
Continuando a reflexão em torno de grandes autores do cinema contemporâneo, registo aqui um filme que vi recentemente numa magnífica edição em DVD. Trata-se de "Sweeney Todd - O Terrível Barbeiro de Fleet Street", adaptação do musical de Stephen Sondheim por Tim Burton.
Comecemos por referir que o universo concebido por Sondheim encaixa perfeitamente no imaginário de Burton, senão vejamos: na Londres industrial, cinzenta e miserável do século XIX, um barbeiro regressa da ilha onde esteve deportado e, de lâmina em punho, só pensa em vingar-se do juiz que o condenou injustamente a um exílio forçado, separando-o assim da mulher que amava. Sangue, mistério, humor, música arrepiante e um trabalho de design gráfico fabuloso (para o qual muito contribui a extraordinária direcção de fotografia de Dariusz Wolski), conferem ao filme o estatuto de obra-prima, mais uma a acrescentar à mais coerente carreira construída por um cineasta norte-americano nas últimas três décadas. De facto, compreender a forma como Tim Burton consegue filmar regularmente (em 25 anos dirigiu catorze longas-metragens, se contarmos com "Alice No País Das Maravilhas", que estreará em 2010) no contexto actual de produção dos grandes estúdios de Hollywood, e tendo em conta o seu universo singular, é um case study com interesse sociológico.
Mais que um autor, Burton é um verdadeiro artista, com um sentido estético único e facilmente reconhecível em todos os seus filmes, sendo "Sweeney Todd" a síntese formal de tudo o que Burton realizou anteriormente: barroco ("Batman"), gótico ("Sleepy Hollow"), onírico ("O Grande Peixe"), surreal ("Charlie e a Fábrica de Chocolate"), cínico ("Beetlejuice"), moral ("Eduardo Mãos-de-Tesoura"), quixotesco ("Ed Wood") e existencialista ("A Noiva Cadáver"). Vibrante, ousado e provocador, "Sweeney Todd" é uma obra de arte cinematográfica a ver, obrigatoriamente.
Trailer de "Sweeney Todd - O Terrível Barbeiro de Fleet Street", de Tim Burton
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