terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Banda sonora para o Inverno (2)


Continuando a celebrar a estação que acaba de entrar (e de forma tempestuosa!), nada como um disco de Natal à moda antiga. Trata-se de "Christmas In The Heart", de Bob Dylan. Neste álbum o mítico trovador canta o Advento com a sua voz gasta e anasalada, conferindo uma magia folk aos standards que reinterpreta com garra e vontade de abordar o Natal de forma pagã e festiva.

"Christmas In The Heart" é o CD ideal para cantar e dançar junto à lareira, e, apesar do tom despretensioso (as vendas revertem inteiramente para duas organizações de combate à fome - a World Food Program e a Crisis), integra-se com pleno direito na discografia de Dylan. "Winter Wonderland", Here Comes Santa Claus" ou a desvairada "Must Be Santa" são acompanhadas por steel guitar, mandolins, harmónicas e coros gospel-folk, em orgiástica consoada panteísta.

Um bonito presente de Natal.

"Must Be Santa" - Bob Dylan

domingo, 20 de dezembro de 2009

Banda sonora para o Inverno (1)


Para assinalar a chegada do Inverno, nada melhor que ouvir repetidamente o novo disco de Sting - "If On A Winter's Night". Disco sobre a estação fria, é resultado de uma viagem reflexiva por séculos de música clássica, folk popular, canções de embalar, música sacra e profana que têm como tema o imaginário de Inverno. Só não surpreende, uma vez que já há muito que Sting se tem destacado como um músico heterodoxo, paradigma da harmonia entre música clássica, jazz e Beatles (ouça-se o anterior "Songs From The Labyrinth", sob o signo do compositor elizabetiano John Dowland).

É um disco repleto de fantasmas a vaguear nas florestas ("Hurdy Gurdy Man"), navios encalhados em bancos de nevoeiro ("Christmas at Sea"), anunciações divinas ("Gabriel's Message"), mendigos a sonhar com a ceia de Natal ("Soul Cake") em pleno solstício de Inverno ("Cold Song"), crianças ansiosas pela chegada do Pai Natal ("Lullaby For An Anxious Child"), numa viagem até aos primeiros raios de Sol da Primavera ("The Snow It Melts The Soonest").

Sting é um músico com provas dadas ao longo de trinta anos de carreira, dando-se agora ao luxo de compor, cantar e gravar a música que quer e gosta. Embarque-se nesta quente viagem pelos nevões de Inverno. É garantidamente uma excelente audição em dias de Advento.

"If On A Winter's Night" - Sting

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

"O Corpo da Mentira" - a guerra contra o terrorismo, por Ridley Scott


Baseado no livro de David Ignatius, "O Corpo da Mentira" marca o regresso de Ridley Scott aos grandes temas da actualidade. Neste caso, trata-se do tema do combate ao terrorismo sob o signo do cinema engajado na denúncia à ausência de ideologia na política externa americana. Nele cruzam-se os principais focos de uma guerra silenciosa sem fim à vista, ao ritmo de uma partitura visual orwelliana (o Big Brother, ou a CIA, está sempre a vigiar os passos do protagonista).

Leonardo DiCaprio (sempre no registo certo) interpreta o papel de um agente da CIA a procurar infiltrar-se numa célula terrorista, mas acaba desgastado e corroído pela engrenagem política, sentindo-se uma marioneta manipulada por agentes com comandos à distância. Russell Crowe assume o personagem de um espião burocrata que dirige as pessoas como peões de um jogo de guerra (graças às tecnologias de comunicação digital): vê, decide e ordena confortavelmente sentado em sua casa, enquanto toma o pequeno-almoço ou leva os filhos à escola, acreditando que os meios justificam sempre os fins.

Ridley Scott filma com garra um mundo instrumentalizado por lobbys, terrosristas, mafiosos, traficantes e políticos desonestos, onde os grandes ideais dão afinal lugar ao cinismo mais exacerbado, não havendo espaço para o amor.

