Quinto 007 interpretado por Daniel Craig. Segundo filme da série sob o olhar pretensamente negro e denso de Sam Mendes. Tentativa de recapitalização da humanização do agente secreto operada em Skyfall.
O problema é que Daniel Craig, no seu corpo danone, nunca nos convence de que é um agente ao serviço de sua majestade; sob o seu olhar gélido, a intimidade nunca chega à alma, ficando apenas à flor da pele. Como diz o meu filho, Craig parece-se demasiado com o estereótipo de um elemento da máfia russa.
Por sua vez, Sam Mendes anda a ganhar a vida. Faz bem. Por si, mas não pela sétima arte.
O episódio VII da saga Star Wars traz a assinatura de J. J. Abrams, cineasta herdeiro de Spielberg e Lucas. Escolha óbvia e acertada, portanto.
O filme foi fabricado nos estúdios da Disney e recupera o espírito aventureiro, romântico e despretensioso do primeiro tomo da série (na verdade, o episódio IV), dirigido em 1977 por George Lucas.
É comovente assistir ao reencontro entre Han Solo (Harrison Ford) e a Princesa Leia (Carrie Fisher), que torna também este novo opus numa rara oportunidade para apreciar um breve tratado sobre o tempo, made in Hollywood.
Há cineastas que aprendem a reforçar o seu estatuto de clássicos à medida que os anos passam. Steven Spielberg talvez seja o mais sublime e coerente da geração dos movie brats, o clássico dos clássicos, o verdadeiro herdeiro de John Ford (Lincoln, O Cavalo de Ferro), Howard Hawks (Sempre, O Resgate do Soldado Ryan), King Vidor (A Cor Púrpura, Terminal de Aeroporto) ou Vincente Minnelli (ET, Hook).
Veja-se A Ponte dos Espiões, drama profundamente humano em tempos de Guerra Fria, com o Muro de Berlim a ser edificado, para se constatar a discreta mestria de um cineastia que preza cada vez mais os silêncios e os atores. Tom Hanks torna-se o mais spilbergiano dos atores: um homem bom a fintar os determinismos da História. Uma obra-prima.
Filme digno em torno da luta das mulheres pelo direito ao voto, no início do século XX. Realização segura de Sarah Gavron e interpretação superlativa de Carey Mulligan. Não ganhou o Oscar de melhor atriz, nem sequer esteve nomeada, mas merecia.
Mr. Robot é uma montanha-russa. Uma série que prende tanto como confunde o espectador. Criada por Sam Esmail, que pensou em Mr. Robot como um filme, mas que depressa percebeu que tinha páginas a mais para o tempo de uma longa-metragem, a série conta a história de Elliot Alderson, um engenheiro especialista em segurança informática que vive uma vida dupla, tão sufocante como alucinante: durante o dia, trabalha numa grande empresa de segurança cibernética em Nova Iorque; à noite, faz o oposto: não protege quaisquer redes, mas corrompe-as, fazendo parecer fácil o que não é. Elliot é um hacker, consegue entrar em tudo: computadores, smartphones, emails, redes sociais, contas bancárias. É isto que faz e é nisto que é bom. Esta é, aliás, a única forma de saber mais sobre pessoas que o rodeiam. Ele, que sofre de distúrbio de ansiedade social, não é muito bom nas relações interpessoais e o computador é a forma de conhecer quem de si se aproxima. Não é eticamente correto, mas é a única forma de conseguir alguma intimidade com o outro.
Elliot pode muito bem ser o herói do século XXI: tem uma causa maior, a mudança de um sistema financeiro e político viciado, ao mesmo tempo que vai fazendo justiça com pequenos casos aqui e ali. Descobre, por exemplo, que o dono de um restaurante onde se ligou à Internet através de wi-fi é pedófilo, fazendo chegar à polícia as provas que o incriminam. Mas, outras vezes, vasculhar a vida dos outros é a sua forma de se encaixar no mundo, e isso faz de Elliot um anti-herói. Até porque nem sempre sabemos quais as suas reais intenções. Desde logo, com o seu ódio à multinacional E Corp (Evil Corp, para Elliot), que o rapaz culpa pela leucemia que matou o seu pai. Ora, é quando Elliot é contactado por um homem misterioso, que se autointitula de Mr. Robot, que tudo fica mais confuso. Mr. Robot quer Elliot no seu grupo secreto, o fsociety, para que juntos possam abalar o sistema, chegar aos 1% dos 1%. Como? Começando desde logo por atacar a E Corp e fazer desaparecer as dívidas de toda a gente.
