domingo, 18 de setembro de 2011

"You will meet a tall dark stranger" - um Woody Allen vintage

Para adocicar ainda mais a vontade de ir ao cinema ver o último filme de Woody Allen ("Midnight in Paris"), nada como (re)ver a sua película anterior, "Vais conhecer o homem dos teus sonhos" (tradução portuguesa do título que introduz este post). A fita acompanha um par de casais, Alfie (Anthony Hopkins, num subtil cameo de Allen) e Helena (Gemma Jones sempre no tom certo), a filha destes, Sally (Naomi Watts a adaptar-se com segurança ao universo do cineasta) e o marido, Roy (Josh Brolin num registo perfeito), cujas paixões, infidelidades, atribulações, ambições e - ou não fosse este um filme do frenético Woody Allen - ansiedades os metem em sarilhos e os aproximam da insanidade. 

Em "Vais conhecer o homem dos teus sonhos" é fácil encontrarmos um sem número de referências a outras obras do mesmo realizador, nomeadamente "Scoop" (o fascínio pela cartomância e pela sua desconstrução) e "Poderosa Afrodite" (a hilariante prostituta que casa com Alfie), o que, em si mesmo, é já um garante de que se trata de uma comédia dramática escrita e dirigida com rigor e classe por aquele que é talvez o cineasta norte-americano mais coerente das últimas cinco décadas. É verdade que a película em análise está longe da originalidade de obras-primas como "Annie Hall", "Ana e as suas irmãs", "Os dias da rádio", "Crimes e escapadelas" ou "As faces de Harry", mas não se pense que se trata de um Allen menor (como quase todos os filmes que o cineasta assinou entre 2000 e 2009), bem pelo contrário. É, repito, uma obra onde o amor de Woody Allen pelas cidades (o filme marca o regresso do realizador a Londres), pelos seus personagens, repletos de amor, paixões e fraquezas, garantem ao espectador 90 minutos bem passados, plenos de empatia e identificação com os dramas e escolhas (por vezes irreversíveis) dos dois casais que protagonizam o filme.


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

GAEDE - projeto selecionado pelo IES


Já há 18 meses que o GAEDE (http://bebegaede.blogspot.com) foi escolhido como projeto de relevância pelo Plano Nacional de Leitura - Ler + Teatro. Basta consultar o respetivo site para encontrar uma breve história do nosso tão querido grupo de expressão dramática. Agora, após 6 espetáculos originais ("O Muro", "A Morte Não Existe", "O Eterno Retorno", "Ontem à noite, uma criança sonhou...", "Luz" e "Civilização"), fomos escolhidos pelo Instituto de Empreendedorismo Social (IES) como uma das 365 iniciativas mais interessantes no distrito do Porto. 

O GAEDE tem sido um projeto por onde têm passado muitos jovens que aqui têm deixado a sua marca e - mais importante ainda - transportam a experiência nos seus corações. A todos um bem-haja.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Banda sonora para o verão (20)

Patti Smith, símbolo maior da história do rock, acaba de atacar em duas frentes com a edição simultânea de um belíssimo (e poético) livro autobiográfico ("Apenas Miúdos") e de um interessantíssimo CD que sintetiza a sua obra discográfica. É precisamente a propósito do lançamento do disco "Outside Society" que nos referimos aqui àquela que é talvez a última artista hippie

Poetisa punk idolatrada por muitos, mulher apaixonada com uma história cheia de vida, Patti é também uma cantora de exceção, com uma inclinação mais pop do que muitos fãs gostam de admitir. Na verdade, se atentarmos nos momentos mais fortes da sua carreira (nomeadamente, os singles "People Have The Power" e "Because The Night") teremos que admitir a vocação comercial de uma parte considerável dos dez álbuns que constituem a discografia de 35 anos de Patti Smith. São poucos discos em tanto tempo, mas mais que suficientes para terem sido a inspiração de muitas cantautoras do calibre de Suzanne Vega, Siouxie ou P. J. Harvey.

A antologia "Outside Society" abre com o icónico "Gloria", aqui na sua melhor versão. A garra punk encontramos logo no primeiro verso da canção: "Jesus died for somebody's sins but not mine". As palavras são de Van Morrison, mas Patti Smith, com o seu canto afectado e algo visceral, torna-as suas. O libreto que acompanha o CD é lindíssimo, com anotações sobre cada canção assinados pela autora, o que contribui indubitavelmente para fazer deste objeto uma peça de coleção obrigatória na cdteca de qualquer melómano.