Trailer de "O Corpo da Mentira", de Ridley Scott

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cimeira de Copenhaga (3) - luxos pouco ecológicos


Nas estradas da capital dinamarquesa andam, em média, 12 limusinas por dia. Em período de cimeiraJustificar completamente com o objectivo de conter a emissão de CO2 para a atmosfera, os chefes de estado não poupam em euros nem em emissões. Majken Friss Jorgensen estima que, desde o dia 7 deste mês, circulem nas estradas de Copenhaga mais 1200 carros de luxo para transportar os líderes dos 196 Estados que participam nos trabalhos.

Mas nem só nos carros se vislumbram os excessos pouco amigos do ambiente. No primeiro dia da cimeira, aterraram 140 jactos privados em Copenhaga!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Banda sonora para o Outono (11)


Qualquer dia alguém tem que erigir uma obra que reavalie a discografia de Tori Amos. Como é possível passarmos ao lado de tão dotada compositora? O seu novo disco - "Midwinter Graces" - é um ilustre exemplo das suas qualidades como instrumentista, cantora e letrista. Álbum conceptual que, à semelhança de "If On A Winter's Night" de Sting (sobre o qual brevemente colocarei aqui um texto crítico), de forma sublime canta o Inverno como só os grandes poetas conseguem.

Pela voz cristalina de Tori Amos em "Winter's Carol" sentimos a noite de Natal junto à lareira mais quente da casa mais fria dos romances de Charles Dickens; ouça-se "A Silent Night With You" e respire-se os três meses de Inverno; o ar inspirado e expirado pelas narinas num fim de tarde com dois graus abaixo de zero está todo em "Snow Angel"; contemple-se um plano fixo com neve a cair sobre os cedros ao som de "Emmanuel" ou antecipe-se a melancolia de Ano Novo em "Our New Year"; há uma luz que brilha em dias cinzentos ("Pink and Glitter") e uma genuína esperança no futuro ("Harps of Gold").

É banda sonora de Outono a anunciar o Inverno frio que se aproxima.

"A Silent Night With You" - Tori Amos

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Estado da Nação (17)


"O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.

O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.

Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.

O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir, violar e roubar.

E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.

Ou nós, ou o palhaço."
Mário Crespo, Jornal de Notícias

domingo, 13 de dezembro de 2009

Estado da Nação (16)


"Moranguizámos as nossas crianças e o resultado é assustador."
Alice Vieira, 24 horas

Estado da Nação (15)


"Aumentar os impostos é um convite às empresas e às pessoas para saírem do País."
Soares Santos, Diário Económico

sábado, 12 de dezembro de 2009

Estado da Nação (14)


"Violar o segredo de justiça pode ser injusto para os inocentes. Mas não violar pode tornar tudo ainda mais fácil para os culpados."
João Miguel Tavares, Diário de Notícias

Estado da Nação (13)


"O exercício de funções políticas, antes uma honrosa forma de dedicação à causa pública, é hoje um reduto, salvo honrosas excepções, dos que mais não têm ou não sabem que fazer."
Rita Marques Guedes, Diário Económico

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

"Artur e a Vingança de Maltazard" - Besson por Besson


À semelhança de Robert Zemeckis, sobre quem ainda há três semanas registei aqui um texto a propósito do seu último filme ("Um Conto de Natal"), Luc Besson parece ter enveredado definitivamente pelos caminhos do cinema de animação, uma vez que acaba de estrear a sequela de "Artur e os Minimeus" (adaptação de um romance infanto-juvenil escrito pelo próprio Besson). Aliás, o cineasta francês, que chegou a afirmar que não voltaria a filmar depois daquela película, volta a surpreender-nos com "Artur e a Vingança de Maltazard", apostando, uma vez mais, nos efeitos especiais que conjugam a animação digital com cenários reais (encontrando-se aqui mais uma aproximação ao universo gráfico de Zemeckis).

