segunda-feira, 2 de agosto de 2021

"Presos no Tempo" (2021) - de M. Night Shyamalan

Olvidável retorno de Shyamalan ao cinema, Presos no Tempo é um drama patético, que não se percebe bem se é ficção científica, thriller, terror ou mistério. No fim, ficam os despojos de uma comédia tola involuntária, que, no limite, se compreenderia se o seu autor fosse Ed Wood (para quem não sabe, Ed Wood ficou conhecido por ter concebido alguns dos piores filmes da história do cinema, mas mantendo sempre a ambição "visionária" de fazer obras à altura de Citizen Kane).

Quem assistir a Presos no Tempo desconhecendo obras-primas como O Sexto Sentido (1999), O Protegido (2000), Sinais (2002) ou A Vila (2004), provavelmente pensará que foi escrito e realizado por um qualquer neófito deslumbrado pela primeira oportunidade em Hollywood. É que este pretensioso "tratado" sobre o envelhecimento e a finitude tem o potencial para destruir carreiras, pelo menos as do realizador e dos atores. Um filme que só não chega a ser dececionante por ser desastroso.

domingo, 1 de agosto de 2021

"Annette" (2021) - de Leos Carax

Filme de abertura do último Festival de Cannes, Annette marca o regresso de Leos Carax, cineasta de culto que, em cerca de 40 anos de carreira, assina aqui a sua sexta longa-metragem. E valeu a pena a espera, pois este é um filme grandioso (talvez seja mais ajustado dizer grandíloquo), uma ópera rock trágica realizada com alma e que dá aos seus dois atores principais (Marion Cotillard e Adam Driver) a oportunidade para prestações memoráveis (sobretudo, Adam Driver, que tem aqui um desempenho soberbo).

Leos Carax aproveita a estética do musical para construir uma parábola sobre os tempos que correm, lançando um duro golpe ao público consumidor acéfalo da informação veiculada nas redes sociais e aos órgãos de comunicação que, para sobreviverem, se renderam às imagens vazias do YouTube, Facebook ou Instagram. 

Uma lição de mise-en-scène majestática. Um filme obrigatório! (O melhor que veremos em 2021?)

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Paul Schrader (2) - "No coração da escuridão" (2018)

Regressamos ao cinema negro, denso, revoltado e permanentemente à procura da redenção, de Paul Schrader. No coração da escuridão (First Reformed, no original), o seu mais recente filme, é um regresso claro aos seus fantasmas pessoais e às suas preocupações metafísicas: fé, Deus, redenção, sentido da existência, livre-arbítrio, niilismo, morte, amor, mas também a autodestruição.

Ethan Hawke interpreta magistralmente o papel de uma padre em crise de fé, que, perturbado com o suicídio do marido de uma paroquiana (ativista em prol de causas ambientais), sente o dever de completar a sua missão, insurgindo-se contra uma humanidade que não merece o perdão de Deus.

No coração da escuridão é um filme perfeito, sem um único plano ou diálogo a mais. Uma obra de um rigor absoluto. Não é fácil gostar do cinema de Schrader, mas é por obras como esta que o cinema é arte maior. Afinal, ainda vale a pena comprar um bilhete de cinema e refugiarmo-nos no coração da escuridão.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Blake Edwards (2) - "A Semente de Tamarindo"(1974)

Judith Farrow trabalha no Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico. De passagem pelas Caraíbas, Judith apaixona-se por um adido militar russo e o caso desperta suspeitas nos dois lados da Cortina de Ferro.

A partir de um romance de Evelyn Anthony, e filmado nas Caraíbas, em Paris, Londres e Canadá, Blake Edwards constrói um argumento com todos os sinais da década de 70 do século XX. Em boa verdade, estávamos em plena Guerra Fria e o filme reflete o clima de tensão leste-oeste. No entanto, interessa a Edwards não tanto a intriga política mas mais a história de amor entre uma funcionária pública britânica (interpretada por uma etérea Julie Andrews) e um espião russo (um sedutor Omar Sharif).

