A reedição dos álbuns Flying Teapot, Angel's Egg (ambos de 1973) e You (de 1974), naquela que ficou conhecida como The Radio Gnome Trilogy, dos Gong, marcará, com certeza, o ano discográfico.
É cacofonia musical sob a forma de opereta rock de ficção científica, ou não fosse a banda de Daevid Allen (1938-2015) uma ilustre representante da música sem fronteiras e sem formatos. Em boa verdade, não é justo chamar-lhe rock, jazz, fusão ou música experimental, é tudo isso e, simultaneamente, outra coisa - é música inclassificável. É Arte. Como eles, só os Soft Machine (também fundados por Allen), Weather Report e King Crimson.
Memória gloriosa dos anos 70, uma década de rock progressivo e experimentação. Se Bowie era um extraterrestre, o seu planeta de origem era, provavelmente, governado por Allen.
Nem o fim do uso gratuito de sacos de plástico nos supermercados vai salvar os oceanos. De acordo com um relatório divulgado pelo Fórum Económico Mundial, estima-se que, atualmente, mais de 150 milhões de toneladas de plásticos poluam os oceanos, pelo que, em 2050, estes vão ter, em peso, mais plástico do que peixes.
Ora, se tivermos em conta o problema gravíssimo da sobrepesca (30% das capturas não são comunicadas à ONU), é caso para perguntar: que futuro para os oceanos?
Em 2015, as 62 pessoas mais ricas do mundo tinham a mesma riqueza que a soma da metade mais pobre do planeta. Isto significa que a riqueza acumulada por 1% da população mundial, os mais ricos, superou a dos 99% restantes. Os dados foram revelados num relatório da Oxfam, Uma Economia ao Serviço de 1%.
Para aquela ONG, a forma mais eficaz de combater estas desigualdades é acabar com os paraísos fiscais, que permitem o desvio de fortunas que não são tributadas. E dá o exemplo da riqueza de África, uma vez que se estima que 30% dos rendimentos financeiros do continente não são tributados. Para a Oxfam, este dinheiro chegaria para salvar a vida de 4 milhões de crianças todos os anos, para pagar salários de professores e educar todas as crianças.
"If i can balance between the old and the new, I'll obtain my satisfaction." São de Anderson .Paak estas palavras, rezam no fim da penúltima faixa de Malibu, Celebrate. O disco celebra a diversidade ao misturar subtilmente soul, funk, hip-hop e até R&B. Sempre com equilíbrio e harmonia.
The bird, Heart don´t stand a chance ou The dreamer revelam-se verdadeiros testamentos musicais que acompanharão, com certeza, os melhores momentos vividos por estes dias cálidos.
O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade, aceitou que a Galp lhe pagasse duas viagens para ver jogos da seleção portuguesa no Euro. De acordo com a revista Sábado, aquela empresa pagou a passagem, transportando o ilustríssimo funcionário público num voo fretado só para convidados. O problema (ou será melhor afirmarmos, um dos problemas) é que o fisco tem 100 milhões em contencioso com a Galp. Mas, para o Ministério das Finanças, "não existe qualquer fundamento para falar em conflito ético". Não? - pergunto eu.
Impressionante artigo publicado, hoje, no Observador sobre o caso de uma viúva cigana que fugiu da comunidade onde vivia para não ter que andar de luto. O caso passou-se em Lisboa. Ler o texto assinado por Sónia Simões obriga-nos a pensar acerca deste relativismo cultural travestido de multiculturalismo, que mais não é do que tolerar a intolerância e fechar os olhos às violações dos Direitos Humanos perpetradas por aquela etnia. Permitir que a barbárie se instale na porta ao lado, sob o pretexto de que se trata de uma cultura diferente da nossa, que vive sob a égide de leis ancestrais e imutáveis, é desvirtuarmos a essência da Liberdade.
"De tanto ver, acaba-se por tudo suportar, de tanto suportar acaba-se por tudo tolerar, de tanto tolerar acaba-se por tudo aceitar, de tudo aceitar acaba-se por tudo aprovar..."
cálido verão
deixa-se levar
pelas margens
de uma solidão
encantada
com a possibilidade
de existir
sem contrário,
qual profilaxia da vontade.
