A partir do romance O Quarto de Jack, de Emma Donoghue (e segundo argumento da mesma autora), Lenny Abrahamson constrói um comovente drama centrado na relação entre uma jovem e o seu filho de cinco anos, que vivem presos num minúsculo quarto cuja única janela para o mundo exterior é uma clarabóia. A mãe mantém o pequeno Jack na ilusão de que aquele quarto é o mundo onde se encontram protegidos de extraterrestres.
Quarto está dividido em duas partes: a primeira corresponde à sinopse apresentada atrás; a segundo descreve a fuga da criança e a adaptação ao novo mundo fora do quarto. Abrahamson consegue manter o equilíbrio com uma realização segura que, respeitando o olhar de uma criança de cinco anos, é tão hábil a filmar o huis clos da primeira parte como na captação do novo ambiente familiar da última parte.
Apesar de algum maniqueísmo emocional (difícil de evitar, tendo em conta a terrível situação em que os protagonistas se encontram), estamos perante um bom filme, fazendo-nos acreditar, desde o primeiro minuto, na vinculação securizante estabelecida entre aquela mãe e o seu filho. Por isso, também nós, espetadores, passamos cerca de uma hora encerrados naquele quarto feito mundo - e esse é o maior mérito da película.
Quase que podíamos citar o título do primeiro tomo da saga Millennium,de Stieg Larsson, Os Homens [neste caso, Países] que Odeiam as Mulheres. Na sequência de declarações do ministro do Turismo e da Cultura indiano, que pediu às mulheres que visitem a Índia que não usem saia e evitem saídas à noite (no que pode ser interpretado como uma responsabilização da mulher pelo crime do qual é vítima), o i publicou na edição de 31 de agosto o ranking dos países mais perigosos, sobretudo para as mulheres. Eis a lista:
1 - Índia [a cada quatro horas há uma violação em Nova Deli]
2 - México [onde existem altos níveis de criminalidade e violência de gangues]
3 - Brasil [terceiro país do mundo com maior taxa de homicídios]
4 - Egito [depois da primavera Árabe houve um aumento do número de casos de violência sexual]
5 - Arábia Saudita [no ano passado, 1200 mulheres morreram durante visitas ao país]
6 - Turquia [o uso das chamadas "drogas da violação" tem vindo a aumentar exponencialmente]
7 - Honduras [aqui encontra-se a cidade mais violenta do mundo]
8 - Quénia [são inúmeros os casos de violação e rapto]
9 - Colômbia [país que coloca muitos entraves à condenação de um homem pelo crime de violação]
10 - Jamaica [onde o crime violento tem vindo a crescer de forma impressionante].
Nicholas Ray, Sergio Leone, Alfred Hitchcock e Agatha Christie parecem reunir-se no oitavo filme de Quentin Tarantino. Em boa verdade, Os Oito Odiados constitui a oitava homenagem deste autor às suas influências estéticas e identitárias, depois de já ter feito o mesmo a Scorsese, aos blaxploitation movies, à pulp fiction, aos filmes de guerra, aos westerns e ao cinema de Hong Kong.
Há uma vontade de fazer cinema de recorte clássico, tanto na escolha da película (70mm), como na decisão de estender o filme por três horas com longos planos fixos e dando primazia aos diálogos (à semelhança das outras obras que assinou), bem como na banda sonora de Ennio Morricone (justamente premiada com um Óscar). Depois há as fabulosas interpretações, com destaque evidente para Samuel L. Jackson naquele que é, provavelmente, o melhor desempenho da sua carreira.
Juntando os códigos do western e do thriller, Tarantino cria uma fita de detalhes, em que o misterioso desaparecimento dos proprietários de uma estalagem nas montanhas, durante um inverno rigoroso, é o dispositivo narrativo cujo desenlace, afinal, é um pretexto para a (des)construção de um mito: a carta que Lincoln terá escrito a um escravo foragido durante a Guerra Civil Americana.
O rosto ensanguentado e coberto de poeira de Omran Daqneesh, menino sírio de 5 anos de idade, recuperado dos escombros provocados por um ataque aéreo, foi capa de muitos jornais desta semana. Omran é uma das 75 mil crianças que lutam para sobreviver em Alepo. Crianças que não conhecem outra realidade que não a guerra.