O genérico de abertura é digno de antologia. Com música assinada por John Barry, A Semente de Tamarindo evoca claramente os créditos iniciais dos filmes de James Bond. É, contudo, um filme menor na extensa filmografia de Edwards.


segunda-feira, 12 de julho de 2021

Blake Edwards (1) - "Uma voz na escuridão" (1962)

Blake Edwards, cineasta responsável por inúmeras comédias inesquecíveis (por exemplo, a série Pantera cor-de-rosa, com Peter Sellers), experimentou vários registos. Uma voz na escurdião marcou a sua incursão pelo thriller, resultando num dos maiores filmes de sempre do género.

A primeira cena introduz logo o conflito numa sequência longa (filmada quase num só grande plano) e aterradora. Uma mulher acaba de estacionar o carro na garagem de casa quando é atacada por um assassino, que a agarra pelas costas e lhe exige que roube cem mil dólares do banco onde trabalha sob pena de assassinar a sua irmã adolescente. A voz do agressor é cavernosa, denunciando que sofre de asma. Nós, os espectadores, saímos da cena com a sensação de que o chão vai desabar por baixo dos nossos pés.

Os planos de Uma voz na escuridão são desenhados com o rigor de um arquiteto; a banda sonora de Henry Mancini (habitual colaborador de Edwards) é arrepiante; Glenn Ford (no papel do agente do FBI responsável pela investigação do caso) e Lee Remick (na pele da mulher ameaçada) são soberbos na arte da contenção, nunca se sobrepondo à narrativa; e a sequência final no estádio de baseball é uma lição de realização ao nível de mestres como Hitchcock ou Brian de Palma. 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

"Fim de semana com o morto" (1989) - de Ted Kotcheff

Larry (Andrew McCarthy) e Richard (Jonathan Silverman) descobrem um esquema fraudulento na seguradora onde trabalham. Na expectativa de serem promovidos, informam o patrão, Bernie Lomax (Terry Kiser). O que os dois colegas desconhecem é que é este o responsável pela fraude de 2 milhões de dólares. É então que Lomax decide contratar os serviços de um mafioso nova-iorquino para assassinar os dois funcionários. Mas o "padrinho" ordena ao seu capanga que elimine Lomax, em vez dos dois amigos. A partir daqui está instalada a confusão na melhor tradição da screwball comedy

Fim de semana com o morto é uma comédia louca como todas as comédias destravadas deviam ser: diverte o espectador durante 100 minutos, respeita as personagens, colocando-as ao serviço da história (marada do princípio ao fim) e tem uma realização competente (discreta, mas com mão segura).

Volvidos 32 anos, podemos hoje perceber que a película de Ted Kotcheff é um clássico da comédia made in Hollywood, à altura de obras como Um, dois, três, de Billy Wilder (1961), A festa, de Blake Edwards (1968) e 1941 - Ano louco em Hollywood, de Steven Spielberg (1979).

terça-feira, 15 de junho de 2021

Pablo Larraín (3) - "Não" (2012)


No final dos anos 80 do século XX, e após 15 anos de ditadura, o general Pinochet cede à pressão internacional e decide convocar um referendo nacional para averiguar se os chilenos pretendem (ou não) que o regime governe por mais 8 anos. Aproveitando os 15 minutos diários de tempo de antena concedidos pela estação pública de televisão, os defensores do "não" encomendam a campanha a uma equipa de publicitários que, servindo-se das técnicas de publicidade da TV  norte-americana, encenam uma série de vídeos otimistas que apelam a um hipotético futuro risonho e colorido que os chilenos merecem ter após tantos anos sem liberdade.

Larraín filma com a estética dos anos 80 (cores garridas, imagem gasta, câmara à mão), como se o filme resultasse da montagem de imagens de arquivo. E, sobretudo, sobra o filme mais feliz de Pablo Larraín até à data.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

"Julieta" (2016) - de Pedro Almodóvar


Julieta é uma mulher de meia-idade que vive há mais de 18 anos atormentada com o drama do misterioso desaparecimento da sua filha, mas o reencontro com uma amiga de infância desta leva a protagonista à procura das respostas que nunca teve e, forçosamente, a confrontar-se com memórias do passado que jamais partilhara com alguém.

