sexta-feira, 26 de junho de 2009

King of Pop



Michael Jackson, autor do álbum mais vendido de sempre, Thriller, faleceu ontem aos 50 anos de idade.

Quando ainda era uma criança, ao lado dos irmãos nos Jackson Five, e através da editora Motown, gravou vários discos de enorme sucesso, de onde sairam singles que se tornaram paradigmas da soul ("I Want You Back", "ABC", entre outros). Mas é a solo, com a colaboração imprescindível do maestro Quincy Jones, que, em 1979, Michael Jackson inicia uma carreira fulgurante inigualável e de um imenso valor artístico com o magnético Off The Wall. A este álbum seguiu-se o vibrante Thriller, de 1982, que ainda hoje permanece como o disco mais vendido de sempre (qualquer coisa como 106 milhões de discos). Cinco anos mais tarde, Bad confirma o seu estatuto de "Rei da Pop", com temas de um perfeccionismo notável e raramente alcançado por qualquer outro artista. Em 1991, Dangerous marca a entrada do artista na última década do século XX (seguir-se-ia o menor HIStory) e numa era marcada já pela proeminência do compact disc, pelo que o disco refelecte a tendência dos anos 90 ao incluir um número excessivo de canções que acaba por desequilibrar o todo, mesmo que temas como "Black or White" ou "Will You Be There" sejam autênticas pérolas da melomania. No primeiro ano do século XXI, editou ainda mais um cd de originais, Invincible, disco onde toca praticamente todos os instrumentos e que, em minha opinião, constitui uma obra-prima absoluta. Reconhecê-lo, exige que o ouvinte se abstraia dos fait-divers que ensombraram a vida privada deste brilhante músico e se concentre no essencial da sua obra, precisamente a música.

Não tenho qualquer pudor em afirmar a minha admiração por este artista completo: músico, cantor, actor e bailarino de excelência. Basta ouvir atentamente os seus discos para constatar o detalhe, cuidado e delicadeza colocados em todos as melodias. Nenhuma canção foi por ele construída e gravada a martelo, coisa rara num artista pop, cuja carreira atravessou quatro décadas. O seu estatuto de ícone maior da cultura popular é, claramente, inquestionável. Analisar a história da cultura do século XX, implica passar, de modo profundo e incontornável, pela obra e influência de Michael Jackson no mundo. Bastaria a sua música, mas não é apenas por ela. Também os seus videoclips tiveram a assinatura de cineastas maiores, como John Landis ("Thriller", "Black or White") e Martin Scorsese ("Bad"), afirmando-se hoje como paradigmas da imagética popular contemporânea.

Vi o filme "Moonwalker", realizado por Jerry Kramer, Jim Blashfield e Colin Chilvers, numa sala de cinema já extinta, em Matosinhos. Trata-se de um exercício de estilo autobiográfico e iconográfico que, melhor do que qualquer documentário ou biografia (não) autorizada, ajuda a compreender a complexidade do ícone pop que agora desapareceu. Na altura, quando saí do escuro da sala de cinema, fiquei com uma certeza: Michael Jackson queria ser (re)conhecido e apreciado pela sua música, não pelos rumores mais ou menos escandalosos em torno da sua vida privada. O videoclip da canção "Leave Me Alone" (extraído do filme) é transparente quanto a esta vontade do cantor.

Umas vezes hedonista ("Don't Stop 'Till You Get Enough"), outras com profunda mensagem moral ("Heal The World"), ou ainda rocker duro e agressivo ("Dirty Diana"), por vezes intensamente romântico ("I Just Can't Stop Loving You") e frenético ("Beat It"), o rei da pop encarnou sempre com alma cada uma das suas personas. Além disso, foi o primeiro cantor afro-americano com temas regularmente exibidos na MTV, cujos espectadores eram, nos anos 80, sobretudo adolescentes brancos.

Este ano, Michael Jackson tinha prometido uma última tournée - "This is it" -, uma espécie de despedida final para os fãs que teria início no próximo mês na capital inglesa.

A pop ficou orfã do seu rei.

Michael Jackson - Leave Me alone (excerto de "Moonwalker")



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