A Libéria fechou as fronteiras, a Serra Leoa e a Guiné-Conacri não conseguem conter a infeção, e em Lagos, na Nigéria, já se registaram dois casos mortais. A gravidade da situação, nos últimos cinco meses, deixa a grande distância todos os surtos anteriores de ébola. Por isso mesmo, a Organização Mundial de Saúde declarou, há dois dias, que o surto do vírus do ébola, na África Ocidental, é uma "emergência de saúde pública de âmbito internacional".
Ideias, opiniões, gostos, prazeres, fruições, sensibilidades e rotinas serão aqui registadas.
domingo, 10 de agosto de 2014
sábado, 9 de agosto de 2014
Cinema Fora do Sítio
O filme The Quiet Ones, de John Pogue, é exibido hoje, às 22 horas, nos jardins do Palácio de Cristal, no âmbito do ciclo Cinema Fora do Sítio. A não perder!
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
A exploração do Homem pelo Homem - hoje
Emigrantes de países como o Nepal, o Sri Lanka e a Índia encontram-se presos no Qatar, após a falência da Lee Trading and Contracting, a empresa responsável pela sua contratação para inúmeras obras públicas no emirato - em particular para o Campeonato do Mundo de Futebol, a realizar em 2022. O caso foi revelado pelo diário britânico The Guardian, que denunciou as condições sub-humanas impostas a estes trabalhadores: não recebem durante meses, trabalham de sol a sol e a maioria não tem sequer direito a um espaço com luz e água potável. O Governo de Doha reconhece que 270 operários morreram em acidentes laborais desde 2012.
Espécie de eterno retorno à filosofia social e política de Marx e Engels, que é hoje mais atual do que nunca.
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Prolegómenos para uma educação futura
Talvez seja importante relembrar agora as palavras do educador, escritor, teólogo, professor e filósofo, recentemente falecido, Rubem Alves:
"Há escolas que são gaiolas, há escolas que dão asas. Educar não é ensinar Matemática, Português... Isso pode aprender-se nos livros. Educar é ensinar a ver."
Rubem Alves queria ser recordado como um defensor das crianças e daquilo que elas deveriam aprender na escola. Na sua tese Teologia da Esperança Humana questionava: "Até onde conseguimos ir quando o caminho exige valorizar coisas tão esquecidas como a arte e a capacidade de aprender com olhos de criança?".
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
O Estado da Educação Num Estado Intervencionado
De acordo com o Observatório de Políticas de Educação da Universidade Lusófona, depois de três anos de intervenção da troika, "os professores perderam cerca de 30 mil postos de trabalho. É a 2ª profissão com maior nível de desemprego, facto que se deve ao aumento do número de alunos por turma e a um empobrecimento das disciplinas - mais Matemática e Português, menos formação global".
Segundo o mesmo relatório, "a meritocracia - e não a Escola para Todos, mas apenas para os que a merecem - revela-se numa escolaridade posta ao serviço do mercado de trabalho, desvalorizando a formação integral de crianças e jovens. (...) De uma escola pública com indicadores de qualidade, quer este Governo criar uma escola para a elite e uma outra para a dos outros. Voltaram os exames de todos os ciclos. Investir em educação hoje, século XXI, deveria ser - e não é! - a promoção e a colaboração de todos e não a reedição de ensinar a muitos como se fosse um só".
Um verdadeiro quadro negro para o ensino no século XXI. Em Portugal.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Banda sonora para o verão (30): James - "La Petite Mort"
A segunda vida dos James (após o interregno entre 2002 e 2007) consegue ser ainda mais interessante que a encarnação anterior. De 2008 até 2014 a banda de Manchester gravou três LPs que, mantendo a linha melódica que constitui a imagem de marca de Tim Booth e companhia, são de um vigor descaradamente pop. É verdade que La Petite Mort está uns furos abaixo de The Morning After, álbum de 2010, pois naquilo que este tinha de ousadia formal e profundidade poética aquele oscila entre canções assumidamente despretensiosas ("Curse Curse" e "Frozen Britain", por exemplo) e o statement filosófico (a belíssima "Walk Like You" e a amarga "Quicken The Dead"). La Petite Mort, todavia, é um disco capaz de fazer corar de vergonha a maior parte das bandas jovens, tal é a força, a garra e a convicção com que os James defendem as suas canções.