"ousa saber!" - diria Kant
no verão frio de Königsberg
agasalhado em diurnas leituras,
porventura, já avassalado pela gota,
único atraso numa vida pontual.
desejo essa assiduidade
ambiciono tal solarenga presença
desolada
com a possibilidade
(feita certeza)
de o impulso
ser contrário à moral
efeito secundário
da estival atração
que se transfigura
por entre as margens
da idade madura.
Herman Melville (1819-1891) é, para muitos, o grande romancista épico norte-americano, sendo Moby Dick o exemplo maior da sua perícia como escritor. Ron Howard é um artesão do cinema, com uma carreira que, há semelhança de cineastas da primeira metade do século XX, será, no futuro, seguramente revalorizado e a sua filmografia objeto de revisão e reavaliação.
No Coração do Mar é, precisamente, a reconstituição da tragédia do navio Essex, que terá estado na génese do romance Moby Dick. É um filme sobre a caça à baleia, versando sobre a relação entre o homem e a natureza, num tour de force sem ousadias estilísticas, direto ao osso, portanto.
Foi um objeto ignorado na última cerimónia dos Óscares, dada a sua natureza artisticamente despretensiosa, filmada com o rigor de um artesão. Será, com certeza, daqui a 20 anos um clássico da sétima arte. Não é uma obra-prima, na medida em que há personagens secundários que não são suficientemente explorados, mas não era essa também uma característica de obras de realizadores como William Dieterle ou William A. Wellman?
Diga-se o que se disser, só uma coisa é certa: a Seleção Portuguesa foi a justíssima vencedora do Euro 2016. É a prova de que com garra, união, solidariedade, motivação, resiliência e espírito de sacrifício é possível tornar (pelo menos, alguns) sonhos (mesmo os mais difíceis!) realidade. Parabéns, Portugal!
No já longínquo ano de 1985, entrei numa (agora defunta) sala de cinema (o saudoso Chaplin, em Leça da Palmeira), acompanhado pelo meu irmão, para ver O Ano do Dragão, a primeira obra de Michael Cimino após o gigantesco fiasco de As Portas do Céu (1980).
Para além da realização vertiginosa de Cimino, O Ano do Dragão confirmava Mickey Rourke como o ator mais interessante da década de 80, entregando-se de corpo e alma a uma interpretação eletrizante. Naquela altura, corria o rumor de que ele seria o próximo 007. Era isso mesmo, um rumor, nada mais. Rourke não tinha paciência para Hollywood e gostava pouco de realizadores, tendo posteriormente rejeitado papéis em filmes que poderiam ter dado um rumo diferente à sua carreira e à sua tumultuosa vida pessoal. No entanto, Cimino era um dos poucos eleitos e viria a trabalhar com ele, cinco anos depois, no thriller visceral "A Noite do Desespero". A aura de cineasta maldito talvez tenha contribuído para a química e a comunicação entre o realizador e o ator.
O Ano do Dragão era uma espécie de regresso às personagens de O Caçador (Cimino, 1978). Nele, Mickey Rourke é Stanley White, veterano da guerra do Vietname, agora chefe da polícia de Chinatown determinado a combater a máfia chinesa que domina o tráfico de droga naquele bairro nova-iorquino. White é arrogante, racista e tendencialmente niilista, o que contribuiu muito para as acusações movidas por grande parte da crítica de que o argumento de Oliver Stone seria profundamente racista e Cimino um republicano xenófobo a ajustar contas com o passado (nomeadamente, a derrota humilhante sofrida pelos EUA no Vitename). Visão redutora, e até deturpada, acerca de um filme em torno de um anti-herói incorruptível, determinado a fazer justiça, qual xerife de um western clássico (com John Ford à cabeça). Em boa verdade, Rourke provava que podia ser um ator maior que a vida, uma interessante combinação entre John Wayne e Marlon Brando (de resto, chegou a ser caracterizado por boa parte da imprensa como "o novo Marlon Brando"). Arriscaria mesmo considerar O Ano do Dragão como o maior filme policial da década de 80.
