domingo, 27 de dezembro de 2009

"Abraços Desfeitos" - elegia ao melodrama clássico


É inegável a influência de cineastas da época de ouro de Hollywood sobre o cinema de Pedro Almodóvar. Qualquer cinéfilo reconhecerá na sua última película, "Abraços Desfeitos", traços estéticos recolhidos dos filmes de Douglas Sirk, Alfred Hitchcock, Vincente Minnelli e, agora, também de Antonioni, Roberto Rossellini e Louis Malle ("Blow-Up", "Viagem a Itália" e "Fim-de-semana no Ascensor" são homenageados neste filme). Daí que se assistir a uma fita de Almodóvar seja um exercício fascinante de cinefilia, um autêntico deleite para sentidos, memória e razão, o mesmo não se poderá dizer em relação ao público generalista, que se concentra meramente na narrativa - e diga-se que este talvez seja o guião do realizador espanhol com mais pontas soltas.

"Abraços Desfeitos" é a história de um escritor que, pretendendo apagar todas as marcas da sua verdadeira individualidade, vive uma existência emprestada ao seu próprio pseudónimo - Harry Caine. Catorze anos antes, ainda como Mateo Blanco, realizador e argumentista, um acidente de viação em Lanzarote roubou-lhe a visão e o seu grande amor e musa inspiradora - Lena (interpretada pela cada vez mais musa de Almodóvar, Penélope Cruz). Determinado a esquecer Lena e a sua anterior existência, abandona uma parte de si mesmo, optando pelo nome que tinha escolhido no mundo literário - precisamente, Harry Caine.

Se ainda há pouco escrevia aqui sobre Lucio Fulci e a arte perdida de falhar a ligação entre planos (vulgo, raccord), Almodóvar é cada vez mais um mestre na arte de bem filmar e conectar planos (tome-se como exemplo a sequência em que a imagem de uma bobine dá lugar ao plano com o protagonista a descer uma escadaria em caracol). Há uma delicadeza subtil que transparece em cada fotograma, contribuindo para tal o belíssimo trabalho de fotografia de outro grande mestre, Rodrigo Prieto. As maiores fragilidades de "Abraços desfeitos" encontram-se precisamente nas marcas autorais de Almodóvar, a saber: a tentativa de contar uma história romântica, poética e com apontamentos de comédia de costumes (introduzindo as suas personagens-tipo) sem conferir a devida espessura e sentido aos personagens de Lena (era escusado colocá-la como secretária de dia e prostituta de luxo à noite), do seu companheiro milionário (cujo amor obsessivo por Lena nunca chega a convencer) e respectivo filho (o seu impulso voyeur surge como mecanismo dramático forçado).

Por todo o filme sente-se o amor ao cinema e, em particular, ao melodrama clássico, mas enquanto neste a força emocional das imagens provinha de um argumento bem urdido, em "Abraços Desfeitos" Almodóvar sustenta-se na crença de que as imagens chegam para criar uma emotion picture, o que neste caso se revela insuficiente (compare-se esta película com "Em Carne Viva", filme onde Almodóvar dá uma lição de Cinema em duas horas). Mesmo assim, um Almodóvar menor é sempre um bom filme, a ver com prazer.

Trailer de "Abraços Desfeitos", de Pedro Almodóvar

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