A notícia foi publicada, ontem, no Observador, e é o último grande alerta da UNICEF: o número de crianças-soldado não para de aumentar. No Sudão do Sul serão cerca de 160 mil, recrutadas desde 2013 (650 já este ano). Justin Forsyth, adjunto do diretor executivo da UNICEF, no regresso de uma deslocação a Bentiu e Juba, naquele país, afirmou que "no atual período extremamente precário da breve história do Sudão do Sul, a UNICEF teme que possa estar iminente um aumento exponencial do recrutamento de crianças".
A UNICEF promove os direitos e o bem-estar das crianças no mundo, trabalhando em 190 países. No Sudão do Sul, reporta e monitoriza violações graves dos direitos das crianças no âmbito de um grupo de trabalho das ONU (com a sigla MRM - Monitoring and Reporting Mechanism), documentando seis abusos cometidos contra crianças: recrutamento por forças e grupos armados, assassínio e mutilação, ataques contra escolas e hospitais, violação e outras formas de violência sexual, rapto e impedimento do acesso humanitário.
Até quando faremos de conta que nada disto está a acontecer ou que não é nada connosco? Qual é a posição das forças políticas da esquerda pacifista, que apelam sempre à intervenção diplomática e nunca à intervenção militar? Qual deve ser o real papel político que a ONU e a NATO devem desempenhar?
Justamente premiado com o Óscar de Melhor Filme do Ano, O Caso Spotlight é uma honesta homenagem ao jornalismo de investigação e à imprensa escrita; uma sentida dedicatória a um jornalismo de equipa que implica tempo, um tempo incompatível com o tempo da internet; um sincerorequiem por um jornalismo com filtros, que requer leitores exigentes e um público que procura informação rigorosa - porque quer pensar com ela e a partir dela.
O argumento é uma lição de economia narrativa, didático na forma como coloca o espetador no labor jornalístico, não optando pela solução mais fácil, que seria explorar o filão emocional das vítimas de pedofilia dos padres, que a Igreja Católica tentou ocultar ou silenciar. Deste modo, o pathos reside na empatia do espetador com os conflitos dos jornalistas, verdadeiros heróis desta obra-prima de Tom McCarthy.
Os super-heróis podem ser quem leva mais público ao cinema, mas é este cinéma vérité que será recordado na cinefilia futura.
Um ano depois da obra-prima Birdman, Iñarritú parece não querer perder tempo e assina o épico The Ravenant, oferecendo a Leonardo DiCaprio mais um tour de force. A interpretação de DiCaprio é verdadeiramente extraordinária, mas convém lembrar que este ator está mais que habituado a desafios, sendo, de resto, a personagem que interpreta superlativamente em The Ravenant talvez a mais linear e menos complexa da sua distinta carreira.
A história da terceira vida de um homem (sim, entende-se que ele renasce duas vezes: uma, quando casa com uma índia, e, outra, quando sobrevive ao ataque de uma ursa) na América selvagem pós-Guerra Civil prolonga o esforço de Iñarritú em criar um cinema autoral de pendor metafísico. Mas o que resultou numa espécie de ironia trágica em Birdman, perde-se agora numa forma de misticismo (já aflorado pelo cineasta mexicano no olvidável Biutiful) levado à letra. Não tivesse esses apontamentos (pseudo) filosóficos simplistas e pretensiosos (que uma história tão dramática como esta bem dispensava) e poderíamos estar perante outra obra-prima de Iñarritú. Mas não é Terence Mallick quem quer!
A reedição dos álbuns Flying Teapot, Angel's Egg (ambos de 1973) e You (de 1974), naquela que ficou conhecida como The Radio Gnome Trilogy, dos Gong, marcará, com certeza, o ano discográfico.
É cacofonia musical sob a forma de opereta rock de ficção científica, ou não fosse a banda de Daevid Allen (1938-2015) uma ilustre representante da música sem fronteiras e sem formatos. Em boa verdade, não é justo chamar-lhe rock, jazz, fusão ou música experimental, é tudo isso e, simultaneamente, outra coisa - é música inclassificável. É Arte. Como eles, só os Soft Machine (também fundados por Allen), Weather Report e King Crimson.
Memória gloriosa dos anos 70, uma década de rock progressivo e experimentação. Se Bowie era um extraterrestre, o seu planeta de origem era, provavelmente, governado por Allen.
