
Compositor, realizador, escritor, produtor, actor - autor, diria eu -, são inúmeras as qualidades e talentos de Alejandro Amenábar. Nascido em 1972, no Chile, desde cedo iniciou os seus trabalhos no mundo da sétima arte (tinha apenas 23 anos quando realizou "Tese", o seu primeiro filme como realizador). A sua última obra, "Ágora", é um drama de época, cuja acção se situa em Alexandria, no século IV d.C.. Mas o que à partida pareceria uma épico trágico, resulta no seu contrário, a saber: um anti-épico intimista, existencialista e metafísico acerca de Hypatia, filósofa, matemática e astrónoma, que sempre privilegiou a sua dignidade de pessoa livre, numa época em que era dado pouco crédito ao pensamento feminino.
Por entre tumultos religiosos que assolavam as ruas de Alexandria (pagãos, judeus e cristãos reclamavam para si a posse da verdade), Hypatia faz da busca incessante do saber a sua vida, procurando proteger da destruição os manuscritos guardados na biblioteca de Alexandria, os quais representavam a sabedoria da Época Clássica. Filha de Theon, o último director da histórica biblioteca, fez da sua vida uma lenda que perdura até aos dias de hoje, pela sua inteligência e dedicação ao trabalho, mas, acima de tudo, por ser uma mulher num mundo de homens, o que não a impediu de alcançar uma posição de destaque na vida política da cidade.
Todavia, "Ágora" é também a história da queda do Império Romano e do fim de uma civilização; uma viagem no espaço e no tempo, constituindo uma das mais ambiciosas produções cinematográficas europeias de todos os tempos. Amenábar coloca em confronto querelas religiosas e científicas, reflectindo acerca da indiferença de Deus e do Universo perante a mesquinhez e ignorância humanas. O espírito filosófico de Hypatia é aqui confrontado com a vocação dogmática da Igreja. Num fabuloso diálogo entre Hypatia e um Bispo (seu antigo pupilo), à exigência do clérigo em que a filósofa se baptize (caso contrário, devido à defesa do heliocentrismo será condenada por heresia), esta responde do seguinte modo: "As tuas crenças impedem-te de questionar a Verdade; eu devo". Ora, é esta busca incessante da Verdade - e nunca a sua posse - que caracteriza a autêntica atitude filosófica, por oposição ao fervoroso dogmatismo da Religião (Judeus e Cristãos não são poupados pelo olhar crítico e amargo de Amenábar).
Obra grandiloquente, exige alguma disponibilidade do espectador ao privilegiar a reflexão filosófica e ao descentrar-se dos cenários e paisagens. Afinal, a Terra é apenas um planeta num universo de forma e extensão indefinidas.
Uma última nota para a sublime interpretação de Rachel Weisz, que agarra a personagem principal do primeiro ao último fotograma.
Trailer de "Ágora", de Alejandro Amenábar
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