Em Mr. Robot, nunca nada é bem o que parece. Tal como na vida real.
Na altura em que se assinala os seus 70 anos, que comemorou oficialmente em 24 de outubro, a ONU lançou um roteiro para um mundo perfeito. Tem 17 objetivos, 169 metas para o desenvolvimento sustentável e é uma espécie de guia utópico para mitigar as imperfeições universais.
Um mundo sem fome, guerras, corrupção, discriminação? Tiranos, guerreiros ou corruptos votaram por ele. Desde que não os obriguem a confundir desejos e realidades. Já foi, e ainda assim é, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948: "Todo o ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal"; "Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado". Desejos louváveis, não realidades!
Que a ONU os aprove e deles faça guia, compreende-se e aplaude-se. Mas era preferível que os seus membros começassem a olhar seriamente para os seus atos e a corrigir o que neles torna nulo o efeito de tais palavras. Seria uma melhor celebração, com tal começo.
Um professor de Filosofia a deambular por entre as malhas do existencialismo, encontrando apenas o vazio no absurdo da existência, descobre novo alento na perspetiva de um crime que o posiciona para além do bem e do mal, qual Nietzsche renascido para a tentativa de se tornar super-homem.
Podemos sintetizar assim o argumento do novo filme de câmara de Woody Allen. Muito se tem questionado acerca da (in)utilidade de alguma da filmografia mais recente do autor nova-iorquino, parecendo até que algum prazer há em desvalorizar e zurzir películas como Homem Iracional. No entanto, compare-se esta obra com a maioria das fitas-pipoca que têm invadido as salas de cinema nos últimos vinte anos; compare-se também com outros filmes de Allen (A Maldição do Escorpião de Jade, Vigaristas de Bairro, Vicky Cristina Barcelona ou Magia ao Luar); de seguida, analise-se Homem Irracional como pièce de résistance singular na obra de um artista cuja curadoria e conservação dificilmente encontrará, um dia, alguém à altura.
Está lá o jazz (insistência em The in-crowd), o protagonista deprimido (Joaquin Phoenix num registo inusual no universo de Allen), a jovem idealista (reencontro de Allen com Emma Stone), a caução literária (Dostoievski, pois claro!) e a reflexão ética (com direito a aulas de Filosofia e tudo!). Com olhar sábio e mão de mestre. Um dos grandes filmes do outono passado.
Saúda-se o regresso de M. Night Shyamalan ao Cinema (assim mesmo, com C maiúsculo). A Visita é um clássico instantâneo: comédia de terror, o (in)esperado twist final impede A Visita de poder ser um filme para toda a família. Ainda bem, uma vez que a aparente simplicidade da narrativa e a ausência de efeitos especiais constituem marcas maiores de um autor que nos trouxe obras tão memoráveis quanto O Sexto Sentido, O Protegido, Sinais, A Vila e O Acontecimento.
Filmado com a estética found footage, A Visita supera todas as obras com esse formato. É que Shyamalan confere a alma que falta aos produtos de outros aspirantes a cineasta. A fita em análise tem personagens e verdadeiros atores (ainda que sem vedetas).
Dois irmãos adolescentes vão passar alguns dias com os avós que nunca conheceram. Apesar do carinho com que são recebidos, os netos ficam perplexos quando lhes é dito que não podem sair do quarto depois das 21h30. Decididos a desvendar a razão de tal interdição, descobrem que os avós não são os velhinhos encantadores que pareciam à primeira vista.
A história, além de apontamentos autobiográficos (a personagem de Rebecca, a irmã mais velha, é quase um alter ego de Shyamalan), mantém as referências spielbergianas (a ausência incompreendida da figura paterna) que já havíamos visto em O Sexto Sentido, e consolida a reputação de M. Night Shyamalan como esteta e autor maior.
Se os ouvidos do século XXI estivessem para aí virados, Jose James não seria apenas catalogado como músico de jazz (o que, em boa boa verdade, já não é pouco) - com muitos fãs conquistados numa carreira que ainda vai em meia dúzia de anos, convém salientar - e passaria a ter o estatuto de artista global, que bem merece, tanto pela substância das canções contidas nos seus três álbuns como pela diversidade estética de que se mostra capaz a cada novo disco.
