sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"Morreste-me", de José Luís Peixoto - um pequeno grande livro

A partir da dramática experiência da morte do pai que tanto (o) amava, José Luís Peixoto estreou-se na grande literatura com uma terna e sublime elegia ao seu progenitor. O resultado foi "Morreste-me", a obra que também iniciou o ainda jovem escritor nos prémios literários que justamente têm celebrado o seu percurso como romancista e poeta. Ainda que triste e tremendamente comovente, "Morreste-me" é um pequeno livro singular de um grande escritor, excelente para nos acompanhar numa tarde de Verão.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Banda sonora para o Verão (17)

O género musical designado como rock progressivo tem, nos últimos anos, sido alvo de uma autêntica e, em muitos casos, sublime renovação. O seu berço foi, como bem sabemos, Inglaterra e teve como ponto de partida a vontade de experimentação e fusão de géneros musicais (rock, blues, jazz, world music, música clássica) por parte de jovens músicos que, nas suas bandas, procuraram dar novos caminhos ao rock, libertando-o do tradicional formato de canção, alargando e (porque não?) quebrando as suas fronteiras. Foi assim que os Pink Floyd, Genesis, Yes, Jethro Tull, Marillion, King Crimson, entre muitos outros, operaram uma verdadeira revolução, criando novos paradigmas na arte das musas.

Curiosamente, tem sido em Itália que o género musical em análise tem encontrado muitos dos novos e mais originais compositores. Um exemplo é o projecto Cavalli Cocchi Lanzetti Roversi que acaba de lançar o álbum homónimo, merecedor da atenção de qualquer melómano com bom gosto. O disco é lindíssimo, pleno de canções candidatas a banda sonora do Olimpo, tal as subtis texturas sonoras criadas pelos três músicos que constituem a banda. Na verdade, este projecto é, mais do que um grupo, a reunião de três veteranos de géneros musicais distintos (clássica, rock e jazz) que, inspirados pelos deuses, criaram nove belíssimas canções que agora reuniram em disco. 

O LP deve ser escutado no escuro, sem outras inteferências sonoras, como se de uma cerimónia religiosa se tratasse. Ouçam, por exemplo, "Morning Comes" e percebam porquê. Refira-se também que estas músicas - como quase todo o rock progressivo - são ignoradas pelas emissoras de rádio por não se enquadrarem na ditadura do paradigma musical popular ainda dominante, que ordena que as canções tenham cerca de três minutos e uma estrutura facilmente trauteável pelo ouvinte. Devemos, no entanto, exigir maior elevação à nossa sensibilidade estética.

Só mais um breve apontamento: não deve ser fácil encontrar o disco em lojas nacionais, mas pode ser adquirido a bom preço no site da amazon.

sábado, 6 de agosto de 2011

A Somália também somos nós

A Organização das Nações Unidas garante que a fome na Somália vai aumentar até ao final do ano, pelo que a ajuda internacional terá de continuar. Por isso, a ONU fez um apelo à solidariedade mundial para que se aumentem os donativos em mil milhões de euros. Para agravar de forma absurda a presente calamidade, há grupos radicais/fundamentalistas que não permitem a entrada de ajuda internacional em certas zonas daquele país africano. 

Após milhares de anos de evolução na Terra e de tantas barbaridades cometidas pelo ser humano - à natureza e a si próprio - é caso para perguntarmos: o que aprendemos ao longo dos séculos?

domingo, 24 de julho de 2011

"Catedral" - contos de Raymond Carver

Raymond Carver (1938-1988) foi um dos maiores contistas norte-americanos do século XX. Com uma visão apurada, fria e cinematográfica, Carver retratou a América profunda nos seus contos, revelando alma de sociólogo. Na verdade, encontramos nas suas histórias personagens que parecem saídas de pequenas notícias de jornais regionais. Personagens que são mesmo pessoas reais. A obra "Catedral", publicada recentemente em Portugal via QUETZAL, reúne alguns dos seus mais viciantes contos, que lemos sem vontade de parar, tal a imensidão de vida que por lá passa. Vidas que, no fundo, mais parecem um deserto de almas. A ler, obrigatoriamente, para perceber porque é que o existencialismo foi a corrente filosófica que marcou a literatura do século passado.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Banda sonora para o Verão (16)

