rumble Fish" / "The Outsiders". Essa ausência foi reposta em 2007 com "Uma Segunda Juventude", adaptação ao grande ecrã de um romance de Mircea Eliade.

A acção começa na Roménia em 1938. Dominic Matei (um contido Tim Roth) tem 70 anos e dedicou toda a sua vida - a primeira juventude - ao estudo da linguagem e da sua origem, apesar de nunca ter terminado o livro que se propôs escrever e que assumiu como projecto de vida. Chegado de Piatra Neamt a Bucareste sob uma forte tempestade, ao atravessar a rua é atingido por um raio. Estranhamente, Dominic sobrevive e, sob o olhar curioso do Dr. Stanciulescu (o sempre discreto Bruno Ganz), rejuvenesce 3o anos. Durante a sua recuperação, Dominic começa a ser atormentado por recordações de Laura (uma brilhante Alexandra Maria Lara), o seu grande amor da primeira juventude, mas também por visões de um duplo de si mesmo que o questiona e desafia. Stanciulescu fica intrigado com o processo de reconstrução da(s) memória(s) de Dominic, mas a sua preocupação passa a concentrar-se no forte interesse dos cientistas nazis pelo linguista rejuvenescido. Com a ajuda de Stanciulescu, Dominic foge para a Suíça, onde prossegue com a sua investigação nunca terminada. Dotado de poderes especiais na absorção de conhecimentos e de telecinesia, Dominic escapa-se aos espiões nazis gravando os seus apontamentos numa linguagem criada por ele mesmo. Anos depois, ele conhece Veronica, um duplo de Laura que, após um incidente idêntico ao de Dominic, começa a sofrer episódios de regressão, nos quais assume vidas anteriores e passa a comunicar em línguas antigas, como o sânscrito. Dominic acredita que a linguagem modela a consciência humana e tem um papel determinante na ordem do mundo e do tempo, pelo que em Veronica ele vê, não apenas a possibilidade de recuperar o amor perdido, mas também um veículo para atingir o estado de pré-linguagem, e a origem de todas as linguagens.

"Uma Segunda Juventude" está marcado por uma forte dualidade, que se estende ao título do próprio filme (no original, "Youth Without Youth"), onde a juventude se repete. O uso de um duplo talvez represente o dois que somos todos, isto é, em cada um de nós convivem uma criança e um adulto, e a vida toda consiste na reconciliação de ambas, umas vezes ganhando uma, outras vezes a outra. Além disso, a linguagem de Coppola é sempre simbólica: o rejuvenescimento é identificado com a sede de conhecimento, enquanto o passado como obsessão/prisão se converte em progressiva degradação. Tal como no deslumbrante "Bram Stocker's Dracula", que Coppola dirigiu em 1993, as metáforas corporizam-se em luz, espelhos, rosas e chapéus-de-chuva, sob a estética de film noir no misto de obscuridade e vermelho garrido da fotografia de Mihai Malaimare Jr.

Há também evidentes ligações a "Jack", uma subestimada película do mesmo cineasta, também ela um olhar sobre a fugacidade do tempo, que contava a história de uma criança que nasce com uma doença rara que lhe provoca um envelhecimento precoce. No entanto, estéticamente, "Uma Segunda Juventude" está uns bons furos acima, sendo, na minha opinião, um Coppola vintage.

"Uma Segunda Juventude" é um autêntico puzzle psicológico fragmentado, que se vai juntando num todo coerente, ligando décadas e continentes. Trata-se, além disso, de uma meditação filosófica/metafísica, em que o tempo e a memória vão sendo questionados, o bem e o mal são contrapostos, assim como os fins e os meios, a realidade e a imaginação, o conhecimento e o amor. Não está à altura de obras como "Tucker, o Homem e o seu Sonho", mas é uma obra claramente marcada por um envolvimento pessoal de Coppola, com momentos fortes de bom e genuíno cinema. Cinema de Autor.


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