Nem o fim do uso gratuito de sacos de plástico nos supermercados vai salvar os oceanos. De acordo com um relatório divulgado pelo Fórum Económico Mundial, estima-se que, atualmente, mais de 150 milhões de toneladas de plásticos poluam os oceanos, pelo que, em 2050, estes vão ter, em peso, mais plástico do que peixes.
Ora, se tivermos em conta o problema gravíssimo da sobrepesca (30% das capturas não são comunicadas à ONU), é caso para perguntar: que futuro para os oceanos?
Em 2015, as 62 pessoas mais ricas do mundo tinham a mesma riqueza que a soma da metade mais pobre do planeta. Isto significa que a riqueza acumulada por 1% da população mundial, os mais ricos, superou a dos 99% restantes. Os dados foram revelados num relatório da Oxfam, Uma Economia ao Serviço de 1%.
Para aquela ONG, a forma mais eficaz de combater estas desigualdades é acabar com os paraísos fiscais, que permitem o desvio de fortunas que não são tributadas. E dá o exemplo da riqueza de África, uma vez que se estima que 30% dos rendimentos financeiros do continente não são tributados. Para a Oxfam, este dinheiro chegaria para salvar a vida de 4 milhões de crianças todos os anos, para pagar salários de professores e educar todas as crianças.
"If i can balance between the old and the new, I'll obtain my satisfaction." São de Anderson .Paak estas palavras, rezam no fim da penúltima faixa de Malibu, Celebrate. O disco celebra a diversidade ao misturar subtilmente soul, funk, hip-hop e até R&B. Sempre com equilíbrio e harmonia.
The bird, Heart don´t stand a chance ou The dreamer revelam-se verdadeiros testamentos musicais que acompanharão, com certeza, os melhores momentos vividos por estes dias cálidos.
O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade, aceitou que a Galp lhe pagasse duas viagens para ver jogos da seleção portuguesa no Euro. De acordo com a revista Sábado, aquela empresa pagou a passagem, transportando o ilustríssimo funcionário público num voo fretado só para convidados. O problema (ou será melhor afirmarmos, um dos problemas) é que o fisco tem 100 milhões em contencioso com a Galp. Mas, para o Ministério das Finanças, "não existe qualquer fundamento para falar em conflito ético". Não? - pergunto eu.
Impressionante artigo publicado, hoje, no Observador sobre o caso de uma viúva cigana que fugiu da comunidade onde vivia para não ter que andar de luto. O caso passou-se em Lisboa. Ler o texto assinado por Sónia Simões obriga-nos a pensar acerca deste relativismo cultural travestido de multiculturalismo, que mais não é do que tolerar a intolerância e fechar os olhos às violações dos Direitos Humanos perpetradas por aquela etnia. Permitir que a barbárie se instale na porta ao lado, sob o pretexto de que se trata de uma cultura diferente da nossa, que vive sob a égide de leis ancestrais e imutáveis, é desvirtuarmos a essência da Liberdade.
"De tanto ver, acaba-se por tudo suportar, de tanto suportar acaba-se por tudo tolerar, de tanto tolerar acaba-se por tudo aceitar, de tudo aceitar acaba-se por tudo aprovar..."
cálido verão
deixa-se levar
pelas margens
de uma solidão
encantada
com a possibilidade
de existir
sem contrário,
qual profilaxia da vontade.
"ousa saber!" - diria Kant
no verão frio de Königsberg
agasalhado em diurnas leituras,
porventura, já avassalado pela gota,
único atraso numa vida pontual.
desejo essa assiduidade
ambiciono tal solarenga presença
desolada
com a possibilidade
(feita certeza)
de o impulso
ser contrário à moral
efeito secundário
da estival atração
que se transfigura
por entre as margens
da idade madura.
Herman Melville (1819-1891) é, para muitos, o grande romancista épico norte-americano, sendo Moby Dick o exemplo maior da sua perícia como escritor. Ron Howard é um artesão do cinema, com uma carreira que, há semelhança de cineastas da primeira metade do século XX, será, no futuro, seguramente revalorizado e a sua filmografia objeto de revisão e reavaliação.
No Coração do Mar é, precisamente, a reconstituição da tragédia do navio Essex, que terá estado na génese do romance Moby Dick. É um filme sobre a caça à baleia, versando sobre a relação entre o homem e a natureza, num tour de force sem ousadias estilísticas, direto ao osso, portanto.