Patti Smith - "Because The Night"


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Time (2) - para acabar de vez com as dietas

A TIME, na edição desta semana, faz capa com um artigo de fundo assinado pelo popular Dr. Mehmet Oz, que se propõe refutar todos os mitos sobre os alimentos e, em especial, as dietas milagrosas. A prosa é esclarecedora e prendeu-me à sua leitura da primeira à última linha - isto vindo de uma escriba que nunca ligou patavina a semelhantes peças jornalísticas (sim, a TIME só publica textos de grande jornalismo). No final, chegamos à conclusão de que as nossas mães é que tinham razão: deve-se comer de tudo um pouco. O segredo está na moderação.

domingo, 11 de setembro de 2011

9/11 - 10 anos depois da tragédia

Em 11 de Setembro de 2001 perderam-se três mil vidas no ataque ao World Trade Center, em Nova Iorque. Nesse dia, a realidade superou a ficção através de um acto irracional que abalou uma civilização - a ocidental - responsável pelo mais belo texto alguma vez escrito: a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Não o esqueçamos para que, tal como o Holocausto, nunca mais se repitam estas tragédias provocadas por decisão humana.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Leituras de Verão (2) - "Vício Intrínseco", de Thomas Pynchon

Poucos escritores se podem orgulhar de agregar em torno de si uma legião de fãs que o transformam num autêntico fenómeno de culto. E se tivermos em conta que o autor é responsável por um punhado de romances assumidamente underground (quer na forma, quer no conteúdo), o feito é ainda mais surpreendente. Não podemos afirmar perentoriamente que esse culto seja totalmente involuntário. Na verdade, Pynchon tem-no alimentado ao não se expor em fotografias e fugir das entrevistas a sete pés.

Invariavelmente apontado como um dos autores favoritos ao prémio Nobel, Pynchon é - e que não restem dúvidas acerca da qualidade das suas obras literárias - considerado uma das vozes mais influentes da literatura norte-americana e, como tal, já conquistou um National Book Award. Em "Vício Intrínseco", a sua mais recente novela, Pynchon constrói um policial em tons noir protagonizado por Doc Sportello, um detective privado que pode ser visto como a versão psicadélica de Philip Marlowe (sempre envolto numa névoa de marijuana e LSD). Por entre o clássico desvendar do mistério - neste caso, o desaparecimento de um magnata da construção civil e da sua amante - não faltam as femmes fatales, polícias, advogados e políticos corruptos e, cereja no topo do bolo, reflexões filosóficas em torno de grandes questões metafísicas, aqui envoltas em trips psicadélicas e embaladas por muito surf rock.

"Vício Intrínseco" é uma obra-prima sobre o o fim do grande sonho hippie. Um livro obrigatório!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

TIME (1) - a Somália também somos nós (2)


A melhor revista do mundo, a TIME, traz na edição desta semana uma reportagem profunda sobra a tragédia que milhares de seres humanos estão a viver na Somália. Com o título Collateral Crisis, o artigo é assinado por Alex Perry e analisa todas as causas (políticas, sociais, étnicas, geográficas, ecológicas) do drama humanitário, ao qual, estranhamente (sinal dos tempos?), a imprensa portuguesa não tem, salvo raras excepções, dado o ênfase que o acontecimento naturalmente merece. 

A premissa do texto de Perry é a seguinte: de que forma uma bem sucedida campanha para encurralar terroristas islâmicos na Somália contribuiu para uma fome catastrófica que poderá matar milhares de pessoas? São dez páginas de informação e imagens absolutamente esclarecedoras e aterradoras. A ler, obrigatoriamente, porque num mundo globalizado a Somália bem pode ser já aqui ao lado.

domingo, 4 de setembro de 2011

Banda sonora para o Verão (19)

O disco "Retropolitana", dos GNR, foi aqui banda sonora para o Verão há um ano atrás [consultar Banda sonora para o Verão (13)]. Agora, "Voos Domésticos", revisão de trinta anos de carreira do grupo portuense, tem rodado insistentemente no leitor de CD cá de casa. Não se trata de uma mera colectânea, mas sim de canções antigas com novas roupagens e um tema inédito que serve de mote ao título do álbum. Em boa verdade, estamos perante um LP novo, uma vez que estas versões têm a capacidade de transformar canções que já conhecíamos, dando-lhes uma nova vida. Ouça-se, por exemplo, o tema de abertura, "Cais", e perceba-se porque estamos perante o melhor disco dos GNR desde a pérola "Popless" (2000).

"Cais" - GNR

sábado, 3 de setembro de 2011

"The Music Never Stopped" - um filme discreto e subtil

"The Music Never Stopped" é a adaptação para o grande ecrã de um ensaio do popular neurologista Oliver Sacks. Não é o primeiro caso real estudado por este cientista a ser transposto para o cinema - "Despertares", da realizadora Penny Marshall, talvez seja o filme de maior sucesso a ter como ponto de partida uma obra de Sacks. 

