
Morrissey foi, com Johnny Marr, responsável pelo maior case study (o único?) da cultura popular anglo-saxónica dos anos 80 do século XX. Para os mais cépticos, fiquem a saber que, em Inglaterra, há teses de doutoramento sobre The Smiths, a banda liderada pelos músicos mencionados. Podem desfazer as dúvidas acerca da singularidade da banda pop-rock ouvindo "The Queen Is Dead", álbum incontornável para se compreender a realidade política e social inglesa da década referida. Banda de referência sociológica, The Smiths foram ao encontro das crises identitárias de inúmeros jovens que não se reviam na música que reinava nos tops da época. Não sobreviveram à passagem dos anos 80, terminando no fim dessa década.
Morrissey, no entanto, continuou uma carreira discográfica regular em nome próprio, lançando discos que inevitavelmente (injustamente, diremos nós!) sofreram a comparação com as obras dos The Smiths, não saindo beneficiado desse processo crítico. Todavia, Morrissey foi capaz de persistentemente criar um fenómeno de culto em torno do seu nome, garantindo o sucesso de vendas dos seus discos. A entrada nos anos 00 foi marcada por um novo fôlego nas canções gravadas pelo autor, recuperando parte do sucesso crítico que alcançara com os The Smiths mas que perdera na segunda metade da década de 90. A obra-prima "You Are The Quarry", com as suas texturas rock e a voz a arriscar harmonias nunca antes exploradas, foi a principal responsável por esse retorno às grandes canções plenas de irónica amargura em relação à América, aos ingleses, à religião e à indústria musical.
Morrissey acaba de editar "Swords", disco que reúne b-sides de inúmeros singles publicados ao longo da presente década. Cultor dos velhinhos 45 rotações, Morrissey sempre escondeu tesouros no lado oculto desses discos. Daí que "Swords" acabe por funcionar como um disco cujo todo não se resume à mera soma das suas partes. Tem canções lindíssimas e, juntamente com o já mencionado "You Are The Quarry", constitui o melhor álbum do cantautor. Ouça-se com atenção "Ganglord", "The Never-Played Symphonies", "Christian Dior" ou "Friday Morning", temas genuinamente morrisseyianos à altura das melhores canções dos The Smths.
"Christian Dior" - Morrissey
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