Desta vez, Artur anseia pelo 10º ciclo lunar para voltar a ver Selénia e a terra dos Minimeus, onde o aguarda um fausto banquete. No entanto, o pai do herói resolve abreviar o seu período de férias em casa da avó. Quando está prestes a partir, Artur recebe um pedido de socorro escrito num bago de arroz entregue por uma aranha. Pensando ser um apelo de Selénia, o nosso herói não pensa duas vezes e regressa à terra dos Minimeus, sob a forma de duende, percorrendo um caminho cheio de perigos (aranhas peludas, sapos ameaçadores, ratazanas malvadas...). Todavia, Artur acabará por descobrir que o pedido de ajuda foi feito por alguém cujo único propósito terá sido atraí-lo para uma armadilha.

Tal como a prequela deste filme, "Artur e a Vingança de Maltazard" assume-se como uma fábula ecológica que pretende passar a sua mensagem a todos os públicos, destacando-se nesta segunda parte a tentativa de cativar o público adolescente que, à imagem e semelhança de Freddie Highmore (actor que interpreta o papel do Artur de carne e osso), cresceu desde o filme anterior. Deste modo, os personagens surgem com uma atitude mais cool e um visual mais teen. Nada de errado na estratégia, o cinema é uma arte cara e é importante saber vendê-la. Luc Besson sabe, melhor que ninguém, como comercializar um filme e sempre conseguiu competir mano a mano com a indústria de Hollywood. Convém relembrar que "Artur e os Minimeus" - o filme anterior - facturou cerca de 113 milhões de dólares nas bilheteiras e só em França vendeu um milhão e meio de DVD. Não mata saudades, claro, das obras-primas da primeira fase do realizador ("Subterrâneo", "Vertigem Azul", "Nikita - Dura de Matar", "Léon, o Profissional", "O Quinto Elemento" e "Joana D'Arc" já fazem parte do imaginário cinematográfico popular, sendo obras incontornáveis em qualquer análise do cinema europeu dos últimos 20 anos), mas é um bom entretenimento para toda a família.

Ficamos a aguardar a terceira parte da saga - "Artur e a Guerra dos Dois Mundos" -, que irá estrear somente daqui a um ano, mas foi rodado em simultâneo com "Artur e a Vingança de Maltazard" de modo a evitar diferenças na aparência física do actor Freddie Highmore.

Trailer de "Artur e a Vingança de Maltazard", de Luc Besson

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Banda sonora para o Outono (10)


Eis que uma ou duas vezes por década surge um projecto pop-rock fascinante. Foi assim nos anos 80 com "Boy" dos U2, "Rattlesnakes" de Lloyd Cole and The Commotions; nos anos 90 com "Pablo Honey" dos Radiohead, "Grace" de Jeff Buckley; e, já nesta década, com o lindíssimo "Parachutes" dos Coldplay, e este ano, com "xx", álbum homónimo dos xx.

xx são uma banda londrina liderada por Oliver Sim, cujas influências musicais passam por Pixies e The Cure, materializando-se em guitarras em espiral, silêncios tocantes e vozes de embalar. Além das bandas mencionadas, na primeira audição pensei nos Hugo Largo do álbum "Drum", mas também em Durutti Column (ouça-se "Sex and Death", disco de 1990).

Disco minimalista, "xx" seduz-nos logo aos primeiros acordes ("Intro", lindíssimo e outonal tema instrumental), tornando-se viciante ao longo das suas 11 músicas. Trata-se de um sério candidato a melhor disco do ano ("Let's Change The World With Music" dos Prefab Sprout é, no entanto, claramente superior), ideal para ouvir em fins de tarde nestes últimos dias de Outono.

"Crystalised" - xx

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Banda sonora para o Outono (9)


Quando em 1982 Francis Ford Coppola assinou, com "Do Fundo do Coração", o seu filme maior de entre as suas muitas obras-primas, o universo da música cresceu também com um disco que ficou para a História desta Arte: trata-se de "One From The Heart", totalmente constituído por canções escritas por Tom Waits e cantadas em parceria com uma inspirada Crystal Gayle.