Foi um objeto ignorado na última cerimónia dos Óscares, dada a sua natureza artisticamente despretensiosa, filmada com o rigor de um artesão. Será, com certeza, daqui a 20 anos um clássico da sétima arte. Não é uma obra-prima, na medida em que há personagens secundários que não são suficientemente explorados, mas não era essa também uma característica de obras de realizadores como William Dieterle ou William A. Wellman?
Diga-se o que se disser, só uma coisa é certa: a Seleção Portuguesa foi a justíssima vencedora do Euro 2016. É a prova de que com garra, união, solidariedade, motivação, resiliência e espírito de sacrifício é possível tornar (pelo menos, alguns) sonhos (mesmo os mais difíceis!) realidade. Parabéns, Portugal!
No já longínquo ano de 1985, entrei numa (agora defunta) sala de cinema (o saudoso Chaplin, em Leça da Palmeira), acompanhado pelo meu irmão, para ver O Ano do Dragão, a primeira obra de Michael Cimino após o gigantesco fiasco de As Portas do Céu (1980).
Para além da realização vertiginosa de Cimino, O Ano do Dragão confirmava Mickey Rourke como o ator mais interessante da década de 80, entregando-se de corpo e alma a uma interpretação eletrizante. Naquela altura, corria o rumor de que ele seria o próximo 007. Era isso mesmo, um rumor, nada mais. Rourke não tinha paciência para Hollywood e gostava pouco de realizadores, tendo posteriormente rejeitado papéis em filmes que poderiam ter dado um rumo diferente à sua carreira e à sua tumultuosa vida pessoal. No entanto, Cimino era um dos poucos eleitos e viria a trabalhar com ele, cinco anos depois, no thriller visceral "A Noite do Desespero". A aura de cineasta maldito talvez tenha contribuído para a química e a comunicação entre o realizador e o ator.
O Ano do Dragão era uma espécie de regresso às personagens de O Caçador (Cimino, 1978). Nele, Mickey Rourke é Stanley White, veterano da guerra do Vietname, agora chefe da polícia de Chinatown determinado a combater a máfia chinesa que domina o tráfico de droga naquele bairro nova-iorquino. White é arrogante, racista e tendencialmente niilista, o que contribuiu muito para as acusações movidas por grande parte da crítica de que o argumento de Oliver Stone seria profundamente racista e Cimino um republicano xenófobo a ajustar contas com o passado (nomeadamente, a derrota humilhante sofrida pelos EUA no Vitename). Visão redutora, e até deturpada, acerca de um filme em torno de um anti-herói incorruptível, determinado a fazer justiça, qual xerife de um western clássico (com John Ford à cabeça). Em boa verdade, Rourke provava que podia ser um ator maior que a vida, uma interessante combinação entre John Wayne e Marlon Brando (de resto, chegou a ser caracterizado por boa parte da imprensa como "o novo Marlon Brando"). Arriscaria mesmo considerar O Ano do Dragão como o maior filme policial da década de 80.
Michael Cimino lega-nos uma obra pequena em número - assinou apenas 7 películas -, mas fica a sensação de que, independentemente das vicissitudes da sua carreira (e foram muitas!), realizou os filmes com total liberdade artística, deixando uma marca pessoal indelével em todos. Talvez tenha chegado a altura dos historiadores e críticos de cinema reavaliarem parte da sua obra cinematográfica (a começar precisamente por O Ano do Dragão) e não celebrar apenas O Caçador e As Portas do Céu. Cimino foi mais do que estes dois filmes, talvez o maior discípulo de Orson Welles - na visão, no solipsismo e (por que não?) na megalomania. Ou, como ele gostaria de ser recordado: "Cimino - um cineasta individualista".
Ludovico Einaudi estreou uma nova música, Elegy For The Artic", enquanto flutuava em cima de um icebergue improvisado e, à sua frente, um glaciar derretia. O espetáculo foi integrado numa campanha da Greenpeace, com o objetivo de chamar a atenção do mundo para o recuo da superfície gelada do oceano Ártico, cada vez mais vulnerável devido à pesca e à exploração de petróleo.
The Floating Piers é uma instalação do artista búlgaro Christo, constituída por 200 mil cubos flutuantes, que, ao longo de 3 quilómetros sobre o Lago Iseo, liga a cidade de Sulzano à ilha Monte Isola (no norte de Itália). Este pontão flutuante pode ser percorrido até amanhã, dia 3 de julho.