O penúltimo filme de Almodóvar (até à data de hoje) apura os temas de sempre e a estética pessoal (diria, clássica) do maior cineasta de Espanha. "Julieta" é uma película fascinante, que se vê do princípio ao fim como o mais viciante e intrigante dos romances. E há por aqui vestígios evidentes de Hitchcock e Cukor. Obrigatório!


domingo, 13 de junho de 2021

Estado da Nação (35) - Um País desgovernado por quem se governa a si próprio: o poder dos discípulos de Sócrates (7)


É mesmo bom ser socialista em Portugal. Aliás, nunca foi tão bom em quase 50 anos de convivência democrática. Senão vejamos.

O (des)governo de António Costa (AC) emprega o número-recorde de 1.259 boys. Entre assessores, adjuntos, técnicos especialistas, motoristas, secretários e pessoal administrativo, o atual Executivo gasta anualmente mais de 73 milhões de euros com os gabinetes de 70 (des)governantes. Só AC tem 10 assessores, 10 adjuntos e técnicos especialistas, 11 motoristas e 8 secretários pessoais. São 40 colaboradores que representam um encargo mensal de 140 mil euros. 

Haja tributação fiscal que suporte todos estes encargos do Estado socialista.

sábado, 12 de junho de 2021

Estado da Nação (34) - Um País desgovernado por quem se governa a si próprio: o poder dos discípulos de Sócrates (6)


Vale a pena ler a Resolução do Conselho de Ministros nº 70/2021, que "determina a realização das comemorações da Revolução de 25 de Abril de 1974 e cria a estrutura de missão que as promove e realiza". Talvez porque, como reconhece a Resolução, "a maioria da população portuguesa já nasceu depois da Revolução, e estando próximos de cumprir mais anos em democracia do que aqueles que durou a ditadura", a Resolução permite-se materializar ao abrigo da lei a utopia socialista. São só jobs for the boys

Para Presidente da Comissão Executiva das comemorações do 50º aniversário da dita revolução, o (des)Governo de António Costa nomeou o comentador socialista Pedro Adão e Silva (PAS), que é um boy, um arauto da ciência política nascido, precisamente, no ano da Revolução (um miúdo, portanto). 

PAS é a prova viva do pragmatismo socialista a que estamos habituados: quem semeia colhe. Este filho querido de Abril jogou sempre pelo seguro, passando PSD para o PS e envergando o trabalho sujo de defensor do Governo PS. Para além de um elevadíssimo salário (4,500 euros) ao longo de cinco anos e meio, PAS disporá ainda de ajudas de custo e de uma equipa de colaboradores, igualmente pagos.

PAS foi, recorde-se, um fervoroso defensor da honestidade de José Sócrates. O apoio ao modesto e íntegro senhor engenheiro ainda dá os seus frutos. Mas são só jobs for the boys num país que há muito se conformou - e aceita - o nepotismo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

"Os Sete Samurais" - obra de arte filmada por Akira Kurosawa

Em 1954, o Mestre Akira Kurosawa assinou aquele que viria a ser, muito justamente, um dos filmes mais citados e inspiradores da história da Sétima Arte. Falamos de "Os Sete Samurais", épico de guerra situado no século XVI, em pleno Japão Feudal, numa aldeia onde os pobres camponeses, cansados de ser constantemente saqueados por bandidos, convencem sete samurais a protegê-los dos ataques.

Este é um filme perfeito. Prova disso é ter resistido imaculadamente à passagem de quase 70 anos desde a sua estreia. Um preto e branco coruscante, atores em estado de graça (com destaque para o faceto e divertido Toshiro Mifune), banda sonora engenhosa e depurada, e 210 minutos que passam num ápice.

domingo, 3 de janeiro de 2021

"Wolfwalkers" - cinema de animação exemplar

Maravilharmo-nos com o visionamento de "Wolfwalkers", obra-prima do novo cinema de animação europeu, é uma excelente forma de inaugurar o novo ano cinéfilo. Filme poético, onírico e (porque não dizê-lo) folk, traz a assinatura dos artistas Tomm Moore e Ross Stewart.