Talvez o melhor disco pop deste verão.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
"Planeta dos Macacos: A Revolta" - pastelão previsível assinado por Matt Reeves
Mais uma sequela que se limita a aproveitar um filão lucrativo. Planeta dos Macacos: A Revolta é uma pálida sombra do filme anterior (assinado por Rupert Wyatt), o qual tinha o interesse de problematizar o poder e os riscos da ciência, enquadrando-se no paradigma da bioética que tantos bons filmes tem patrocinado (o mais recente talvez seja "WWZ: Guerra Mundial", de Marc Forster).
Convém ressalvar que não devemos confundir esta nova série cinematográfica com os filmes iniciados em 1968 por Franklin J. Schaffner em "O Homem Que Veio do Futuro", obra icónica do cinema de ficção científica protagonizada pelo mítico Charlton Heston. Curiosamente, a película de Schaffner chegou a ser vítima de um remake pelas mãos de um desajustado Tim Burton que, estranhamente, não esteve à altura da empresa. O que só demonstra que o filme de Schaffner é ele próprio um paradigma, bem diverso do cinema-pipoca.
domingo, 3 de agosto de 2014
"O Teorema Zero" - o sentido da existência, segundo Terry Gilliam
É sempre um prazer assistir a cinema de autor. De resto, este é um privilégio cada vez mais raro, qual despojo remanescente do século XX. Mesmo que se trate de uma obra menor de um cineasta que já nada tem a provar, a não ser perpetuar a luta pela coerência artística numa arte que, de tão cara, é movida pelo retorno que seja capaz de gerar na conta bancária dos produtores. Lembro que Terry Gilliam é tão-só o Monty Python americano, autor de filmes singulares e incontornáveis sobre a linha invisível que separa a sanidade da loucura (Brazil, A Fantástica Aventura do Barão, O Rei Pescador, Doze Macacos, Delírio em Las Vegas).
É curioso constatar que Terry Gilliam deixou inacabado The Man Who Killed Don Quixote, projeto que adaptava a obra-prima de Cervantes, já que o seu filme mais recente, O Teorema Zero, tem como protagonista um D. Quixote do futuro (ou será do presente?), um hacker que aspira a decifrar o código da criação e espera estoicamente desde a infância uma chamada de Deus com a resposta à questão filosófica mais urgente: "qual o sentido da vida?". Enquanto aguarda, este eremita, que nem de propósito reside numa igreja abandonada (sinal de que a tecnologia substituiu Deus ou de que, na sua omnipresença e omnisciência, é ela própria Deus?), descobre o desejo carnal (e, portanto, o amor) numa dulcineia transfigurada em call girl cibernética (no futuro tornado presente até os afetos são virtuais).
Falso filme de ficção científica, aparente comédia negra, O Teorema Zero é uma obra difícil, estetica e narrativamente ousada, acerca da demanda pelo sentido da existência e o destino do universo. No fim, tudo se resume a um buraco negro que tudo aspira. Um regresso ao nada primordial. Em alternativa, nada como desfrutar de um sereno ocaso à beira-mar.
terça-feira, 15 de julho de 2014
O regresso a si mesmo
Após uma pausa prolongada regresso ao registo subjetivo objetivo do pensamento em si mesmo. Aos leitores deste blogue (se é que existem!) peço desculpa pelo silêncio das palavras ausentes e das imagens invisíveis, mas com a garantia do retorno à reflexão sobre aquilo que nos eleva a alma ou apoquenta o espírito. Até breve.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Banda sonora para o inverno (27) - Freedom to Glide: "Rain"
Um dos melhores álbuns editados neste inverno frio de 2014 é "Rain", obra maior dos floydianos Freedom to Glide. Inspirado em histórias reais de soldados que perderam a vida na 1ª Guerra Mundial, "Rain" é um disco seminal, brilhante, melancólico, cinzento e, como seria de esperar, chuvoso. Para ouvir do princípio ao fim, sem interrupções.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Banda sonora para o inverno (26) - Steeleye Span: "Wintersmith"
Facto: Steeleye Span são uma instituição em Inglaterra. Convém começar por este esclarecimento, não vá o caríssimo leitor pensar que o escriba se refere aqui a uma qualquer jovem ou obscura banda. Mas não sendo jovens em idade, são-no no espírito e na vontade com que planificam, escrevem poemas, recolhem lendas e compõem músicas que resultam em discos obrigatórios. O regresso com "Wintersmith" tem sido saudado pela melhor e mais exigente imprensa musical (claro que neste conceito não cabe nenhuma publicação nacional). E com toda a justiça, já que se trata de uma obra-prima invernal.