No mais recente Yesterday I Had The Blues - The Music Of Billie Holiday, Jose James homenageia a diva da música negra norte-americana de forma simultaneamente reverente (o respeito pela melancolia das canções originais) e irreverente (as interpretações de James conferem novas formas ao espólio selecionado, levando o ouvinte a facilmente esquecer que estas canções foram celebrizadas pela voz de Billie Holiday).
Apesar dos 150 anos da ratificação da abolição da escravatura nos Estados Unidos da América (foi em 1865) se terem assinalado no dia 6 de dezembro, a organização não-governamental Walk Free Foundation garante que em 2014 ainda existiam perto de 35,8 milhões de escravos no mundo (recorde-se que em 2013 eram 29 milhões).
Índia, China, Paquistão, Uzbequistão e Rússia são os países que concentram mais escravos (61% do total), mas o pior país em termos de prevalência da escravatura foi, tanto em 2013 como em 2014, a Mauritânia, com 4% da população em situação de escravidão, num total de 155.600 pessoas.
Aquecimento global, terrorismo, fanatismo religioso, crise económica global, escravatura... Serão estas as marcas do século XXI na História? No dia em que se comemora a Declaração Universal dos Direitos do Homem, urge refletir sobre o mundo e a humanidade que queremos legar às futuras gerações. Para nós, a solução reside na Educação, ou, como diria Clint Eastwood, em deixarmos filhos melhores para o nosso planeta.
O telefonema do avô a convidar filhos e netos para um almoço em família. Convite matinal. Compromisso inevitável.
13 horas. Leça da Palmeira. Porto de abrigo de afetos, sonhos, amizades, vivências, crescimento físico e interior. A mesa já posta. O reconfortante aroma da comida, quente essência odorífera que abre o apetite e faz esquecer o apressado pequeno-almoço tardio. O cão minúsculo, mas sonoro, aos saltos, a tentar competir com os mais novos membros da família. Em vão.
Os dois sobrinhos são a nova infância da família. Irmãos. Irmã e irmão. Ela observadora, personalidade resguardada. Ele frenético, extrovertido - chegaste, se quiseres podes brincar; se não quiseres, também não importa! -, de carrinho na mão (objeto que passou de geração em geração: foi meu, do meu irmão, passou para o Tomás e agora para o Mateus), pontapé ocasional ao cachorro, logo aconchegado pela avó.
Com tardes assim, não há tristeza ou carência que não esmoreça. Só faltavas tu, amor!
Um dos grandes filmes do Ano da Graça de 2015 vem sob a forma de filme de terror. Assinado por uma jovem promessa, David Robert Mitchell, cineasta com mão segura e olhar firme, Vai Seguir-te é uma película com escola por trás - saltam à memória obras de John Carpenter (a banda sonora explicita essa referência), David Lynch (a adolescente loira de Veludo Azul), Stanley Kubrick (os travellings circulares e os corredores com as portas abertas) e Brian de Palma (os longos silêncios logo na primeira aparição da protagonista, a boiar na piscina e a mirar-se ao espelho).
A metáfora sexual (típica dos filmes do género) - no presente caso, de doenças sexualmente transmissíveis - é evidente: Jay, uma adolescente que vive nos cinzentos subúrbios de Detroit, é perseguida por uma maldição que lhe foi passada no banco de trás de um carro; trata-se, portanto, de uma maldição sexualmente transmissível, que ganha corpo na figura de um ser sobrenatural que só ela consegue ver, que regularmente muda de feições, que a persegue por todo o lado e que só vai parar quando a conseguir matar.
Os enquadramentos aproximam-se da genialidade e a interpretação de Maika Monroe (à semelhança da intensa performance de Essie Davis em O Senhor Babadook, de Jennifer Kent) é extraordinária, comprovando que o cinema de terror pode ser um tour de force emocional para os atores.
O verdadeiro cérebro dos polémicos cartazes do PS parece ter sido Vítor Tito. Recorde-se que, além de uma desempregada do tempo de Sócrates, os cartazes apresentavam fotos de funcionários de Junta de Freguesia que não sabiam ao que íam (aliás, uma disse mesmo que não autorizara tal uso).