Destroyer é uma banda canadiana liderada por Dan Bejar (mentor de um dos projectos rock mais estimulantes dos últimos dez anos - os New Pornographers), que acaba de editar o álbum Kaputt. Trata-se de um excercício de estilo inteligente (mais do que sensível), que encontra a sua matriz na melhor filigrana pop da década de 80, nomeadamente nos injustamente esquecidos Scritti Politti e Talk Talk, mas também em Sade (álbum Diamond Life) e Simply Red (Picture Book e Man and Women). Kaputt é uma obra coesa, plena de texturas melódicas onde as batidas eminentemente pop são acompanhadas por sintetizador, guitarra, baixo, trompete e saxofone, bem como por vocalizações discretas e simples, diria até minimais, comprovando a máxima do último álbum dos Marillion, Less is More.

Destroyer - Kaputt

sábado, 25 de junho de 2011

Clarence Clemons (1942-2011) - So long, Big Man

Clarence Clemons, icónico saxofonista da E Street Band de Bruce Springsteen, partiu para outras paragens, quiçá cósmicas, onde outros seres, quiçá superiores, terão o privilégio de se elevar ao som da sua música.

Como muitos outros adolescentes da década de 80, cresci a ouvir os teus solos em "Born To Run", "Jungleland" e "Bobby Jean". Contigo, dancei no meu quarto. Agora, dança no escuro, Clarence. O teu saxofone dar-lhe-á luz.

"Jungleland"

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Banda sonora para a Primavera (12)

O novo álbum de Moby, "Destroyed", é um tratado sonoro sobre a solidão nas grandes cidades, ou como, mesmo cercados por milhões de seres humanos, os indivíduos estão condenados à solidão. Na verdade, as músicas parecem ter sido compostas sob o efeito de anti-depressivos, tal a suave melancolia que atravessa as 15 faixas do disco. Há harmonias que fazem lembrar "Play", a mais bem-sucedida obra de Moby, bem como texturas minimalistas em constante estado de levitação. 

Não sendo uma obra-prima, "Destroyed" é um belo disco, coerente e coeso, onde o todo não se resume à mera soma das partes que o constituem. Ainda assim, "Be The One", "The Low Hum" e "The Day" são sérios candidatos a melhor canção do ano.

Moby - "The Day"

quarta-feira, 15 de junho de 2011

"As Vidas dos Outros" - reflexões sobre o totalitarismo

Já aqui deixei a minha opinião sobre o entediante "O Turista", protagonizado por um sonâmbulo Johnny Depp e uma Angelina Jolie a levitar num desfile de alta costura. Pois bem, em 2007, Florian Henckel Von Donnersmarck foi responsável por um dos melhores filmes dessa década, aliás justo vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, entre muitos outros prémios em importantes festivais de cinema europeu. Refiro-me ao intenso "As Vidas dos Outros", drama sobre a claustrofobia ideológica da ditadura comunista na ex-RDA.

"As Vidas dos Outros" começa na Alemanha de Leste, em 1984, cinco anos antes da Glasnost de Gorbachev e da queda do Muro de Berlim, conduzindo o espectador até 1991, já em plena Alemanha reunificada. O dispositivo dramático é extremamente interessante, levando-nos a acompanhar a progressiva desilusão do Capitão Gerd Wiesler, um oficial altamente credenciado da Stasi, a sufocante polícia política do regime comunista. A sua missão é espiar um prestigiado escritor, George Dreyman, e a sua esposa, a actriz Christa-Maria Sieland. Nesta película, o realizador alemão consegue a proeza de humanizar um personagem à partida com tudo para ser detestado. De facto, o Capitão Wiesler vive na aceitação e total conformidade com o sistema político, mas a proximidade com as vítimas (que ignoram estar a ser vigiadas) leva-o a questionar os princípios (falácias) que sustentam a grande ilusão ideológica. Sentimos que o exemplar inquiridor nunca esteve tão próximo (íntimo) de alguém quanto com o casal de artistas e que a sua solidão era a solidão de todos os que se subjugavam a um regime opressivo e absolutista.

