domingo, 17 de junho de 2012

Banda sonora para a Primavera (17)


Patriarcas do metal progressivo, os Dream Theater gravaram e editaram o seu mais recente disco de originais ainda em 2011. No entanto, outros álbuns se sobrepuseram na minha discoteca pessoal e a audição cuidada e atenta de "A Dramatic Turn Of Events" foi sendo adiada. Agora que a obra foi escutada repetidas vezes, aqui vai o meu verdicto: não sendo tão ousado do ponto de vista conceptual, nem tão consistente no que ao trabalho de composição musical diz respeito quanto o seu predecessor ("Black Clouds And Silver Linings"), é ainda assim um disco interessante, que expõe de forma harmoniosa todo o virtuosismo da banda. São todos excelente músicos sem se anularem mutuamente; pelo contrário, nos Dream Theater o todo não é uma mera soma de partes, o que não é um pormenor de somenos importância, tendo em conta que este é o projecto de John Petrucci, talvez o maior guitarrista da cena rock no activo. Mas o destaque evidente em "A Dramatic Turn Of Events" tem a ver naturalmente com a substituição do carismático baterista cofundador da banda, Mike Portnoy (que em 2010 decidiu dedicar-se exclusivamente aos seus inúmeros side projects), por Mike Mangini, que se revela um instrumentista exímio, não deixando os créditos por mãos alheias.

Quanto às nove canções que compõem o disco, como é habitual nos Dream Theater, escapam ao formato convencional dos standards do rock, sendo quase impossível destacar uma. De qualquer forma, as baladas "Far From Heaven" e "Beneath The Surface" são sérias candidatas a melhor banda sonora para este final de Primavera em tons outonais.

Dream Theater - "Far From Heaven"

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Síria também somos nós

Na onda da Primavera Árabe, a revolta impera na Síria há 15 meses e, ao contrário do Egipto, Líbia, Iémen ou Tunísia, sem alterações de liderança à vista. Os protestos escalaram para a guerra civil, alimentada pela recusa de Bashar-al-Assad em abandonar o poder. As notícias cansam, repugnam, volta-se a cara às imagens da destruição. Mas, depois de massacre de Houla, de 25 para 26 de Maio, com 108 pessoas assassinadas (das quais 49 crianças e 34 mulheres), cuja autoria o governo sírio refuta, até quando se pode continuar sem fazer nada?

terça-feira, 12 de junho de 2012

"Martha Marcy May Marlene" - os limites da identidade

Ser reconhecido na sua primeira grande incursão na realização pelo Festival de Sundance pode ser o melhor cartão de visita para Sean Durkin, autor de Martha Marcy May Marlene. Logo na abertura, o espectador é confrontado com uma imagem que nos confunde no tempo e no espaço. No meio de várias jovens, que só jantam à mesa depois de os homens o terem feito, há uma que se destaca - Martha, do título da película (os restantes nomes são parte integrante da manipulação psicológica identitária levada a cabo pelo líder da "comunidade" de que a jovem faz parte). Cedo nos apercebemos de que todos pertencem a uma seita que vive nas margens da sociedade, na qual todos têm um papel a cumprir e partilham as mais variadas tarefas, além de dormirem juntos, vestirem as mesmas roupas e fazerem sexo entre si, sem distinção. Um dia, Martha decide fugir e é a partir daqui que vamos descobrindo a sua história, as suas origens e a razão de só agora ter dado notícias à única família que lhe resta: a sua irmã mais velha. Através de imagens soltas, entre o passado e o presente, o espectador vai juntando as peças do puzzle.

Sean Durkin opta por uma estética fria, com imagens cruas que nos conduzem à essência da seita liderada por Patrick (uma interpretação perturbadora de John Hawkes), um homem franzino que, fazendo uso de uma retórica persuasiva, espalha misticismo e domina todos os que chegam à comunidade em busca de se sentirem parte de algo. Ali, pensam ter chegado ao paraíso, onde são valorizados e acarinhados, sentindo que têm um papel que a sociedade lhes negou. As raparigas são "iniciadas" pelo líder e o poder subliminar é tal que, depois de serem violadas sob o efeito de drogas, continuam a sentir-se "especiais". Fazendo a ponte para o presente, Martha tenta agora viver uma vida "normal" com a irmã e o marido a quilómetros de distância do local da seita, sem ter noção de que os seus comportamentos não se encaixam nos parâmetros aceites pela sociedade. Perdida entre os padrões subvertidos daquela comunidade desviante e a segurança que uma vida "normal" lhe pode proporcionar, mas na qual não se encaixa, Martha fica presa entre o que é efectivamente realidade e aquilo que toca o campo da paranóia.

Destaque para a promissora Elizabeth Olsen que imerge na personagem que dá nome ao filme de forma absorvente, envolvendo-nos nas suas estranhas e deslocadas crenças, nos seus medos e na sua espartilhada identidade. Um filme interessante e algo perturbador.

