Como muitas outras pessoas da minha geração, descobri o cinema de Tony Scott com a sua segunda longa-metragem, Top Gun (1986). Escusado será descrever a forma como tal espetáculo visual me impressionou aos 14 anos de idade. Nunca tinha visto nada que se comparasse àquele sedutor objeto filmado nos céus. Claro que o filme fez mais pela carreira de Tom Cruise e pela reputação da Força Aérea do que pela Sétima Arte. Mas não devemos desvalorizar Top Gun por pretender ser tão e somente um (muito bom) entretenimento, dado que o cinema é, acima de tudo, uma arte de massas e é nessa matriz popular que devemos incluir uma parte considerável da filmografia de Tony Scott. Neste sentido, O Caça-Polícias 2 (1987), Dias de Tempestade (1990), A Fúria do Último Escuteiro (1991), Adepto Fanático (1996), Domino (2005) e Imparável (2010) permanecerão enquanto objetos exemplares da arte de criar grandes espetáculos sem perder marcas autorais. Na verdade, é na forma de filmar que o cinema de Tony Scott sempre se distinguiu dos demais: câmara precisa mas sempre em movimento, uma montagem frenética, personagens definidos nos primeiros cinco minutos de filme, violência crua e doses de testosterona em personagens herdeiros da filmografia viril de um Howard Hawks ou de um Samuel Fuller.
No entanto, Tony Scott foi revelando uma urgência de complexidade em muitas outras películas, sendo altura de rever e revalorizar obras como Fome de Viver (uma inovadora história de vampiros realizada em 1983 e que ainda hoje empalidece as recentes revisitações da história criada por Bram Stocker; é também um filme pop protagonizado por um impressionante David Bowie e uma belíssima Catherine Deneuve), A Vingança (um drama adulto e intensamente violento, realizado em 1990), True Romance (obra crua de 1993, a partir de um guião de Quentin Tarantino), Maré Vermelha (drama de cortar a respiração, com dois excelentes Denzel Washington e Gene Hackman; 1995), Inimigo Público (pesadelo orwelliano que nos revelou todo o potencial político da internet; 1998), e três outros filmes que prolongam uma das associações artísticas mais bem sucedidas do cinema norte-americano, isto é, aquela que uniu em amizade e em trabalho, Tony Scott e Denzel Washington: Homem em Fúria (2004), Déjà Vu (2006) e Assalto ao Metro 123 (2009). Os dois colaboraram em 5 filmes de qualidade superlativa.
Foi com realizadores como Tony Scott que a indústria de Hollywood construiu uma série de obras que hoje estão inscritas na memória coletiva. Apesar de uma ou outra fita menor (tal como outrora também artesãos como Michael Curtiz ou Henry Hathaway tiveram alguns tiros ao lado), Tony Scott ficará, com certeza, na história do cinema como um realizador visionário, singular e - esperemos - incontornável.

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