Michael Cimino lega-nos uma obra pequena em número - assinou apenas 7 películas -, mas fica a sensação de que, independentemente das vicissitudes da sua carreira (e foram muitas!), realizou os filmes com total liberdade artística, deixando uma marca pessoal indelével em todos. Talvez tenha chegado a altura dos historiadores e críticos de cinema reavaliarem parte da sua obra cinematográfica (a começar precisamente por O Ano do Dragão) e não celebrar apenas O Caçador e As Portas do Céu. Cimino foi mais do que estes dois filmes, talvez o maior discípulo de Orson Welles - na visão, no solipsismo e (por que não?) na megalomania. Ou, como ele gostaria de ser recordado: "Cimino - um cineasta individualista".
Ludovico Einaudi estreou uma nova música, Elegy For The Artic", enquanto flutuava em cima de um icebergue improvisado e, à sua frente, um glaciar derretia. O espetáculo foi integrado numa campanha da Greenpeace, com o objetivo de chamar a atenção do mundo para o recuo da superfície gelada do oceano Ártico, cada vez mais vulnerável devido à pesca e à exploração de petróleo.
The Floating Piers é uma instalação do artista búlgaro Christo, constituída por 200 mil cubos flutuantes, que, ao longo de 3 quilómetros sobre o Lago Iseo, liga a cidade de Sulzano à ilha Monte Isola (no norte de Itália). Este pontão flutuante pode ser percorrido até amanhã, dia 3 de julho.
Quinto 007 interpretado por Daniel Craig. Segundo filme da série sob o olhar pretensamente negro e denso de Sam Mendes. Tentativa de recapitalização da humanização do agente secreto operada em Skyfall.
O problema é que Daniel Craig, no seu corpo danone, nunca nos convence de que é um agente ao serviço de sua majestade; sob o seu olhar gélido, a intimidade nunca chega à alma, ficando apenas à flor da pele. Como diz o meu filho, Craig parece-se demasiado com o estereótipo de um elemento da máfia russa.
Por sua vez, Sam Mendes anda a ganhar a vida. Faz bem. Por si, mas não pela sétima arte.
O episódio VII da saga Star Wars traz a assinatura de J. J. Abrams, cineasta herdeiro de Spielberg e Lucas. Escolha óbvia e acertada, portanto.
O filme foi fabricado nos estúdios da Disney e recupera o espírito aventureiro, romântico e despretensioso do primeiro tomo da série (na verdade, o episódio IV), dirigido em 1977 por George Lucas.
É comovente assistir ao reencontro entre Han Solo (Harrison Ford) e a Princesa Leia (Carrie Fisher), que torna também este novo opus numa rara oportunidade para apreciar um breve tratado sobre o tempo, made in Hollywood.
Há cineastas que aprendem a reforçar o seu estatuto de clássicos à medida que os anos passam. Steven Spielberg talvez seja o mais sublime e coerente da geração dos movie brats, o clássico dos clássicos, o verdadeiro herdeiro de John Ford (Lincoln, O Cavalo de Ferro), Howard Hawks (Sempre, O Resgate do Soldado Ryan), King Vidor (A Cor Púrpura, Terminal de Aeroporto) ou Vincente Minnelli (ET, Hook).
Veja-se A Ponte dos Espiões, drama profundamente humano em tempos de Guerra Fria, com o Muro de Berlim a ser edificado, para se constatar a discreta mestria de um cineastia que preza cada vez mais os silêncios e os atores. Tom Hanks torna-se o mais spilbergiano dos atores: um homem bom a fintar os determinismos da História. Uma obra-prima.
Filme digno em torno da luta das mulheres pelo direito ao voto, no início do século XX. Realização segura de Sarah Gavron e interpretação superlativa de Carey Mulligan. Não ganhou o Oscar de melhor atriz, nem sequer esteve nomeada, mas merecia.