"Wintersmith" resulta de uma intensa e dedicada pesquisa a lendas e mitos anglo-saxónicos, bem como de uma longa experiência no género folk-rock, infelizmente já menos popular do que outrora (refiro-me aos saudosos Fairport Convention ou The Pogues). Pleno de influências celtas, trata-se de um disco assumidamente pagão e espiritual quanto baste, reatulizando velhas lendas de inverno que aquecem o corpo, protegendo-o das noites frias. Obrigatório para melómanos atentos e impróprio para almas geladas.
sábado, 4 de janeiro de 2014
2014
Por entre tanto ruído na comunicação social; apesar das dúvidas quanto à constitucionalidade do Orçamento de Estado; embora estejamos a construir um mundo regressivo do ponto de vista de uma cultura de ética; por entre cortes na Educação, na Saúde e nos subsídios de férias; apesar da falta que fazem políticos engajados com ideias, valores e ideais, vamos acreditar que o projeto da União Europeia tem futuro, que os Estados Unidos da América continuarão a ser uma garantia de Paz para o mundo, que os países em convulsão social e política no Médio Oriente trabalharão em prol da Democracia e do respeito pelos Direitos Humanos e que os nossos políticos estão realmente comprometidos na construção de um mundo mais justo e de uma sociedade mais esclarecida. Esperemos também um ano pleno de bons livros, ótimos discos, teatro de excelência e melhor cinema.
Feliz 2014.
domingo, 22 de dezembro de 2013
Legendar o silêncio icónico (28) - mar de dezembro
A vaguear numa fria manhã de dezembro, percorro lugares antigos com olhares novos. Dezembro é o mês mais cruel. Nele, os sítios tornam-se não-lugares, matéria imaterial, matéria-mãe. Daí o Natal.
sábado, 21 de dezembro de 2013
Banda sonora para o Natal - John Fahey: "Christmas Soli"
Foi um dos guitarristas mais respeitados do mundo, músico erudito e recoletor do cancioneiro popular norte-americano; hoje, John Fahey (1939-2001) é um artista de culto que devemos recordar. O pretexto é a edição do álbum "Christmas Soli", recolha e reinterpretação - em guitarra clássica, naturalmente - de standards desta época festiva. Religioso e profano, mas sempre profundamente cristão, é banda sonora para um Natal sacro, quente, familiar, pacífico e reconfortante.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Banda sonora para o outono - Fish: "A Feast of Consequences"
Há artistas que decidem virar costas à fama quando a integridade artística e a criatividade se aproximam de um limbo. Fish é um desses casos. Corria o ano de 1988 e os Marillion encontravam-se no auge do sucesso comercial, tendo concluído uma digressão mundial impressionante que culminava uma carreira ascendente de (na altura) apenas seis anos. Os dois últimos álbuns foram, bem vistas as coisas, os discos que salvaram o rock progressivo: os míticos "Misplaced Childhood" e "Clutching at Straws". Eram obras pensadas, criadas, compostas e gravadas com cuidado e minúcia arquitetónicas. À frente dos Marillion, Fish era o cantor-poeta, o gigante carismático de voz gentil mas sofrida, que aquelas letras eram de homem vivido. Então, porquê abandonar o grupo nesse pico criativo? Porque sim, pronto. Porque há autores que preferem percorrer o seu próprio caminho mesmo que ele implique abnegação. Porque o solipsismo é coisa que nasce connosco e determina as escolhas que fazemos. Porque há homens que não foram talhados para a fama. Porque há artistas que perspetivam o reconhecimento das massas como uma ameaça à criatividade. Porque a divergência exige risco.
