domingo, 29 de abril de 2012

Legendar o silêncio icónico (17) - Primavera Árabe, outra vez

A Praça Tahrir, motor da Primavera Árabe, encheu-se outra vez de milhares de egípcios nas suas orações muçulmanas. Os fiéis aproveitaram para exigir que o poder passe para os civis e que membros do regime de Mubarak sejam impedidos de se candidatarem. É caso para perguntar: devemos temer mais os caciques de Mubarak ou um Egito governado por religiosos islâmicos?

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"A Guerra dos Tronos"

George R. R. Martin é responsável por uma impressionante e majestosa saga épica construída em mais de uma dezena de livros, agora adaptados ao formato de uma fabulosa série televisiva que já vai na segunda temporada. Combinando com sageza elementos históricos medievais com a criação de uma geografia e uma cosmogonia alternativas, o tom é sombrio, mais denso, imprevisível e adulto que a maioria das histórias de fantasia. A primeira temporada já está disponível numa interessante edição em DVD. Obrigatório!

Trailer de "A Guerra dos Tronos" (1ª Temporada)

sábado, 7 de abril de 2012

O "mercador da morte" foi condenado - uma boa má notícia

O comerciante de armas sem escrúpulos que inspirou o personagem de Nicolas Cage no filme "O Senhor da Guerra", realizado por Andrew Niccol em 2005, foi condenado a 25 anos de prisão por um tribunal de Nova Iorque. É uma boa notícia, porque o facínora não poderá andar em liberdade nas próximas duas décadas e meia, mas, por outro lado, é uma pena demasiado leve para quem colaborou com assassinos como Charles Taylor, o antigo Presidente da Libéria que está a ser julgado no Tribunal Penal Internacional. Os governantes russos é que não estão nada contentes, já que o agora condenado, também conhecido como o "mercador da morte", é um antigo agente soviético que terá começado o seu próspero negócio de armas usando aviões militares deixados ao abandono nas pistas de aeroportos do velho império da URSS.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Legendar o silêncio icónico (16) - indiferença

26 de Março de 2012: Durante a visita de Hu Jintao a Nova Deli, um jovem tibetano pegou fogo às roupas em protesto contra a ocupação do seu país pela China. Para além da dor estampada no rosto da vítima, fere-nos constatar a indiferença daqueles por quem ela passa. Há até quem tire fotografias para mais tarde recordar...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

"Bully" - documentário obrigatório sobre vítimas de bullying

"Bully", o controverso documentário de Lee Hirsch a Alicia Dwyer, vai chegar às salas norte-americanas sem classificação etária. É um braço de ferro travado entre Harvey Weinstein (produtor do filme) e elementos da Classification and Ratings Administration (uma espécie de IGAC made in USA), uma vez que o prestigiado produtor de Hollywood pretende que "Bully" possa ser visto por todos os adolescentes, nos cinemas e nas escolas. No entanto, a decisão de Weinstein - recorde-se: trata-se de poder exibir o filme sem classificação etária - pode conduzir à catástrofe comercial da película, uma vez que desse modo não pode ser vista por menores de 17 anos sem a companhia de adultos. O problema reside no uso da palavra "fuck", que viola as regras sobre linguagem para filmes com classificação PG-13 (qualquer coisa como: interdito a menores de 13 anos). 

É impressionante como a indústria de Hollywood parece alimentar-se da e alimentar a violência e a indústria de armamento, já que são tantos os filmes que vivem da fotogenia da violência, a maioria deles dirigidos ao público adolescente. No fundo, basta, como em muitas fitas de ação de super-heróis, suprimir a palavra "fuck" para termos uma classificação etária que permite a crianças e adolescentes entrar na sala de cinema sem a companhia dos pais, mas quando se trata de usar a polémica palavra num contexto vivencial, tristemente real para muitos menores, tal ocorrência torna-se uma ofensa à moral e aos bons costumes. 

É impressionante como os membros das agências que regulam a classificação etária de produtos culturais conseguem analisar qualquer obra com a mesma frieza e distanciamento das pessoas e dos problemas reais que os inspetores das finanças. O problema do bullying nas escolas é - já o sabemos há muitos anos - global, bem grave e a sua análise é de elevado interesse sociológico. E não se resolve a olhar para o lado.