Galveias, o mais recente romance de José Luís Peixoto, é um ato de amor: um poema em forma de prosa, uma ode à sua terra natal e às suas gentes.
"Por todas as crianças que deixaram a infância naquelas ruas, por todos os namoros que começaram em bailes no salão da sociedade, por todas as promessas feitas aos velhos que se sentavam nos serões de agosto, por todas as histórias comentadas no terreiro, por todos os anos de trabalho e de pó naquela terra, por todas as fotografias esmaltadas nas campas do cemitério, por todas as horas anunciadas pelo sino da igreja, contra a morte, contra a morte, contra a morte (...)."
Em boa verdade, Galveias é um tratado contra a morte da memória; uma carta de amor às raízes, à terra, à família, aos vizinhos, ao povo e aos amigos de infância. Uma obra literária para memória futura. Um clássico que há de ser de leitura obrigatória.
A estreia de Diogo Morgado como protagonista de uma série de televisão norte-americana dificilmente poderia ter sido pior. A série em causa tem por título The Messengers e parece ter sido financiada por uma qualquer seita religiosa, das muitas que pululam nos media norte-americanos.
Inspirada no apocalipse de S. João, os 13 espisódios narram a tentativa de um grupo de mensageiros de Deus em travar a destruição da humanidade pelos quatro cavaleiros do apocalipse. O objetivo dos anjos é impedir que os cavaleiros quebrem os quatro selos. Pelo meio, são ameaçados e ajudados (sim, ajudados!) pelo diabo (que aqui tem a aparência de Diogo Morgado).
O argumento é um melting pot de teologia barata, ciência de bolso e moralismo de pacotilha. Os atores são péssimos, desajustados das personagens, muito mal caracterizados e risíveis de tão canastrões. Parecem ter sido excluídos de todos os castings, menos deste. E o pior é que não há por aqui qualquer vestígio de humor, é sempre tudo muito sério e dramático quando não há história nem guião que sustente o indispensável pathos. À maneira dos clássicos de Ed Wood, podia ser tão mau que acabasse por ser muito bom. Mas para isso teria que haver mão inteligente e bem humorada. O que os Monty Python não fariam com este material!
"Quando a oposição esteve no Governo, foi um desgoverno para o nosso país. (...) Não podíamos continuar como estávamos. Os portugueses não comem TGV, os portugueses não comem auto-estradas, nem comem dívidas. Têm de as pagar e suportar e, por isso, não se esquecem desse tempo em que se preparou esta crise que agora vencemos." (Julho de 2015)
Panagiotis Lafazanis, o ministro de Tsipras que se demitiu logo após a aprovação do novo acordo, em julho último, revelou que existia um plano do Syriza para dar um "golpe de Estado financeiro" na Grécia. Segundo Lafazanis, os radicais do Syriza iriam tomar pela força, visto ser um processo ilegal, as reservas em notas que estavam no Banco Central da Grécia, cerca de 20 mil milhões de euros. O governador do banco seria preso pelas forças revolucionárias durante o processo. O dinheiro serviria, segundo os esquerdistas radicais, para financiar o regresso ao dracma, visto que a Grécia não tinha sequer dinheiro para imprimir a nova moeda.
Quantos esquerdistas não desejariam que o mesmo acontecesse em Portugal?
Um mundo sem fome nem pobreza extrema. Sem sida, sem malária, sem tuberculose. Com educação gratuita para todos. Onde as mulheres não são discriminadas nem agredidas. Onde todos têm acesso a água potável, saneamento e energia moderna. Um mundo com mais renováveis e mais eficiência energética. Com crescimento económico e emprego universal. Em que as cidades e os transportes são verdes. Com mais indústrias e menos poluição. Com os ecossistemas conservados. Em paz e livre da corrupção.
É este o mundo idílico que a ONU aspira atingir dentro de apenas 15 anos. Está tudo numa ambiciosa agenda para o planeta até 2030, que será adotada na cimeira mundial que começou na sexta-feira, dia 25 de setembro, em Nova Iorque e que coincide com o 70º aniversário das Nações Unidas. É uma nova e ampla lista de intenções (que substituem os oito Objetivos do Desenvolvimento do Milénio, adotados em 2000 e que expiram este ano) rumo ao desenvolvimento sustentável.