Pois bem, Fish acaba de editar "A Feast of Consequences", obra densa, profundamente poética, que mesmo nos momentos mais delicados não deixa de ser intensamente negra. Em entrevista recente a uma revista britância, o artista afirma que não há razões na vida para sermos otimistas, acrescentando que o seu ceticismo o mantém lúcido e irremediavelmente longe da alienação. Convém referir que o cantautor passou por um interregno editorial forçado, já que um tumor nas cordas vocais levaram-no a pensar que nunca mais poderia voltar a cantar. Em boa hora, Fish recuperou a saúde e foi desenvolvendo o conceito para um disco concetual a partir de uma pesquisa detalhada sobre a experiência dos seus avós como soldados nas trincheiras durante a 1ª Guerra Mundial. O resultado é um álbum espantoso, que vai conquistando os ouvidos a cada nova audição. Claro que não é peça para qualquer ouvido. É, antes de mais, preciso perceber que o rock também pode ser música erudita com voz, guitarra, baixo e bateria. Ouça-se, por exemplo, as suites "High Wood" e "Perfume River", ou as canções (belíssimas!) "The Other Side of Me", "Blind to the Beautiful" e "The Great Unravelling".
Sem dúvida, um dos melhores discos do ano.
sábado, 30 de novembro de 2013
O eterno retorno
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| Américo Amorim parece querer dizer: "A minha fortuna ainda é só deste tamanho!" |
A notícia de que a fortuna do senhor Américo Amorim duplicou "em apenas um ano, com a subida de flecha do preço das ações que detém na Galp Energia, no Banco Popular e na Corticeira Amorim" faz-me invocar outras tantas notícias que dão conta que, no mesmo período de tempo, aumentaram o número de sem-abrigo, foram cortadas as pensões e os salários de milhões de portugueses e que as desigualdades económicas e sociais se extremaram em Portugal. Ora, se a fortuna de alguns aumenta pelo efeito benéfico dos mercados financeiros, que sentido faz que a desgraça de muitos outros aumente também pela ação dos mesmos mercados (que exigem cortes e sacrifícios para continuarem a financiar o Estado)? Que forças permitem que as mesmas bolsas sirvam para enriquecer alguns, enquanto prejudicam a vida de tantos outros? E como conseguir estar no lado certo dos mercados: aquele que enriquece e não aquele que destrói as nossas vidas? Se os mercados financeiros têm de existir (dizem que servem para distribuir de forma eficiente os recursos entre quem poupa e quem precisa de capital), não o poderão fazer de forma equilibrada, evitando a consequência perversa de estarem a construir um mundo preenchido apenas por milionários e pobres?
Estamos no século XXI, mas não muito diferentes das sociedades esclavagistas de há uns milénios, quando uma corte de poderosos era servida por uma legião de escravos, que apenas podiam optar entre a servidão e a indigência. Está na hora de pensarmos nisto.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Banda sonora para o outono: Blackfield - "IV"
Só a distração e o mau gosto da imprensa especializada em música pode justificar passar ao lado de um dos grandes discos deste outono. Trata-se do projeto Balckfield e do álbum "IV", autêntico tratado de perfecionismo pop-rock assinado por músicos oriundos da área do rock sinfónico e progressivo (o israelita Aviv Geffen e o mestre do prog introspetivo Steven Wilson). Juntamente com os novos LPs de Fish, John Lees' Barclay James Harvest e Dream Theater são, talvez, os melhores discos deste outono.
domingo, 3 de novembro de 2013
Estado da Nação - A crise e o alto clero
Durante anos, o bispo do Porto, atual "rei" do clero português, estava contra os ataques perpetrados pelo governo. Agora que está na cadeira de sonho e perto do poder terreno, vem dizer que os portugueses "têm de ser mais modestos nos gastos".
A viagem para a capital do reino do gamanço fez-lhe mal e esquece-se que, para além de fazer parte de uma instituição secular ligada a atos menos próprios como a pedofilia, lavagem de dinheiro, entre outros, deveria dar o primeiro exemplo de sacrifício, abdicando das suas regalias enquanto eclesiástico.
Já agora, e como o governo se diz democrata cristão, poderia dizer a este mesmo governo PSD/CDS, que seja mais contido nas despesas e não gaste dinheiro em submarinos, acabar com as PPP, as rendas das elétricas, não andem de carro mas sim a pé e não roubem os restantes cristãos. Sim, porque todos nós somos filhos de Deus.
Amém.
Por André Nuno Rodrigues de Sousa
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