Regresso do velho Woody Allen à sua melhor forma, A Roda Gigante figurará, com certeza, entre os seus melhores filmes. Como sempre, Allen revela-se um mestre na arte de dirigir atores, levando-os ao limite das suas competências. Kate Winslet está em estado de graça (na pele de uma espécie de Blanche DuBois); Justin Timberlake nunca foi tão bom ator quanto aqui; e descobre-se um grande Jim Belushi. Menções honrosas também para a fotografia de Vittorio Storaro e para o argumento do próprio Allen. Uma obra-prima.
Ideias, opiniões, gostos, prazeres, fruições, sensibilidades e rotinas serão aqui registadas.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
quinta-feira, 19 de julho de 2018
"Prantos, amores e outros desvarios" - pérolas sob a forma de short stories
Quando há dois ou três anos li Passagens fiquei arrebatado. Isto acontece-nos pontualmente na vida enquanto procuramos a Beleza - e onde encontrá-la senão na Arte? Acontece quando escutamos um disco que nos enche a alma, quando vemos um filme que nos eleva os sentidos e a razão em toda a plenitude, quando contemplamos um quadro sublime, quando assistimos àquela peça de teatro e a um certo espetáculo de dança ou quando, por entre tantos outros, concluímos a leitura de um certo livro e descobrimos que é por isto que a literatura continua a valer a pena e que o ofício da escrita deveria estar reservado apenas a alguns (brilhantes) artesãos. Como Teolinda Gersão. Brilhante escritora, com um percurso académico distinto e importantes prémios literários conquistados.
Vem isto a propósito de um dos grandes livros que deram à estampa em 2017 - Prantos, amores e outros desvarios. Nele se reúnem contos bem diversos e um refinado pequeno ensaio sobre futebol (Jogo Bravo). Teolinda Gersão consegue a proeza de experimentar diversos géneros literários sem perder identidade e sempre com a qualidade dos grandes romancistas.
Regresso ao ponto de partida desta humilde recensão (onde encontrar a beleza senão na Arte?), destacando o conto que encerra o livro (e também o mais extenso), Alice in thunderland, sobre a génese do clássico infanto-juvenil de Lewis Carroll na perspetiva da sua protagonista, a Alice real, que terá ficado para sempre - e tragicamente - fechada dentro daquele livro feito país das maravilhas. Leiam Prantos, amores e outros desvarios para saber porquê.
quarta-feira, 18 de julho de 2018
"Star Trek: Além do Universo" - anódino entretenimento de Justin Lin
De Justin Lin provavelmente não se pedia mais do que continuar a olear o franchising de sucesso (sobretudo, nos EUA), Star Trek, que já fatura há cerca de seis décadas, mas o que se assistie em Star Trek: Além do Universo é um produto confrangedor, construído a partir de um argumento (co-assinado por Simon Pegg!) que em nada dignifica a mítica série de ficção.
terça-feira, 17 de julho de 2018
"Ronda das mil belas em frol" - Exortação ao erotismo
Mário de Carvalho é um mestre da arte do conto e confirma-o, uma vez mais, no livro Ronda das mil belas em frol, acervo conceptual de histórias curtas, mas nem por isso menores na sua importância ou na qualidade estética.
Mário de Carvalho domina e manipula a língua portuguesa em todo o esplendor, traçando naquela obra um retrato implacável, belo, assumidamente libidinoso e despudorado de encontros sexuais furtivos, passageiros e, por vezes, perversos.
Os contos ali reunidos são uma exortação, simultaneamente erógena e poética, à sexualidade hedonista escrita com a classe de um grande autor.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
"Sing Street" - Regresso à adolescência
De vez em quando surge um filme assim, capaz de nos fazer regressar à adolescência de forma tão certeira. John Carney, que já nos tinha embalado em melancolia musical feita cinema (Once e Begin Again), volta a fazê-lo, agora sob a forma de saudade dos sonhos adolescentes, em Sing Street.
O filme tem a força de um virtual teletransporte, como se de uma máquina do tempo se tratasse. É certo que Sing Street tem as suas limitações, mormente no que concerne às personagens, que nunca são aprofundadas - embora suponha que tal esquematização seja intencional. O objetivo é mesmo conduzir-nos, desde o início, até 1985 e à adolescência urbana em Dublin.
Gostar deste filme é não nos esquecermos de que, de algum modo, nós, adultos, também já fomos aqueles adolescentes. Pessoalmente, assisti à película como se estivesse, de facto, em meados da década de 80, com a mesma idade que o protagonista, a mesma relação com a escola, os mesmos colegas e amigos, os mesmos pais ausentes, o mesmo irmão, a mesma miúda por quem estava apaixonado e os mesmos sonhos.