Raras vezes o cinema contemporâneo conseguiu reflectir tão profundamente sobre a relação entre o individual e o colectivo, analisando a tentativa das ditaduras aniquilarem o indivíduo em nome de um ideal político obsoleto. É também pertinente estabelecer um paralelismo com outra obra incontornável do cinema dos últimos dez anos, "Adeus, Lenine", filme assinado por Wolfgang Becker em 2003. Mas neste último (a encenação criada por um filho que assim prolongava a uma mãe doente a ilusão da utopia socialista) a ditadura servia de pretexto à ridicularização da ditadura, agora transfigurada pela comédia; enquanto que em "As Vidas dos Outros" não há lugar para a realização individual - a existência humana plena e total - em sistemas políticos totalitários. Este filme é a prova de que também no cinema há grandes artistas que fazem bons e maus filmes.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mouseland

Tommy Douglas foi um pastor escocês que chegou a ministro no Canadá. A sua carreira política ficou marcada pela narração, num discurso, da genial fábula, "Mouseland". 

Vejam o vídeo até ao fim e tentem descobrir algum país que revejam nesta fábula.


"Mouseland"

domingo, 29 de maio de 2011

"Pensar o nosso país: O que fazer da Educação Portuguesa?"

Eis uma simples mas interessante reflexão publicada no site do semanário "Expresso" (no dia 25 de Maio de 2011), por João Monteiro Silva, estudante da Universidade do Porto no Curso de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.

"É uma pergunta de difícil solução. Como resolver o nosso problema de falta de qualificação sem massificarmos administrativamente as competências e esbarrar-nos sistematicamente com indivíduos que mal sabendo ler ou escrever se outorgam a si próprios um diploma do 12º ano. Não é fácil mas tem solução.
O país deve perceber que as pessoas não se medem pelo número de anos que andam na escola nem as competências são proporcionais ao tamanho dos canudos universitários. Um terço das competências adquiridas na Universidade poderiam facilmente ser adquiridas no Ensino Profissional e outro terço não servem os interesses dos próprios estudantes, o que equivale a dizer que correspondem a cursos que só servem as Universidades e os interesses dos seus Reitores que recebem tanto mais dinheiro quanto mais alunos estiverem inscritos.
Em Portugal cometemos um erro terrível que passou por adotar um sistema educativo nórdico a uma população latina. Fiasco. Os nórdicos e anglo-saxónicos são por natureza metódicos, rigorosos e, sobretudo, competitivos. Já os latinos são naturalmente pouco rigorosos e laxistas na forma de encarar a vida e os problemas. Temos várias qualidades mas temos esses terríveis defeitos. Daí precisarmos muitas vezes de um verdadeiro estímulo e objetivo para trabalhar melhor. E quando nos dizem que estudando ou fazendo sorna o resultado passa sempre por passar de ano, então está-nos na massa do sangue fazer sorna. Os nórdicos e americanos, pelo contrário, esfolar-se-ão a trabalhar na esperança de que os outros trabalhem menos para assim serem mais ricos do que eles.
Daí a responsabilidade do Estado nesta matéria. O Estado, como garante primário da educação, deve ser rigoroso, metódico, exigente porque só dessa forma, num país latino, as pessoas também o serão. É um raciocínio linear, que pode funcionar mal na sociedade, mas a verdade é que os raciocínios simples são sempre os mais verdadeiros. Como em tudo, na vida, na educação ou na política, quando começamos a complicar, perdemo-nos.
Parta-se deste princípio e seremos todos melhores. Uns melhores agricultores e juízes, outros melhores operários fabris ou médicos. Porque cada um poderá desenvolver os seus talentos e não ser forçado a desenvolver aqueles que nunca teve ou terá.
E viveremos mais felizes, num mundo mais real e seremos, porventura, todos muito mais ricos."