Mr. Robot é uma montanha-russa. Uma série que prende tanto como confunde o espectador. Criada por Sam Esmail, que pensou em Mr. Robot como um filme, mas que depressa percebeu que tinha páginas a mais para o tempo de uma longa-metragem, a série conta a história de Elliot Alderson, um engenheiro especialista em segurança informática que vive uma vida dupla, tão sufocante como alucinante: durante o dia, trabalha numa grande empresa de segurança cibernética em Nova Iorque; à noite, faz o oposto: não protege quaisquer redes, mas corrompe-as, fazendo parecer fácil o que não é. Elliot é um hacker, consegue entrar em tudo: computadores, smartphones, emails, redes sociais, contas bancárias. É isto que faz e é nisto que é bom. Esta é, aliás, a única forma de saber mais sobre pessoas que o rodeiam. Ele, que sofre de distúrbio de ansiedade social, não é muito bom nas relações interpessoais e o computador é a forma de conhecer quem de si se aproxima. Não é eticamente correto, mas é a única forma de conseguir alguma intimidade com o outro.
Elliot pode muito bem ser o herói do século XXI: tem uma causa maior, a mudança de um sistema financeiro e político viciado, ao mesmo tempo que vai fazendo justiça com pequenos casos aqui e ali. Descobre, por exemplo, que o dono de um restaurante onde se ligou à Internet através de wi-fi é pedófilo, fazendo chegar à polícia as provas que o incriminam. Mas, outras vezes, vasculhar a vida dos outros é a sua forma de se encaixar no mundo, e isso faz de Elliot um anti-herói. Até porque nem sempre sabemos quais as suas reais intenções. Desde logo, com o seu ódio à multinacional E Corp (Evil Corp, para Elliot), que o rapaz culpa pela leucemia que matou o seu pai. Ora, é quando Elliot é contactado por um homem misterioso, que se autointitula de Mr. Robot, que tudo fica mais confuso. Mr. Robot quer Elliot no seu grupo secreto, o fsociety, para que juntos possam abalar o sistema, chegar aos 1% dos 1%. Como? Começando desde logo por atacar a E Corp e fazer desaparecer as dívidas de toda a gente.
Em Mr. Robot, nunca nada é bem o que parece. Tal como na vida real.
Na altura em que se assinala os seus 70 anos, que comemorou oficialmente em 24 de outubro, a ONU lançou um roteiro para um mundo perfeito. Tem 17 objetivos, 169 metas para o desenvolvimento sustentável e é uma espécie de guia utópico para mitigar as imperfeições universais.
Um mundo sem fome, guerras, corrupção, discriminação? Tiranos, guerreiros ou corruptos votaram por ele. Desde que não os obriguem a confundir desejos e realidades. Já foi, e ainda assim é, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948: "Todo o ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal"; "Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado". Desejos louváveis, não realidades!
Que a ONU os aprove e deles faça guia, compreende-se e aplaude-se. Mas era preferível que os seus membros começassem a olhar seriamente para os seus atos e a corrigir o que neles torna nulo o efeito de tais palavras. Seria uma melhor celebração, com tal começo.
Um professor de Filosofia a deambular por entre as malhas do existencialismo, encontrando apenas o vazio no absurdo da existência, descobre novo alento na perspetiva de um crime que o posiciona para além do bem e do mal, qual Nietzsche renascido para a tentativa de se tornar super-homem.
Podemos sintetizar assim o argumento do novo filme de câmara de Woody Allen. Muito se tem questionado acerca da (in)utilidade de alguma da filmografia mais recente do autor nova-iorquino, parecendo até que algum prazer há em desvalorizar e zurzir películas como Homem Iracional. No entanto, compare-se esta obra com a maioria das fitas-pipoca que têm invadido as salas de cinema nos últimos vinte anos; compare-se também com outros filmes de Allen (A Maldição do Escorpião de Jade, Vigaristas de Bairro, Vicky Cristina Barcelona ou Magia ao Luar); de seguida, analise-se Homem Irracional como pièce de résistance singular na obra de um artista cuja curadoria e conservação dificilmente encontrará, um dia, alguém à altura.
Está lá o jazz (insistência em The in-crowd), o protagonista deprimido (Joaquin Phoenix num registo inusual no universo de Allen), a jovem idealista (reencontro de Allen com Emma Stone), a caução literária (Dostoievski, pois claro!) e a reflexão ética (com direito a aulas de Filosofia e tudo!). Com olhar sábio e mão de mestre. Um dos grandes filmes do outono passado.