A película que agora se analisa é o retrato emocionante de um homem que, devido a um tumor cerebral, perde a capacidade de reter novas memórias, recordando-se apenas das informações registadas na memória a longo prazo. No entanto, o trabalho de uma musicoterapeuta vai reconduzi-lo a lembranças da sua adolescência e à redescoberta do pai, de quem se tinha afastado durante cerca de vinte anos. A realização discreta, quase em surdina, concede espaço aos actores para desenvolverem os seus personagens de forma subtil, tornando este num daqueles filmes que se vai entranhando ao longo de cerca de duas horas. A banda sonora merece uma chamada de atenção, uma vez que esta fita acaba por ser também uma celebração do rock das melhores bandas (The Beatles, Greatful Dead, Buffalo Springfield) e cantautores (com destaque para Bob Dylon) da década de sessenta.

"The Music Never Stopped" é assinado por Jim Kohlberg, que tem aqui o seu debut como realizador que reclama, de ora em diante, a nossa atenção.

Trailer de "The Music Never Stopped"





sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Leituras de Verão (1) - "A Questão Finkler", de Howard Jacobson

Howard Jacobson é um escritor britânico de origem judaica, pormenor identitário fundamental para compreender o seu último romance, "A Questão Finkler", aliás vencedor do Man Booker Prize 2010 (talvez o maior prémio atribuído a um autor de língua inglesa).

O livro que aqui se analisa e recomenda é uma reflexão, ao mesmo tempo, filosófica, teológica e política servida com um sentido de humor apuradíssimo, como só alguns escritores ingleses conseguem (vem-me à memória o nome de David Lodge, de cujos romances cáusticos os protagonistas do livro de Jacobson parecem ter saído). A história centra-se em Julian Treslove, um homem algo acéfalo em plena crise de identidade. Julian nunca se casou, embora tenha dois filhos que detesta; os seus melhores amigos são dois judeus bem-sucedidos na vida, que perderam recentemente as suas esposas, e de quem Treslove sente uma profunda inveja por representarem tudo aquilo que ele não é. Quando os três se encontram, discutem invariavelmente sobre questões relacionadas com o judaísmo e o conflito israelo-palestiniano, apesar de Julian desconhecer o que é ser judeu. Após um desses encontros, enquanto regressa a casa, Treslove é assaltado por uma mulher que, aparentemente, lhe chama judeu. A partir dessa ocorrência, o protagonista passa a viver obcecado com o facto de ser um não-judeu mas que, provavelmente, tem o judaísmo como demanda espiritual e destino. 

Não se pense que esta é uma obra moralista, preocupada com uma mensagem à humanidade ou cujo centro narrativo seja, uma vez mais, abordar as consequências do Holocausto sobre o Mundo e o povo judeu, em particular. Pelo contrário, trata-se de um romance que saiu da pena de um intelectual judeu que aqui desmoraliza e até corrói os fundamentos de qualquer forma de extremismo (pró ou anti-semita), não poupando quer aqueles que vêem Israel como o início de uma conspiração sionista, quer os que defendem que qualquer meio é justificável se tiver como fim compensar o povo hebreu do êxodo e desprezo a que foram votados ao longo de milénios de história humana.

"A Questão Finkler" é um livro de leitura obrigatória não apenas para quem quer compreender as grandes questões do nosso tempo, mas também para quem aprecia literatura em estado de graça. Um livro inspiradíssimo!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Banda sonora para o Verão (18)

Jon Anderson é, sobretudo, conhecido por ter sido durante cerca de quatro décadas vocalista e letrista dos Yes, uma das maiores bandas de rock progressivo de sempre. No entanto, é dono e senhor de um registo vocal único e de uma interessante carreira discográfica a solo, destacando-se os álbuns "Olias of Sunhillow", "Song Of Seven" e "Animation". Pelo meio colaborou com compositores como Vangelis (com quem co-assinou quatro álbuns memoráveis), Rick Wakeman (também do colectivo Yes) e Kitaro (apesar das boas intenções político-sociais,  "Dreams" é um disco menor).

Anderson acaba de editar "Survival and Other Stories", um álbum lindíssimo, capaz de nos transportar para um domínio transcendente através de onze canções de um misticismo profundo e encantatório. Além disso, consegue ser um disco de Verão, quente, bem quente, demonstrando que nem só de canções descartáveis se pode viver com alegria a silly season. Esta obra surge na sequência de um período de convalescença do autor, bem como do repto que este lançou no seu site oficial solicitando compositores para com ele colaborarem num novo disco. O resultado é simplesmente o melhor LP da carreira de Jon Anderson, assim como um dos discos a figurar na lista dos melhores de 2011.