"One From The Heart" parece ter sido composto sob o poder de uma iluminação divina, tendo hoje o seu lugar garantido, único e insubstituível no Olimpo da arte sem formas. São texturas sonoras jazzísticas, dominadas pelas vozes de Waits e Gayle, acompanhadas por arranjos orquestrais de uma subtileza transcendente. Não é um disco criado na terra, tal é a elevação de sentimentos que ele proporciona. Além disso, nunca o Amor romântico foi interpretado desta forma, nem antes nem depois.

Eleger um tema preferido é tarefa hercúlea, mas tratando-se da presente etiqueta (Banda sonora para o Outono) selecciono a mais bela canção de Outono (apesar de aqui se tratar do advento dessa estação, em Setembro) - "Broken Bicycles". Não hesito afirmar que o mundo dos melómanos divide-se em dois: aqueles que amam "One From The Heart" (e, já agora, os restantes álbuns de Tom Waits) e aqueles que nunca escutaram o disco.

"Broken Bicycles" - Tom Waits

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cimeira de Copenhaga (2) - efeitos do aquecimento global


De acordo com um gráfico do Centro Britânico de Pesquisa do Clima Hadley, um grau por zona e quatro graus mais quente e a Terra seria um lugar inóspito. Segundo a previsão do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas (IPCC), sem contramedidas este cenário poderá tornar-se numa realidade no final do século.

O descongelar das zonas frias faz derreter as planícies Tendra desde o Alasca até ao Canadá e à Rússia. Do chão congelado saem gases com efeito de estufa que podem acelerar o aquecimento global.

O derreter do gelo faz subir o nível médio do mar em 53 centímetros e dar força aos ciclones e furacões. As inundações de Nova Orleães podem desalojar 350 milhões de pessoas.

Perto dos glaciares perder-se-á um importante armazenamento de água. Vinte e três por cento dos chineses estarão dependentes durante as secas de água descongelada proveniente dos Himalaias.

As secas poderão aparecer em dobro do que acontece nos dias de hoje. Principalmente na América do Sul, no Sul de África e na Ásia central os rios poderão ter menos 70 por cento de água.

Na Argentina e no Brasil poderão cair para metade as colheitas de soja, milho e trigo. Nos trópicos e subtrópicos cada grau reduz os rendimentos de 2,5 a 16 por cento.

A malária é encontrada nas zonas de grande altitude em África e as doenças transmitidas pela água contaminada estão a aumentar. Vagas de grande calor podem também matar na Europa central.

Os mexilhões terão dificuldade em formar as conchas calcárias e, em águas mais quentes, morrerão os corais.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cimeira de Copenhaga (1) - redução de emissões em 50% em 2050


A Dinamarca apresentou, a 30 de Novembro, um projecto em que mostra ser essencial a redução das emissões com efeito de estufa em 50 por cento em 2050, a partir dos valores apresentados em 1990. A proposta indica que os países mais desenvolvidos deveriam reduzir ainda mais do que o previsto as suas emissões, apostando em 80 por cento para 2050. Esta matéria torna-se ainda mais relevante numa altura em que a ONU e o Mundo iniciam hoje um debate sobre as alterações climáticas, que decorrerá até 18 de Dezembro, em Copenhaga.

Hoje estou em Copenhaga!

domingo, 6 de dezembro de 2009

"O Último Grande Herói" - o filme de culto de John McTiernan


Por onde andará John McTiernan? Àquele que já foi considerado o intelectual do cinema de acção parece ter acontecido o mesmo que a Orson Welles na década de 40 do século passado, a Michael Cimino nos anos 80 ou até a Paddy McAloon em relação à indústria musical.

De facto, por ande andará John McTiernan? Aconteceu-lhe o mesmo que a outros grandes cineastas: após o sucesso de público e crítica (sobretudo, nas receitas geradas no box-office norte-americano), os produtores só se interessaram por McTiernan enquanto ele foi capaz de gerar o mesmo lucro. A tais gestores não interessa a qualidade artística, mas apenas o dinheiro que a Arte é capaz de gerar.