Baseado em lendas célticas, a ação situa-se em meados do século XVII na Irlanda rural dominada por Lord Protector, tirano inglês que oprime e subjuga o povo de uma pequena cidade que vive apavorada com a ameaça de uma alcateia que tem atacado as ovelhas. Certo dia, Robyn, uma menina inglesa que sonha seguir as pisadas do pai como caçador de lobos, aventura-se na floresta e trava amizade com uma criança de longos cabelos ruivos, que é, na verdade, uma wolfwalker

E mais não digo para não tirar ao leitor o prazer de assistir a este filme de animação de recorte clássico, desenhado à mão como os mais emblemáticos desenhos animados de outros tempos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Banda sonora para o outono (40) - Sweet Billy Pilgram: "Wapentak"


Agora reduzidos a um duo, os Sweet Billy Pilgrim aproveitam para ensaiar uma viagem alternativa às texturas sónicas complexas (e sempre surpreendentes), rumo a canções simples e despojadas dos arranjos épicos que caracterizaram parte dos trabalhos anteriores.

Wapentak é um disco de canções gravadas quase sempre num registo acústico para realçar a melodia e a voz. E que canções, senhoras e senhores! Ouça-se Ash on the blacktop, Asking for a friend ou A shelter of reeds e entenda-se por que esta transformação intencional no som não representa uma descaracterização do projeto estético da banda, mas sim a exploração de uma música mais orgânica, romântica e melancólica. E, por que não, outonal.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Pablo Larraín (2) - "O Clube" (2010)


Numa esquecida aldeia costeira, algures no Chile, há uma casa que alberga quatro padres que a Igreja Católica quer esconder. São acompanhados por um freira que, à semelhança dos padres (pedófilos, violadores, homossexuais, confessores de torturadores), foi ostracizada por ter cometido pecados mortais. Todos apostam em corridas de galgos e convivem na superficial ilusão de que vivem em santidade. No entanto, transportam na alma um mal sem cura, a inconsciência da perfídia, a crença falsa de que tudo o que fizeram está justificado por Deus. Para eles, então, não há solução possível. 

Entretanto, recebem um novo hóspede, tão sinistro quanto eles, que comete suicídio à porta de casa. A Igreja envia um padre/psicólogo para investigar o que, de facto, aconteceu, mas que cedo descobre que, ali, naquela casa de horrores não há lugar para qualquer forma de redenção e que o mal absoluto se instalou confortavelmente. Deus há muito que parece ter-se esquecido daqueles homens. Ou, então, um universo que admite a possibilidade do mal é incompatível com o Deus teísta, não havendo teodiceia que justifique as ações daqueles homens.

domingo, 28 de junho de 2020

Pablo Larraín (1) - "Tony Manero" (2008)


Há um momento no filme Tony Manero em que o protagonista está na sala de estar de uma idosa a quem ele ajudou a regressar a casa, após uma agressão, fundamental para percebermos esta obra de uma violência em surdina, sempre latente: a mulher pergunta-lhe, com algum encanto, se ele sabia que os olhos do general Pinochet são azuis. Inesperadamente, Raúl Peralta - bailarino amador obcecado pela personagem interpretada por John Travolta em Febre de Sábado à Noite (1977), de John Badham - espanca a mulher até à morte. Trata-se de uma das cenas iniciais desta fita maior de Pablo Larraín, que nos coloca no Estado de Sítio que o Chile vivia nos anos 70 do século XX durante a ditadura feroz de Pinochet. Segundos antes, a mesma mulher tinha-lhe oferecido uma lata de atum fora de prazo, convidando-o a instalar-se confortavelmente no sofá, em frente a uma pequena televisão a cores. É esta novidade tecnológica, na altura, que reinstala o artifício: um regime impõe uma felicidade encenada e a cores. Raúl, homem de meia-idade frio e amoral, prefere o sonho americano vendido por Hollywood ao ritmo do disco sound.

