
"A Túnica" é um filme de 1953 realizado por Henry Koster. Ficou na história da sétima arte, sobretudo por ter sido o primeiro filme rodado em cinemascope, técnica fílmica criada na altura para competir com a televisão.
De facto, o advento da caixa mágica introduziu novos hábitos. Para quê ir ao cinema (sobretudo, se encararmos o cinematógrafo como um poderoso entretenimento) quando o mundo estava disponível na nossa sala de jantar? Notícias, séries, clássicos... Determinados programas - soaps, talk-shows - tornavam-se obrigatórios, como se de um ritual religioso se tratasse. Surgia então o conceito de prime time, o horário nobre televisivo.
Hollywood encontrou na década de 50 um novo formato, o cinemascope, equivalente hoje ao conceito 3D que pretende fazer regressar às salas de cinema (hoje praticamente limitadas aos multiplex) algum do público perdido e conquistar novas gerações, sobretudo adolescentes com fácil acesso a filmes através de downloads (na maioria das vezes, ilegais) ou a DVD piratas.
Limitar-se-ão os méritos de "A Túnica" ao - na época - novo formato?
Na minha opinião, não. Definitivamente, não! A história do centurião que crucificou Cristo, continua um inabalável conto moral sobre as consequências irreversíveis da acção humana, mas também sobre o poder, a corrupção, o (in)conformismo e, acima de tudo, sobre a possibilidade que cada homem tem de mudar valores éticos, princípios morais, no fundo de se melhorar e transformar o mundo. Além disso, tornou-se a fonte geradora de tantos e tão marcantes épicos cinematográficos, também conhecidos como peplums, filmes históricos quase sempre passados na Roma Antiga (Ben-Hur, Quo Vadis, Cleópatra, entre muitos outros filmes). A recente série televisiva "Roma" deve muito ao clássico de Henry Koster.
Revi o filme há pouco tempo numa velhinha VHS. A sequência inicial no mercado de escravos continua com uma força imensa, capaz de gerar no espectador o espanto que conduz à questão: "Como foi possível fazer-se aquilo? Vender mães e filhos em conjunto ou separadamente, como diz um comerciante no filme, de acordo com a vontade do freguês?" Infelizmente, a História parece não nos ter ensinado muito, pois ainda hoje se traficam, compram, vendem e torturam seres humanos. O filme continua actual, portanto, e séculos após a Revolução Francesa, o conceito kantiano de Pessoa continua um ideal a concretizar. Talvez num futuro próximo ou num ecrã perto de si...
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