Depois de um debut fulgurante, raro no cinema de acção contemporâneo, com os filmes "Nómadas" (1986), "Predador" (1987), "Assalto ao Arranha-Céus" (1988), "Caça ao Outubro Vermelho" (1990) e "Os Últimos Dias do Paraíso" (1992), assinou a sua obra maior em "O Último Grande Herói" (1993), mas um passo em falso na relação com o seu público e o do action hero Arnold Schwarzenegger. Na verdade, esta última película foi, injustamente, um flop comercial e de crítica. Trata-se de um filme demasiado ousado para a época (relembre-se que no início da década de 90 a indústria lutava por competir com o mercado de vídeo, dando início à construção de multiplex em grandes centros comerciais e à junção cinema e pipocas) ao desconstruir o cinema de acção e aventura, e reflectir acerca do sentido do star-system (foram poucas as estrelas de Hollywood que tiveram a capacidade de Schwarzie para se rir dele próprio e da essência do american dream).

História de um miúdo de 12 anos, fã do serial Jack Slater (Schwarzenegger himself), que, com a ajuda de um bilhete mágico que pertencera a Houdini, é transportado para dentro do novo filme do seu herói. O resto é uma fita de acção imparável, filmada com uma energia, inteligência e um sentido de mise-en-scène raros no cinema de acção contemporâneo (compare-se com as catástrofes naturais filmadas por Roland Emmerich ou os filmes assinados por Michael Bay, para se verificar a maioridade de McTiernan). Talvez seja um filme demasiado complexo para ser amado pelo público generalista (vejam-se as referências a "O Sétimo Selo" de Ingmar Bergman ou ao "Hamlet" de Shakespeare), que não se sentiu capaz de meditar em torno da relação Arte/Indústria, Vida/Arte, nem revelou estar à altura da ironia e sentido de humor de McTiernan.

"O Último Grande Herói" precipitou a carreira de McTiernan (os seus filmes posteriores não foram capazes de gerar receitas que compensassem o flop comercial da obra em análise), mas já é tempo de o transformar num filme de culto, à semelhança de "Citizen Kane - O Mundo A Seus Pés" (Orson Welles, 1941), "Às Portas do Céu" (Michael Cimino, 1980) e "Do Fundo Do Coração" (Francis Ford Coppola, 1982).

Trailer de "O Último Grande Herói", de John McTiernan

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

"Lua Nova" - a irreversibilidade do amor (2)


Já aqui tinha registado uma análise crítica ao filme "Crepúsculo", de Catherine Hardwicke (post de 3 de Agosto de 2009), bem como ao livro "Lua Nova", de Stephenie Meyer (post de 2 de Setembro). Agora, um ano depois do sucesso alcançado pelo primeiro filme ("Crepúsculo" gerou receitas no valor de 350 milhões de dólares em todo o mundo), eis que acabou de estrear o segundo episódio da saga, precisamente "Lua Nova", desta vez com a assinatura de Chris Weitz (realizador do épico de aventuras "A Bússola Dourada").

Tal como já tinha referido a propósito da obra de Meyer, também o filme resulta numa continuação expectável da primeira parte da saga: o romance entre Edward e Bella começa a ganhar contornos cada vez mais trágicos (aliás, a referência inicial a "Romeu e Julieta", de William Shakespeare, não é fortuita, reforçando antes a dimensão trágica - o amor impossível - dos heróis desta história), levando até a uma forçada e prolongada separação entre os dois. A partir daqui, Weitz mantém-se fiel ao livro que adapta para celulóide, conduzindo-nos pelo sofrimento apaixonado de Bella que, estranhamente, descobre uma maneira de se (re)aproximar de Edward, a saber: desafiar o perigo. A protagonista procura também na amizade com Jacob uma compensação para a ausência do seu ex-namorado, relação que a conduzirá a revelações surpreendentes.