Trailer de "Bully", de Lee Hirsch e Alicia Dwyer

sexta-feira, 30 de março de 2012

"Os Descendentes" - a família, segundo Alexander Payne

"Os Descendentes", película assinada por Alexander Payne, é mais uma incursão deste realizador pelo universo dos afetos, acrescentando à sua interessante filmografia humanista uma espécie de tratado sobre a família e as diferenças geracionais.

A ação do filme decorre na insólita paisagem hawaiana, raramente associada à geografia emocional mas aqui a fazer um interessante contraponto trágico-cómico ao drama vivido por uma homem de meia-idade que, devido à mulher se encontrar em coma e às portas da morte, se vê subitamente na necessidade de se reaproximar das filhas.

Alexander Payne consegue sabiamente evitar os lugares-comuns e as armadilhas do melodrama delicodoce, encontrando um registo que não deixando de se aproximar dos personagens dá-lhes a liberdade suficiente para se moverem no território imprevisível que é, afinal, a vida. Dos protagonistas e da nossa!

Uma breve nota para a subtil interpretação de George Clooney, que aqui se revela, cada vez mais, um ator de corpo inteiro.

Trailer de "Os Descendentes", de Alexander Payne

quarta-feira, 28 de março de 2012

Estado da Nação (25) - dívidas das câmaras

Cerca de 12 mil milhões de euros é o valor global, estimado pelo Governo, com base nas respostas enviadas pelas câmaras, das dívidas das autarquias portuguesas e respetivas empresas municipais. É caso para perguntar: poder local ou (des)governo local? 

A regionalização nunca foi avante, mas, talvez em compensação, procedeu-se à crescente (e despenalizada!) descentralização da irresponsabilidade. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Banda sonora para a primavera (13)

Bruce Springsteen acaba de lançar um novo clássico. Chama-se "Wrecking Ball" e é o melhor disco do boss desde "Magic" (2007), superando assim o tiro ao lado que foi o obamaniano "Working On A Dream" (2009). Está cheio de grandes canções (quase todas), recuperando a estética e o espírito do saudoso "Tunnel Of Love" (1987) e do díptico da esperança "Human Touch" e "Lucky Town" (1992).

É estranho como as rádios nacionais parecem estar deliberadamente a passar ao lado do lançamento de "Wrecking Ball", ignorando o orelhudo single "We Take Care Or Our Own", portentoso manifesto à solidariedade, união e resiliência dos americanos. São esses, de resto, os temas centrais desta obra de Springsteen, que recorda, em canções como "Land Of Hope And Dreams" e "Rocky Ground", o espírito de sacrifício e de luta pela liberdade na promised land. No entanto, "Wrecking Ball", apesar de ser um disco sobre a esperança em momentos difíceis, é atravessado pelos efeitos da crise económica nas cidades, retomando, por isso, algumas das histórias recorrentes da discografia do músico norte-americano. Neste último contexto, destacam-se a dionisíaca (e, por isso, trágica) "Death To My Hometown" e a melancolicamente bela "This Depression".

A comprar, ouvir e guardar junto dos grandes clássicos do folk-rock.

Bruce Springsteen - "We Take Care Of Our Own"


terça-feira, 20 de março de 2012

sábado, 17 de março de 2012

Alguns filmes para noites de um inverno quente (3) - "Despojos de Inverno"

Agora que está prestes a estrear "The Hunger Games", filme que confirma o hype em torno de Jennifer Lawrence, convém relembrar "Despojos de Inverno", de Debra Granik, película nomeada para quatro Óscares em 2011, incluíndo o de Melhor Atriz Principal (precisamente, para Jennifer Lawrence).

"Despojos de Inverno" é uma obra-prima acerca de uma jovem de 17 anos que luta para encontrar o seu pai e assim conseguir salvar a casa onde mora com os seus irmãos e a mãe. Curiosamente, apesar do tom mais negro e trágico do filme de Granik, há por aqui alguns pontos de contacto entre o drama vivido por aquela personagem e o de Gilbert Grape (personagem que dá nome à obra de Lasse Hallstrom, analisada no post anterior). De facto, tratam-se de duas películas sobre a importância dos laços de sangue e a defesa da família perante qualquer adversidade.