Numa outra cena, a proprietária do bar de bairro, onde Raúl tenta recriar as coreografias do filme de Badham, diz-lhe que ele precisa de encontrar um emprego, até porque está a envelhecer e, um dia, ninguém se vai lembrar de Tony Manero e daquela música que não passa de uma moda passageira. Raúl responde: "Não é uma moda." É esta incapacidade em ler o real que faz de Raúl/Tony mero simulacro de um país em perda de identidade cultural. Aliás, o protagonista prefere a pop industrial dos Bee Gees à folk nacional.

Analisemos ainda outro momento do filme: Raúl vai ao cinema rever pela enésima vez Febre de Sábado à Noite, mas o filme já saiu de cartaz e foi substituído por outra película com Travolta, desta vez Grease (1978), de Randal Kleiser. Raúl não gosta dos personagens nem das canções, e descarrega a sua fúria no projecionista, assassinando-o e saindo da cabine de projeção com a bobine do filme de Badham. Em casa, procura ver os fotogramas à luz do candeeiro, como se aquela fosse a realidade para onde, definitivamente, Raúl se transmutou. 

Entretanto, este Tony chileno, que sonha em participar num concurso televisivo de imitadores de Travolta, vai deixando atrás de si um rasto de cadáveres, pessoas que vai assassinando como meio de materializar o sonho americano comercializado pelo regime chileno.

Raúl é desalmado, cruel e impiedoso; embora impotente, seduz a filha da amante; não hesita em eliminar a concorrência de outros imitadores, defecando num fato branco igual ao do Travolta dançarino de Febre de Sábado à Noite. Sempre de câmara à mão e imagem granulada, Larraín desconstrói a ditadura de Pinochet a partir de uma certa perceção simbólica do icónico filme de Badham.


sábado, 27 de junho de 2020

"Da 5 bloods" - apologia da inter-racialidade


Descobri o cineasta Spike Lee com o filme Do The Right Thing, corria o ano de 1989 e estava a terminar o liceu (por onde anda esta palavra, verdadeira referência identitária de uma adolescência quase adulta?). Alguns críticos referiam-se a Spike Lee como o Woody Allen negro, mérito das suas primeiras obras (She's Gotta Have It, de 1986, e School Daze, de 1988), onde, sendo já possível encontrar as marcas distintivas do seu cinema (e que iria apurar em obras posteriores), conhecíamos personagens urbanas intelectuais de classe média, as suas relações afetivas e dilemas existenciais embrulhados numa estética próxima dos primeiros clássicos do realizador de Annie Hall (1979) e Manhattan (1979). Rever hoje She's Gotta Have It ou Do The Right Thing é redescobrir comédias frescas, ousadas e, acima de tudo, livres. Sim, as melhores Spike Lee joints são aquelas em que se sente que o realizador está - à semelhança de Allen, Coppola, Kubrick ou Tarantino - a fazer realmente o filme que queria com total liberdade criativa.

Estamos em 2020 e o cinema já não é sinónimo de sala escura e grande ecrã. Spike Lee disse numa entrevista recente que fica estupefacto quando os seus alunos de cinema lhe contam que viram épicos de David Lean no telemóvel, e é essa a sensação do cinéfilo ao ver que o novo filme do autor de Jungle Fever (1991) foi concebido para a Netflix e não para o grande ecrã. Mas Da 5 bloods é cinema autêntico: uma comédia trágica americana filmada com o rigor e a sabedoria de um artista já veterano e o desprendimento experimental do jovem que assinou Do The Right Thing há mais de 30 anos.

Quatro velhos amigos, irmãos de armas na Guerra do Vietname, regressam a este país, 50 anos depois, para resgatarem o corpo de um soldado e recuperarem as barras de ouro que esconderam na selva vitenamita. Spike Lee intercala a narrativa principal com imagens de arquivo e com flashbacks dos cinco camaradas no inferno da guerra mantendo os atores sem qualquer rejuvenescimento (ao contrário, por exemplo, do artificialismo digital de O Irlandês (2019), de Martin Scorsese).