Trailer de "Martha Marcy May Marlene", de Sean Durkin


segunda-feira, 11 de junho de 2012

É urgente repensar Portugal

No âmbito das comemorações do 10 de Junho, Sampaio da Nóvoa proferiu um discurso, no mínimo, inspirador. Para contrastar com o distanciamento em relação ao país real por parte de tantos patifes engravatados que se dizem preocupados com o estado da nação.

sábado, 9 de junho de 2012

Legendar o silêncio icónico (18)

Na terra ressequida por onde caminha o menino, havia um lago. E não é da chuva que ele se protege, mas do sol. Bhubaneswar, capital do estado indiano de Orissa, atravessa um longo período de seca, extremado pelas elevadas temperaturas que se fazem sentir há já algumas semanas, com o mercúrio a ultrapassar os 40ºC. Se ao calor sufocante se juntar quebras de electricidade e no fornecimento de água, entende-se o inferno na terra no qual estão a torrar os seus habitantes. As autoridades já registaram duas dezenas de mortes. As imploradas monções chegam em Junho.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Pessoas especiais

Um aluno (daqueles que achamos que já não existem) enviou-me um vídeo lindíssimo e inspirador. Inevitavelmente, decidi partilhá-lo aqui n'O Subjectivo Objectivo. Vejam até ao fim. Vale bem a pena!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Banda sonora para a Primavera (16)

Edison's Children é um projecto conceptual que nasceu da inspiração de dois músicos veteranos: Pete Trewavas (baixista dos Marillion) e Eric Blackwood. Lançaram um espantoso disco de rock progressivo, "In The Last Waking Moments", que narra uma história de ficção científica embalada por melodias viciantes, plenas de luz e sombra. "A Million Miles Away" e "In The Last Waking Moments" são canções que, apesar da subtileza do todo (e o disco é mesmo para ouvir seguido, do princípio ao fim), se colam ao ouvido e nos incentivam a ouvi-las repetidamente.

Edison's Children - "In The Last Waking Moments"

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Política de proximidade (1)

"O desemprego é uma preocupação de todos nós, e todos nós temos de trabalhar em conjunto, sindicatos, patrões e partidos, para conseguirmos ultrapassar esse coiso."
Álvaro Santos Pereira no Parlamento, em 18/05/12

sábado, 2 de junho de 2012

A Serra Leoa também somos nós

É uma excelente notícia: Charles Taylor é o primeiro chefe de Estado a ser condenado num tribunal internacional desde o fim da II Guerra Mundial. Por ter sido provado que financiou os rebeldes da Serra Leoa e planeou os "mais abomináveis e horrendos crimes" da história, o antigo Presidente da Libéria foi condenado a 50 anos de prisão. Para que não se apague da memória, para que sirva de exemplo, para que conste nos manuais de História, para que as novas gerações aprendam com os erros do passado, para que tais crimes contra a humanidade não se repitam, para que, hoje, não fiquemos indiferentes às atrocidades que estão a ser cometidas na Síria.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Manual do parolo que finge estar realmente preocupado com o estado da nação (1)

"Se o Governo puser em causa o Serviço Nacional de Saúde, estou disponível para ir para a rua na frente de uma manifestação."
António José Seguro, TVI, 10/05/12

domingo, 27 de maio de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

Banda sonora para a Primavera (15)

Damon Albarn acaba de editar o seu primeiro trabalho a solo. Chama-se Dr. Dee e é um disco lindíssimo, inclassificável, compreendendo-se no contexto do percurso de um compositor sempre à procura de novos horizontes, mediante um intenso e rigoroso trabalho de pesquisa e experimentação. Senão vejamos: Damon Albarn foi líder dos Blur, responsável por um dos projectos musicais mais ousados da década anterior, os Gorillaz, e por entre essas aventuras tem sido incansável no trabalho de divulgação de artistas oriundos do Mali, tendo ainda assumido a liderança do projecto conceptual, The Good, the Bad and the Queen, que, além de Albarn, reúne músicos oriundos de bandas clássicas, como The Clash e The Verve.

Dr. Dee é um álbum conceptual, escrito em formato de opereta, em que se reconhecem elementos de música de câmara e erudita, do canto lírico e, sobretudo, de folk pastoral. É um disco sereno, crepuscular, paisagístico e com alguns momentos de uma beleza arrepiante. Já agora, refira-se que o "Doctor Dee" que dá nome à presente obra foi um alquimista, astrólogo, espião, conselheiro médico e científico da corte inglesa no século XVI. A ouvir com atenção!

Damon Albarn - "O Spirit Animate Us"

quinta-feira, 24 de maio de 2012

"Nunca te deixei partir"




Foi um prazer indescritível construir um trabalho tão intenso e emocionante com os meus alunos, no grupo de teatro que dirijo no Colégio D. Dinis, o GAEDE. Na verdade, o espectáculo "Nunca te deixei partir" foi um sucesso a todos os níveis: de público, pois tivemos três noites com sala cheia no Pequeno Auditório do Rivoli Teatro Municipal, com reacções calorosas e comovidas da plateia, artigos na Visão, Público, Jornal de Notícias e inúmeros sites e rádios locais e nacionais, e com o autor do texto, José Luís Peixoto, a pedir-nos para repor o espectáculo, tendo em conta as solicitações de tantos leitores que não puderam vir ao Porto nos dias 17, 18 e 19 de Maio (estes dois últimos dias tivemos lotação esgotada). Tal sucesso foi possível com muito trabalho, empenho, persistência e dedicação da parte de todos os que se envolveram neste projecto.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

