sexta-feira, 20 de novembro de 2009

"Um Conto de Natal" - Charles Dickens revisitado por mão de Mestre


Para os cinéfilos mais atentos já há muito que Robert Zemeckis é considerado um cineasta de corpo inteiro. Herdeiro de realizadores clássicos como Victor Fleming, Frank Capra ou William Wellman, Zemeckis faz parte de uma linhagem de artesãos que, sabiamente, sempre conseguiram aliar a Arte à Indústria. A sua carreira já vai longa e passa por todos os géneros cinematográficos, movendo-se sempre com elevada capacidade de mise-en scène.

"Travões Avariados, Carros Estampados" (1980, comédia dramática), "Em Busca da Esmeralda Perdida" (1984, acção/aventura), "Regresso ao Futuro" (1985, ficção científica), "Forrest Gump" (1994, drama), "A Morte Fica-vos Tão Bem" (1992, comédia), "Contacto" (1997, ficção científica) e "A Verdade Escondida" (2000, thriller/terror) são algumas das obras de Robert Zemeckis, todas elas fitas marcantes e incontornáveis em qualquer análise do cinema norte-americano durante esse período de 20 anos (1980-2000).

Mas Zemeckis tem-se afirmado também como o mais importante realizador de cinema de animação contemporâneo, propondo-se revolucionar o cinema digital a cada nova incursão por esse género. Senão vejamos: "Quem Tramou Roger Rabbit" (1988, e uma das obras-primas da respectiva década); "The Polar Express" (2004, e completamente inovador na fusão entre actores reais e a sua versão animada); "Beowulf" (um dos dez melhores filmes de 2007) e o recém-estreado "Um Conto de Natal", adaptação do conto imortal de Charles Dickens, por diversas vezes adaptado ao cinema, mas nunca com o rigor da última aventura de Zemeckis.

"Um Conto de Natal" é uma narrativa moral cujo protagonista, Ebanezer Scrooge, é um velho avarento que despreza o Natal. Precisamente na madrugada de 24 de Dezembro recebe os fantasmas dos Natais passado, presente e futuro. Scrooge descobre que, perante todos os erros que cometeu ao longo da vida, só lhe restam duas opções: ou luta pela sua redenção ou pica o bilhete que o levará para o Inferno.

Com imagens 3D animadas por computador a partir dos desempenhos de actores de carne e osso (Jim Carrey está estupendo no papel de Scrooge), e num registo mais negro que nunca (o trabalho de iluminação é brilhante), a realização de Zemeckis distingue-se das adaptações anteriores do mesmo conto de Dickens, como "Scrooge" (1951), de Brian Desmond Hurst, ou "S.O.S. Fantasmas" (1988), de Richard Donner (obra protagonizada pelo grande Bill Murray, e que trocava a Londres da Revolução Industrial pela Nova Iorque dos anos 80, excelente filme, aliás, a necessitar de urgente reavaliação).

"Um Conto de Natal", de Robert Zemeckis, é uma obra-prima, um filme mágico e adulto, que só não encantará aqueles que nunca tiveram a capacidade para descobrir as razões pelas quais o Cinema é justamente considerado a Sétima Arte. Mas acima de tudo, uma arte popular destinada a todos os públicos.

Trailer de "Um Conto de Natal", de Robert Zemeckis

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