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O cinema de Kôji Wakamatsu

O cinema pink, género difícil de definir (para uns, é pornográfico, para outros é a quintessência do erotismo), surgiu no Japão na década de 60 do século passado pela mão e pelo olhar de Kôji Wakamatsu, cineasta que tem sido nos últimos anos alvo de reavaliação crítica. O manifesto que introduziu aquele género cinematográfico estabelece quatro regras fundamentais: ter aproximadamente uma hora de duração, ter cenas de sexo, ser filmado em 16mm ou 35 mm no período de uma semana e estar limitado a um orçamento reduzido. 

Em cerca de 50 anos de carreira, Kôji Wakamatsu tem assinado uma série de filmes ousados, tanto na forma como no conteúdo. Chocantes, subversivas, anarquistas, ou simplesmente manifestos estéticos, cinco películas do realizador japonês foram recentemente editadas em Portugal pela Clap filmes. Com nomes estranhos, mas não tão bizarros quanto os filmes que representam, "Os Segredos Atrás das Paredes", "O Embrião Caça em Segredo", "Vai, Vai Virgem Pela Segunda Vez", "Sex Jack - Sistema Violado" e "O Êxtase dos Anjos" são obras que merecem ser vistas, ainda que, por vezes, se situem na linha ténue que separa a arte do lixo abjecto.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Tamara Drewe" - um filme de Stephen Frears

Stephan Frears foi um dos mais aclamados cineastas surgidos na década de 80, capaz de alternar o cinema britânico independente ("A Minha Bela Lavandaria", "A Carrinha") com o cinema dos estúdios de Hollywood ("Ligações Perigosas", "O Herói Acidental") sem perder a identidade e, sobretudo, a classe com que filma e dirige os actores. Trata-se, na verdade, de um cineasta que opta sempre pela adaptação de argumentos de estrutura clássica, abordando-os com impressionante precisão e rigor. Nem todas as obras de Frears resultam em grandes filmes, mas ainda assim mantêm uma coerência que permite destacar este realizador dos demais parceiros da indústria cinematográfica. 

"Tamara Drewe" é a história de uma jovem mulher que, após a morte da mãe, recebe de herança a casa na aldeia em que cresceu, o que a obriga a regressar e a reencontrar o seu passado. Os personagens que com ela se cruzam têm todos espessura dramática e a narrativa é sempre pontuada por um humor leve mas fino, garantindo ao espectador cerca de duas horas de excelente entretenimento. A ver!

sábado, 14 de maio de 2011

Banda sonora para a Primavera (11)

A recente reedição de "Bridge Over Troubled Water", clássico maior dos Simon and Garfunkel, assinalando o 40º aniversário do álbum, é um dos acontecimentos culturais de 2011. Na verdade, o referido disco é um monumento da canção popular que só tem paralelo em clássicos de folk-rock de Bob Dylan, Neil Young ou Bruce Springsteen. É uma obra-prima incontornável para se perceber a evolução da música popular ao longo da segunda metade do século XX. O génio de Paul Simon (mais esquecido que os outros autores) carece de reavaliação e aqui está um bom pretexto para tal análise. Aliás, em simultâneo o cantautor acaba de editar o seu mais recente álbum a solo - "So Beautiful Or So What".

"Bridge Over Troubled Water" - Simon and Garfunkel

sábado, 7 de maio de 2011

GAEDE no XXXII Encontro Nacional de Teatro na Escola (ETE)

O XXXII ETE decorreu em Almada entre os dias 4 e 7 de Maio, numa organização conjunta da Escola Secundária Daniel Sampaio e do Agrupamento de Escolas Elias Garcia. Foi um belíssimo Encontro, com a participação de grupos de teatro de muitas escolas do País e onde o GAEDE esteve, pelo quinto ano consecutivo, presente, desta vez enquanto Grupo Observador. Entre workshops e espectáculos, foi mais uma festa de celebração do Teatro, da Escola, da Amizade, dos Afectos e da Vida.

Consultem o Programa do XXXII ETE em http://www.eteac.org/.

Viva o Teatro!

Vivam os ETEs!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Banda sonora para a Primavera (10)

Fabuloso vídeo de Keny Arkana! É música para os tempos difíceis que estamos a atravessar, mas sobre os quais urge reflectir.

"5eme soleil" - Keny Arkana

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...