"Nunca te deixei partir" - dias 17, 18 e 19 de Maio no Rivoli, às 21h45


Nos dias 17, 18 e 19 de Maio, às 21h45, o GAEDE apresentará o espetáculo “Nunca te deixei partir”, encenado por mim a partir da obra “Morreste-me” de José Luís Peixoto, no Pequeno Auditório do Teatro Rivoli.
“Nunca te deixei partir” é já o 7º espetáculo do GAEDE. Trata-se do relato comovente e avassalador da morte de quem mais amamos, a descrição do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem sob a forma de memória redentora. Em palco, 17 atores descrevem a dor sentida pelo filho perante a doença e morte do pai. Formalmente, trata-se de um texto contínuo, aqui repartido por vários monólogos e pequenos diálogos. Procura-se celebrar a vida, o amor entre pais e filhos, os laços afetivos mais puros, sólidos e incondicionais.
O elenco da peça é composto por jovens que se dedicam a este projeto em regime de complemento curricular, mas com a entrega dos melhores profissionais aliada à motivação e prazer genuíno de um artista amador.

Bilhetes à venda na bilheteira do Rivoli, em bilheteiraonline.pt, nas lojas FNAC e CTT.
Reserva de bilhetes: 22 339 22 01.



segunda-feira, 14 de maio de 2012

"A Minha Semana Com Marilyn" - um filme perfeito

Nem sempre os biopics resultam cinematograficamente. Quase sempre degeneram em pastelões académicos desprovidos de alma. Simon Curtis conseguiu a proeza de criar uma película com classe, digna de figurar em qualquer lista dos melhores filmes de 2012. 

O filme adapta as memórias de Colin Clark, que em 1956, com apenas 23 anos, trabalhou como terceiro assistente de realização de Lawrence Olivier, durante a atribulada rodagem do clássico "O Príncipe e a Corista". Aquele jovem acaba por criar uma relação de intimidade com Marilyn Monroe, a maior estrela de cinema de sempre que, afinal, só queria ser reconhecida como atriz maior. 

A realização, já aqui se disse, é soberba, mas o principal trunfo encontra-se, sobretudo, nas fabulosas interpretações de Michelle Williams, que aqui encarna uma Marilyn de carne e osso (fugindo à mera figuração do ícone), e Kenneth Branagh, num hilariante e desmitificado Sir Lawrence Olivier (e há quanto tempo não o víamos assim, num papel maior que a vida?).

Trailer de "A Minha Semana Com Marilyn"

terça-feira, 8 de maio de 2012

"O Diário a Rum" - homenagem a Hunter S. Thompson

Hunter S. Thompson (1937-2005) foi um dos mais influentes e originais jornalistas e escritores norte-americanos. Escreveu o romance "O Diário a Rum" quando tinha apenas 22 anos, tornando-se rapidamente um livro de culto. Johnny Depp era seu amigo e, em 1998, já tinha protagonizado uma adaptação para celulóide de um livro de Thompson ("Delírio em Las Vegas", de Terry Gilliam). No ano passado, Bruce Robinson assinou uma sentida homenagem a Thompson, adaptando "O Diário a Rum" ao grande ecrã. Neste filme, Depp é novamente o alter-ego do escritor, agora numa representação bem mais contida e sóbria do que na película realizada por Gilliam. O filme diverte e prende o espectador a este conto moral situado no cenário paradisíaco de Porto Rico e movido a álcool, gasolina e drogas. Não sendo um filme obrigatório, o seu visionamento recomenda-se a cinéfilos e fãs do malogrado autor!

Trailer de "O Diário a Rum"

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Banda sonora para a primavera (14)

Leonard Cohen é um dos meus poetas de eleição. É também um dos meus cantautores recorrentes, em todas as estações do ano e estados de alma. Aos 77 anos, acaba de lançar o seu melhor disco desde "Ten New Songs" (2001). Composto por dez canções de uma harmonia e simplicidade desarmantes, "Old Ideas" é o corolário de uma obra inigualável na história da música popular. Ouça-se "Going Home", "Crazy To Love You" ou "Come Healing" e respire-se doses de poesia e melodia superlativas. Quase octogenário, Leonard Cohen continua um músico jovem, agora com a possibilidade de olhar a vida, a morte, o amor e o sexo com a maturidade própria de quem viveu o universo e caminha sabiamente para a aurora de um novo dia.

Leonard Cohen - "Come Healing"


domingo, 6 de maio de 2012

MÃE



O universo começou contigo
A Natureza inclina-se à tua passagem
Em ti encontro o meu porto de abrigo
É um privilégio ter sido feito à tua imagem.

Gosto de adormecer com o som meigo da tua voz
E o toque suave das tuas mãos no meu rosto
Aprendi contigo a importância de sermos “nós”
No Amor e na Paz – é a Família, tal como é suposto.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...