Depois, ainda há a música pop - verdadeira e assumida homenagem a bandas como Duran Duran, The Cure, a-ha, The Jam ou a músicos como Joe Jackson. O Top of the pops da TV britânica podia ser o nosso Top+. Excelente!
domingo, 15 de julho de 2018
"Alien: Covenant" - Dos deuses e dos homens
O 2º tomo da prequela da saga Alien vem de novo assinada pelo mestre Ridley Scott, afirmando-se como o episódio mais profundo da série ao refletir sobre o poder e os riscos da ciência.
Alien: Covenant começa de forma desconcertante, recuando aos preparativos para a expedição Prometheus (título do filme anterior) num diálogo de contorno metafísico travado entre o andróide David e o seu criador, Peter Weyland. Daqui, saltamos para a expedição da nave colonizadora, Covenant, no ano de 2104. O objetivo é chegar ao planeta Origae-6 e testar o seu potencial para a adaptação e sobrevivência da espécie humana. Mas uma transmissão de rádio intercetada num planeta próximo altera os planos da viagem e encaminha a tripulação para um destino trágico.
Michael Fassbender é brilhante na ambiguidade a que remete o espectador ao fundir as duas personagens que interpreta de forma superlativa (os andróides David e Walter). Todavia, o trunfo do filme é mesmo a realização certeira de Ridley Scott, que nunca cede a efeitos fáceis (e tão constantes na cinematografia sci-fi hodierna), dando espaço ao desenvolvimento das personagens e tempo aos planos geometricamente desenhados.
Fica também a reflexão filosófica sobre o destino da espécie humana e a sua substituição por um Deus ex machina.
sábado, 14 de julho de 2018
Estado do Mundo (46) - A ética não preocupa os "millennials"
De acordo com um estudo da EY, Fraud Survey 2017, que inquiriu 4100 pessoas em 41 países, a geração Y (adultos entre os 25 e os 34 anos), comummente designada por millennials, justifica a falta de ética como forma de ajudar o negócio a sobreviver ou como meio de aumentar os seus próprios benefícios.
E ainda há quem considere aquela geração como a mais bem formada de sempre?
sábado, 21 de outubro de 2017
Estado do Mundo (45) - Era uma vez a Antártida
A Antártida sofreu, em 2016, uma redução drástica do gelo marinho. O A68, um icebergue com 1155 quilómetros cúbicos, 190 metros de altura e 200 metros de profundidade, desprendeu-se da plataforma Larsen C, na Península Antártica. A principal preocupação dos cientistas é, agora, o futuro daquela plataforma, uma vez que o desprendimento do icebergue a deixou ainda mais instável.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Estado do Mundo (44) - Ir à escola ou fugir da guerra?
"As zonas onde há escolas não devem ser zonas de guerra”. “Hoje, ter de se esconder não devia fazer parte dos trabalhos de casa”. “Evitar as minas terrestres não devia ser uma actividade extracurricular”. Foi com frases como estas estampadas em 27 autocarros escolares que a UNICEF guiou uma campanha pelas ruas de Manhattan, nos Estados Unidos, a 17 de Setembro. Os autocarros circularam vazios, em fila, uma metáfora para os “27 milhões de crianças que vivem em zonas de conflito e que não frequentam a escola”, disse o órgão das Nações Unidas, em comunicado. O objectivo era chamar a atenção para casos como o da menina do Sudão do Sul, neste vídeo, e da principal condutora da campanha — Muzoon Almellehan, de 19 anos, Embaixadora de Boa Vontade da UNICEF, que em plena semana de Assembleia Geral das Nações Unidas pede “aos líderes mundiais que priorizem a educação em situações de emergência”. "A educação nunca pode ser vista como opcional, especialmente em situações de crise. Sem aprender, como podemos esperar que as crianças venham a ser tudo aquilo que têm capacidade para ser? Não podemos desistir, há que continuar até termos um mundo onde todas as crianças vão à escola", disse a activista que em 2013 foi obrigada a abandonar a escola para fugir da guerra que rebentava na Síria. O Fundo das Nações Unidas para a Infância diz que, no primeiro semestre deste ano, recebeu apenas “12 por cento do financiamento necessário para proporcionar educação às crianças que vivem em situações de crise”.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Banda sonora para o verão (45) - Lana Del Rey: "Lust For Life"
O percurso de Lana Del Rey tem sido o da afirmação crescente de uma maturidade artística rara na pop do século XXI. Lust For Life é já o seu 4º álbum concetual, e faz prova da coerência estética e do talento narrativo da cantora e compositora norte-americana. A sua música evoca paisagens californianas, a memória de verões passados, romances de Kerouac, Hemingway, Pynchon e Mailer, retalhos do cinema noir clássico e de uma certa atmosfera lynchiana. Além disso, Lust For Life contém 13 Beaches, a melhor canção deste verão.
