"Hereafter" centra-se nas vidas de três personagens interligadas pela morte: uma jornalista francesa que quase morreu no tsunami no Índico, em 2004; uma criança londrina cujo irmão gémeo morreu atropelado; um operário norte-americano que já trabalhou como vidente. Cada um busca incessantemente a verdade, tocados pelo mistério do que vem depois da morte e as suas vidas acabam inevitavelmente por se intersectar.
Não se julgue que Eastwood dê ênfase a qualquer forma de exploração gratuita do tema vida depois da morte, tão caro a Hollywood, em geral, e ao cinema fantástico, em particular. Muitos foram os cineastas que procuraram abordar o tema, caindo nos rodriguinhos e floreados do costume, para impressionar almas demasiado simples e o medo inconsciente da morte. Não, não vemos aqui as habituais visões new age pseudo-espiritualistas do além, pelo que o filme dificilmente agradará aos leitores de Paulo Coelho. "Hereafter", pelo contrário, reflecte sobre: i) a possibilidade de alguma forma de vida se perpetuar após a morte; ii) a procura individual de um sentido para a vida; iii) a fragilidade da vida; iv) a imprevisibilidade da morte; v) a aceitação da morte enquanto forma sábia de encarar a vida; vi) o amor como única possibilidade redentora.
Construir um filme assim com uma tema tão caro a tantos realizadores, tão desaconselhável em quem quer empreender a aventura da Sétima Arte, só foi possível graças à mão artística de Clint Eastwood, talvez o maior cineasta vivo.

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