Finalmente, alguém em Hollywood decidiu não temer a caução filosófica e construir um filme singular sob o signo de Noam Chomsky.
Realizado por Matt Ross, Capitão Fantástico narra a história de uma família norte-americana que vive em comunhão com a natureza, numa espécie de paraíso perdido, longe da civilização capitalista. O patriarca (o sempre natural Viggo Mortensen, que, este ano, esteve nomeado por este papel ao Óscar de Melhor Ator) educa de forma exigente os seis filhos, ensinando-lhes Filosofia, Literatura, História, Matemática, Arte, exercício físico e técnicas de sobrevivência. No entanto, a morte da matriarca vai obrigar pai e filhos a regressar à civilização consumista e a constatar que os anos de isolamento social distanciaram aqueles desta.
Enquanto assistia ao filme, outra película saltou-me à memória: o esquecido A Costa de Mosquito, realizado por Peter Weir em 1986. Todavia, apesar dos méritos evidentes do filme de Matt Ross, a comparação não abona a seu favor. Viggo Mortensen está sempre no tom certo; os filhos são representados por jovens atores de forma superlativa; contudo, a reatualização de Coração das Trevas por Peter Weir (que, por sua vez, adaptava um romance de Paul Theroux) é eletrizante e, ao invés de Capitão Fantástico, nunca resvala para o drama adolescente. Não se depreenda daqui que a fita de Ross cede em algum momento a algum tipo de facilitismo, mas sim que esta possibilidade de encenar A República de Platão no século XXI opta deliberadamente por evitar a tragédia, resignando-se, de algum modo, à inevitabilidade da civilização que pretende criticar.

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