domingo, 10 de setembro de 2017
350 mil pessoas passaram pelo novo Teatro Municipal do Porto
Rui Moreira pensou na Cultura como elemento
estruturador da identidade do Porto. Não há em qualquer outra cidade do
País um projeto cultural com a qualidade da Programação apresentada por
Rui Moreira e Tiago Guedes, no dia 6 de setembro no Teatro Municipal
Rivoli.
sábado, 9 de setembro de 2017
Banda sonora para o verão (44) - Roger Waters: "Is This The Life We Really Want?"
O novo álbum de originais de Roger Waters, maestro dos álbuns mais inspirados e inspiradores dos históricos Pink Floyd, é apenas o 4º LP a solo num percurso iniciado já há 33 anos com The Pros and Cons of Hitch Hiking. Compreende-se porquê. Waters é um perfecionista, criador de discos operáticos, concetuais, políticos, pensados ao milímetro, e precisa do apelo do real para justificar a urgência de um novo disco. Este conturbado início de século e, mormente, a eleição de Donald Trump constituíram razões mais do que suficientes para o músico reunir um conjunto de composições que foi criando a partir de poemas que escreveu nos últimos 20 anos.
Déjà Vu, The Most Beautiful Girl, Wait For Her, Part of Me Died ou o tema-título são canções delicadas que figurarão, indubitavelmente, no melhor cancioneiro que viu a luz do dia no ano da graça de 2017.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
"Kubo e as Duas Cordas" - Primeiro filme de Travis Knight
Uma excelente surpresa da Laika Entertainment, o estúdio de animação em stop motion responsável por filmes como Coraline e a Porta Secreta ou Paranorman.
Kubo e as Duas Cordas situa a sua ação no Japão antigo, narrando a odisseia do jovem Kubo que, para sobreviver a um ataque de deuses e monstros sob as ordens do avô, procura a lendária armadura usada pelo seu pai, um samurai caído em desgraça devido a um amor proibido.
O filme é bom e marca a estreia na realização de Travis Knight, que consegue a proeza, cada vez mais rara no cinema de animação, de criar um objeto que não idiotiza as crianças, evitando estereótipos e afirmando-se como obra singular no seu contexto de produção.
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
Estado do Mundo (43) - O comunismo no mundo (1)
A Coreia do Norte fez mais um teste nuclear, ameaçando o mundo ao informar que a bomba pode ser colocada num míssil balístico intercontinental.
Por cá, Jerónimo de Sousa, no discurso de encerramento da Festa do Avante, culpou o imperialismo norte-americano pelos devaneios do líder de Pyongyang.
domingo, 3 de setembro de 2017
Banda sonora para o verão (44) - "Purple Rain", obra seminal de Prince
Candidato a reedição do ano, o disco Purple Rain do saudoso Prince inaugura a tão aguardada série de reposições da obra do malogrado génio de Minneapolis, pretexto para a reorganização do impressionante acervo sonoro legado pelo compositor.
Para além da redescoberta de um LP gravado numa época - os anos 80 do século XX - em que os álbuns eram pensados ao milímetro e com princípio, meio e fim, a nova edição de Purple Rain vai ao baú de Prince para democratizar canções que não foram incluídas no disco de 1984. Entre elas, o destaque recai em Our Destiny/Roadhouse Garden e 17 Days.
Soul, funk, r'n'b e rock progressivo misturados pela visão criativa de Prince, Purple Rain é tudo isso e muito mais.
sábado, 2 de setembro de 2017
"O Dia da Independência: Nova Ameaça" - mais uma fita inane de Roland Emmerich
O Dia da Independência: Nova Ameaça é a sequela, 20 anos depois, do blockbuster da década de 90, com o mesmo título introdutório. A razão que levou Roland Emmerich a tomar em mãos tal empreitada só pode residir nos cifrões, como, de resto, quase toda a filmografia do realizador alemão.
Que saudades de Lua 44 (1990), a esquecida fita série B de ficção científica protagonizada pelo não menos esquecido Michael Paré.
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