Que não restem dúvidas: este é o Spike Lee pregador, historiador especialista em african-american history, intelectual num perpétuo estado de angústia, mas também o artista otimista que vê claramente que Deus é Amor, que Ele está na beleza das canções de Marvin Gaye, na inter-racialidade e que só o Amor nos pode salvar enquanto indivíduos e enquanto espécie. Ah!, e há um Delroy Lindo no papel da sua vida. Só por ele, e pela garra da sua interpretação, já valia a pena ver este digno sucessor de BlacKkKlansman (2018) e - por que não dizê-lo - Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

"Feliz dia para morrer" - híbrido inútil de Christopher Landon


Há filmes assim, fabricados aparentemente sem propósito e sem rumo definido. Sim, porque se a finalidade de Feliz dia para morrer for entreter a baixo custo e enriquecer os seus investidores, a fita não parece sequer cumprir tais metas (embora os resultados no box office tenham revelado o oposto).

Trata-se de um produto híbrido - ora parece filme de terror, ora parece thriller e, por vezes, não se quer levar a sério (o que não seria mau) fingindo ser comédia (e a escatologia mais reles também passa por aqui).

E, no final, era apenas uma variação inútil do clássico de Harold Ramis, O feitiço do tempo.

P.S.: Escrevi este breve texto em 2018 e, entretanto, o filme em análise foi objeto de uma sequela assinada pelo mesmo realizador e com a mesma protagonista. Trata-se de um daqueles casos em que a réplica (desta vez a brincar com o clássico de Robert Zemeckis, Regresso ao futuro II) é bem melhor do que o modelo original, sendo um digno objeto de puro entretenimento.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

"The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story"


A segunda temporada da série "American Crime Story", do genial escritor e produtor Ryan Murphy, é um autêntico épico televisivo americano em 9 partes. Construído sob a forma de um gigantesco puzzle onde as peças se vão encaixando ao longo dos episódios, a narrativa nunca se torna redundante, respeita a singular complexidade das personagens e tem a originalidade de se centrar no elemento mais repugnante (e complexo) desta tragédia americana.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Banda sonora para tempos de pandemia (2) - Moon Halo: "Chroma"


Para os puristas do pop-rock certeiro, com pinceladas de rock progressivo, que há muito esperavam por um disco essencial sem canções a mais, aí está (em boa verdade, desde o início do ano) uma pérola que marcará, de modo indelével, as edições discográficas de 2020.

"Chroma", do projeto Moon Halo, liderado por Iain Jennings (dos Mostly Autumn) e Marc Atkinson (dos Riversea), está cheio de (apenas) boas canções. Ouça-se "Seize the day", "What's your name"ou "Rise up" e perceba-se porque é que este é um álbum viciante.

sábado, 9 de maio de 2020

"Um Pequeno Favor" - Darcey Bell, mais uma autora empenhada em imitar Gillian Flynn e Patricia Highsmith

Se Gillian Flynn já mereceu o estatuto de legítima herdeira (na forma e no conteúdo) do estilo narrativo de Patricia Highsmith, Paula Hawkins e Darcey Bell mais não são do que artesãs de sucedâneos de marca branca travestidas de autoras-sensação do momento.

Na verdade, a densa e complexa perversidade, o intenso negrume que contorna a alma humana (e que Flynn tão bem tem conseguido replicar nas suas obras), em Um Pequeno Favor (tal como na obra que popularizou Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio) fica reduzido a um grosso traço esquemático que tudo revela e nada esconde. Entediante!

Nota final: Curiosamente, o livro de Bell inspirou uma excelente adaptação cinematográfica hitchcockiana assinada por Paul Feig, provando, uma vez mais, que nem sempre o livro é melhor do que o filme. Há livros que, aparentemente, nasceram para servir esse propósito, o de germinarem bons filmes. De resto, Hitchcock fê-lo, exemplarmente, ao longo da sua extensa filmografia.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...