O cineasta sabe a que público o filme se dirige, fãs que querem ver na fita o que leram no livro, além de que parece ter visto atentamente o filme de Catherine Hardwicke, uma vez que mantém as texturas dramáticas encenadas em "Crepúsculo": grandes planos, cores garridas, banda sonora indie (Thom Yorke, Muse...), reforçando a componente melodramática do filme anterior. Na verdade, apesar de ter recuperado o género filme de vampiros, do ponto de vista estético "Lua Nova" está mais próximo dos grandes melodramas clássicos de Douglas Sirk, Nicholas Ray, Vincente Minnelli ou Elia Kazan, pelo que - à semelhança da sua prequela - há um certo tom anacrónico que constitui um ponto a favor do filme. Refira-se também que desde a Diane Lane de "Streets of Fire" (1984, Walter Hill) não víamos uma jovem actriz simultaneamente tão expressiva e bonita - o rosto de Kristen Stewart parece ter sido concebido para flirtar com a câmara.

Não é uma obra-prima (longe disso!), mas a apreciação só será justa quando a saga estiver totalmente materializada em película de 70 mm. Por enquanto, sabe-se apenas que o próximo capítulo será da responsabilidade de David Slade (responsável por obras como "Hard Candy" e "30 Days of Night").

Trailer de "Lua Nova", de Chris Weitz

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Barack Obama (2)


"Há alturas em que queria que a informação não fosse tão livre para não ser tão criticado. Mas torno-me num melhor presidente quando ouço o que não queria ouvir."
Barack Obama, Diário de Notícias

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Banda sonora para o Outono (8)


Morrissey foi, com Johnny Marr, responsável pelo maior case study (o único?) da cultura popular anglo-saxónica dos anos 80 do século XX. Para os mais cépticos, fiquem a saber que, em Inglaterra, há teses de doutoramento sobre The Smiths, a banda liderada pelos músicos mencionados. Podem desfazer as dúvidas acerca da singularidade da banda pop-rock ouvindo "The Queen Is Dead", álbum incontornável para se compreender a realidade política e social inglesa da década referida. Banda de referência sociológica, The Smiths foram ao encontro das crises identitárias de inúmeros jovens que não se reviam na música que reinava nos tops da época. Não sobreviveram à passagem dos anos 80, terminando no fim dessa década.

Morrissey, no entanto, continuou uma carreira discográfica regular em nome próprio, lançando discos que inevitavelmente (injustamente, diremos nós!) sofreram a comparação com as obras dos The Smiths, não saindo beneficiado desse processo crítico. Todavia, Morrissey foi capaz de persistentemente criar um fenómeno de culto em torno do seu nome, garantindo o sucesso de vendas dos seus discos. A entrada nos anos 00 foi marcada por um novo fôlego nas canções gravadas pelo autor, recuperando parte do sucesso crítico que alcançara com os The Smiths mas que perdera na segunda metade da década de 90. A obra-prima "You Are The Quarry", com as suas texturas rock e a voz a arriscar harmonias nunca antes exploradas, foi a principal responsável por esse retorno às grandes canções plenas de irónica amargura em relação à América, aos ingleses, à religião e à indústria musical.

Morrissey acaba de editar "Swords", disco que reúne b-sides de inúmeros singles publicados ao longo da presente década. Cultor dos velhinhos 45 rotações, Morrissey sempre escondeu tesouros no lado oculto desses discos. Daí que "Swords" acabe por funcionar como um disco cujo todo não se resume à mera soma das suas partes. Tem canções lindíssimas e, juntamente com o já mencionado "You Are The Quarry", constitui o melhor álbum do cantautor. Ouça-se com atenção "Ganglord", "The Never-Played Symphonies", "Christian Dior" ou "Friday Morning", temas genuinamente morrisseyianos à altura das melhores canções dos The Smths.

"Christian Dior" - Morrissey

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Estado do Mundo (8) - sem comentários


Mais de uma centena de icebergues navegam em direcção à Nova Zelândia, encontrando-se a cerca de 450 quilómetros a nordeste da ilha do Sul, assim revelam as últimas fotografias tiradas por satélite. Estes viajam a uma velocidade média entre um e dois quilómetros por hora, constituindo-se no segundo fenómeno do género ocorrido nos últimos três anos. Em 2006, vários blocos de gelo derreteram quando estavam a uma distância mínima de 25 quilómetros da costa da ilha do Sul, algo que não acontecia desde 1931.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...