domingo, 6 de dezembro de 2009

"O Último Grande Herói" - o filme de culto de John McTiernan


Por onde andará John McTiernan? Àquele que já foi considerado o intelectual do cinema de acção parece ter acontecido o mesmo que a Orson Welles na década de 40 do século passado, a Michael Cimino nos anos 80 ou até a Paddy McAloon em relação à indústria musical.

De facto, por ande andará John McTiernan? Aconteceu-lhe o mesmo que a outros grandes cineastas: após o sucesso de público e crítica (sobretudo, nas receitas geradas no box-office norte-americano), os produtores só se interessaram por McTiernan enquanto ele foi capaz de gerar o mesmo lucro. A tais gestores não interessa a qualidade artística, mas apenas o dinheiro que a Arte é capaz de gerar.

Depois de um debut fulgurante, raro no cinema de acção contemporâneo, com os filmes "Nómadas" (1986), "Predador" (1987), "Assalto ao Arranha-Céus" (1988), "Caça ao Outubro Vermelho" (1990) e "Os Últimos Dias do Paraíso" (1992), assinou a sua obra maior em "O Último Grande Herói" (1993), mas um passo em falso na relação com o seu público e o do action hero Arnold Schwarzenegger. Na verdade, esta última película foi, injustamente, um flop comercial e de crítica. Trata-se de um filme demasiado ousado para a época (relembre-se que no início da década de 90 a indústria lutava por competir com o mercado de vídeo, dando início à construção de multiplex em grandes centros comerciais e à junção cinema e pipocas) ao desconstruir o cinema de acção e aventura, e reflectir acerca do sentido do star-system (foram poucas as estrelas de Hollywood que tiveram a capacidade de Schwarzie para se rir dele próprio e da essência do american dream).

História de um miúdo de 12 anos, fã do serial Jack Slater (Schwarzenegger himself), que, com a ajuda de um bilhete mágico que pertencera a Houdini, é transportado para dentro do novo filme do seu herói. O resto é uma fita de acção imparável, filmada com uma energia, inteligência e um sentido de mise-en-scène raros no cinema de acção contemporâneo (compare-se com as catástrofes naturais filmadas por Roland Emmerich ou os filmes assinados por Michael Bay, para se verificar a maioridade de McTiernan). Talvez seja um filme demasiado complexo para ser amado pelo público generalista (vejam-se as referências a "O Sétimo Selo" de Ingmar Bergman ou ao "Hamlet" de Shakespeare), que não se sentiu capaz de meditar em torno da relação Arte/Indústria, Vida/Arte, nem revelou estar à altura da ironia e sentido de humor de McTiernan.

"O Último Grande Herói" precipitou a carreira de McTiernan (os seus filmes posteriores não foram capazes de gerar receitas que compensassem o flop comercial da obra em análise), mas já é tempo de o transformar num filme de culto, à semelhança de "Citizen Kane - O Mundo A Seus Pés" (Orson Welles, 1941), "Às Portas do Céu" (Michael Cimino, 1980) e "Do Fundo Do Coração" (Francis Ford Coppola, 1982).

Trailer de "O Último Grande Herói", de John McTiernan

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