É impossível não nutrir simpatia e carinho pela escrita de Luís Sepúlveda. Desde os clássicos O velho que lia romances de amor e História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, passando por Patagónia Express e Diário de um killer sentimental, é fácil sentirmo-nos rendidos às suas narrativas simples (mas não simplistas) e fluídas, aos seus heróis generosos e até a uma certa poesia romântica, como se todas as histórias fossem contadas a partir da memória afetiva de pessoas, lugares ou animais.
É neste contexto que se lê o pequeno volume de contos A venturosa história do usbeque mudo, uma espécie de requiem nostálgico por uma juventude irrepetível, aquela que, durante as décadas de 60 e 70, lutou contra regimes fascistas na América Latina. São histórias breves que trazem à memória camaradas de esquerda do próprio autor, heróis míticos como Che Guevara (há um capítulo que detalha os seus últimos momentos de vida) ou soldados que pereceram em nome da causa revolucionária e que, de outra forma, estariam condenados ao esquecimento.
Claro que a perspetiva de Sepúlveda nunca é imparcial: os revolucionários são sempre guerrilheiros de bom coração. Mas esse era também um sinal dos tempos retratados nesta obra, uma determinada ingenuidade e honestidade que já não volta. E tal visão não revela qualquer forma de maniqueísmo, antes pelo contrário, torna as histórias mais comoventes e intensificam o prazer da leitura.

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