Trailer de "Despojos de Inverno", de Debra Granik

quinta-feira, 15 de março de 2012

Alguns filmes para noites de um inverno quente (2) - "Gilbert Grape"

Em 1993, Lasse Hallstrom representava a sempiterna atração de Hollywood pelo cinema europeu, que, atenta ao trabalho de cineastas do velho continente, procurava manter uma certa tradição dos estúdios, a saber: criar grandes filmes de matriz popular. Foi neste contexto que aquele realizador assinou "Gilbert Grape". Johnny Depp e Julliette Lewis eram estrelas em ascensão, mas o verdadeiro furacão do filme era um jovem ator desconhecido que dava pelo nome de Leonardo DiCaprio (foi, aliás, nomeado pelo papel neste filme para o Óscar de Melhor Ator Secundário).

A película situa a ação numa pequena localidade no Iowa, contando a história de uma família destroçada pelo suicídio do patriarca. Desde então, Gilbert Grape (Johnny Depp) tornou-se o chefe da família, sem tempo para si próprio, já que vive para garantir a satisfação das necessidades da sua mãe obesa, emocionalmente perturbada e desastrosa como dona de casa, das suas irmãs e do seu irmão mais novo, Arnie (uma interpretação inesquecível de DiCaprio), que sofre de um atraso mental que o torna completamente dependente dos cuidados de Gilbert.

A realização de Hallstrom nunca nos aproxima demasiado dos personagens; tem sido, de resto, esse o registo a que este autor nos habitou ao longo de uma carreira já longa e, apesar de alguns filmes menores ("Casanova", por exemplo), sempre com temáticas recorrentes (a importância dos laços de vinculação) e normalmente em torno de famílias disfuncionais ("As Regras da Casa", "Chocolate"). A direção de fotografia é da responsabilidade do experiente Sven Nykvist, salientando aqui a luz de verão ao entardecer e reforçando, desse modo, a leve melancolia que atravessa "Gilbert Grape". 

Trailer de "Gilbert Grape", de Lasse Hallstrom

terça-feira, 13 de março de 2012

Alguns filmes para noites de um inverno quente (1) - "Os Olhos de Júlia"

"Os Olhos de Júlia" é uma película assinada com mestria por Guillem Morales. Narra a história de Júlia, uma mulher que sofre de uma doença degenerativa da vista, que encontra a irmã gémea, Sara, que já cegara devido ao mesmo problema, enforcada na cave da sua casa. Apesar de tudo apontar para que se trate de suicídio, Júlia decide investigar o que ela intuitivamente sente ter sido homicídio, penetrando num mundo obscuro que parece esconder uma misteriosa presença. 

Logo no início, o filme marca o tom que vamos acompanhar ao longo de aproximadamente duas horas: um thriller hitchcockiano, denso, negro, psicanalítico e claustrofóbico. A fotografia é fabulosa, destacando-se um trabalho de iluminação que coloca o espectador num estado de permanente tensão. As interpretações são exemplares, sobretudo a minuciosa expressividade da belíssima atriz principal, Belén Rueda. 

"Os Olhos de Júlia" já está à venda no mercado de DVD e foi, sem sobra de dúvida, um dos melhores filmes que passou pelas salas de cinema portuguesas no ano passado. Obrigatório!

Trailer de "Os Olhos de Júlia", de Guillem Morales

terça-feira, 6 de março de 2012

Consequências da crise na Grécia


                   1. Zeus vende o trono a uma multinacional coreana.
                   2. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública.
                   3. Eros e Pan inauguram um prostíbulo.
                   4. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento.
                   5. Narciso vende os espelhos para pagar a dívida do cheque especial.
                   6. O Minotauro puxa carroça para ganhar a vida.
                   7. Acrópole é vendida e aí é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus.
                   8. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: "Ela tem minhocas na cabeça".
                   9. Sócrates inaugura o Cicuta's Bar para ganhar uns trocos.
                  10. Dionisio vende vinhos à beira da estrada de Marathónas.
                  11. Hermes entrega currículo para trabalhar nos correios. Especialidade: entrega rápida.
                  12. Afrodite aceita posar para a Playboy.
                  13. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus liberta as ninfas para
                   trabalharem na Eurozona.
                  14. Ilha de Lesbos abre um resort hétero.
                  15. Para economizar energia, Diógenes apaga a lanterna.
                  16. Oráculo de Delfos apaga os números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.
                  17. Áries, deus da guerra, é agarrado em flagrante desviando armamento
                   para a guerrilha síria.
                  18. A caverna de Platão abriga milhares de sem-abrigo.
                  19. Descoberto o porquê da crise: os economistas andam a falar grego grego!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...