Jon Anderson - "Unbroken Spirit"

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"Uma Noite Em Nova Iorque" - um livro de Tiago Rebelo

Na senda de inúmeros escritores norte-americanos, cujo exemplo maior talvez seja Nicholas Sparks, surgiram uma série de romancistas cá no burgo procurando, através de uma literatura light, replicar o sucesso dos primeiros. Têm sido, por isso, publicados um infindável número de obras literárias que designaria por neo-romantismo, cujo alvo (fácil) são, sobretudo, mulheres sem hábitos de leitura exigentes. Todavia, por entre essas publicações, aparecem nos escaparates, de vez em quando, uma ou outra obra digna de referência. É nesse sentido que aqui me ocupo da divulgação de "Uma Noite Em Nova Iorque", o novo romance de sucesso de Tiago Rebelo. Trata-se de um romance simples mas bem construído, cujo centro narrativo se divide por seis personagens que, de algum modo, se vão entrecruzar, precisamente na big apple.

O romance de Tiago Rebelo lê-se com agrado durante uma tarde de Verão numa esplanada à beira-mar. Trata-se de um romance cinematográfico, em que o argumento está todo lá a pedir por cineastas que queiram pegar nele. Só é pena o autor nem sempre evitar os lugares-comuns em que aprisiona os seus personagens (o cantor pop estereotipado, o primeiro encontro entre Filipe e Patrícia, a Nova Iorque saída de um bilhete-postal), não explorando o fio narrativo mais interessante (a relação de Filipe e Isabel). É importante, contudo, ressalvar que se trata de uma obra com alguma frescura e, acima de tudo, revela uma imensa vontade em contar uma boa história.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Num Mundo Melhor"

"Num Mundo Melhor", película dinamarquesa assinada por Susanne Bier, foi o digno vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011. É um filme que na sua aparente simplicidade (mas não será essa justamente a força dos grandes clássicos do cinema?) contém em si o poder de mudar o mundo, desde que o queiramos ver, perceber e, sobretudo, sentir. 

Bier divide o espaço narrativo em dois continentes que mais parecem dois mundos à parte: a África subsariana e a Europa desenvolvida (esta enquanto berço dos Direitos Humanos, mas que tende a ignorá-los). Um médico que presta ajuda humanitária nos países mais desolados pela fome, seca e guerra regressa a casa para um merecido período de descanso, encontrando aqui um aparentemente confortável micro-cosmos que, afinal, replica as guerras movidas a preconceito e ódio dos países onde presta ajuda.

"Num Mundo Melhor" é um filme de uma imensa bondade e o mundo precisa cada vez mais de fitas assim.

"Num Mundo Melhor" - de Susanne Bier




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"Morreste-me", de José Luís Peixoto - um pequeno grande livro

A partir da dramática experiência da morte do pai que tanto (o) amava, José Luís Peixoto estreou-se na grande literatura com uma terna e sublime elegia ao seu progenitor. O resultado foi "Morreste-me", a obra que também iniciou o ainda jovem escritor nos prémios literários que justamente têm celebrado o seu percurso como romancista e poeta. Ainda que triste e tremendamente comovente, "Morreste-me" é um pequeno livro singular de um grande escritor, excelente para nos acompanhar numa tarde de Verão.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Banda sonora para o Verão (17)

O género musical designado como rock progressivo tem, nos últimos anos, sido alvo de uma autêntica e, em muitos casos, sublime renovação. O seu berço foi, como bem sabemos, Inglaterra e teve como ponto de partida a vontade de experimentação e fusão de géneros musicais (rock, blues, jazz, world music, música clássica) por parte de jovens músicos que, nas suas bandas, procuraram dar novos caminhos ao rock, libertando-o do tradicional formato de canção, alargando e (porque não?) quebrando as suas fronteiras. Foi assim que os Pink Floyd, Genesis, Yes, Jethro Tull, Marillion, King Crimson, entre muitos outros, operaram uma verdadeira revolução, criando novos paradigmas na arte das musas.

Curiosamente, tem sido em Itália que o género musical em análise tem encontrado muitos dos novos e mais originais compositores. Um exemplo é o projecto Cavalli Cocchi Lanzetti Roversi que acaba de lançar o álbum homónimo, merecedor da atenção de qualquer melómano com bom gosto. O disco é lindíssimo, pleno de canções candidatas a banda sonora do Olimpo, tal as subtis texturas sonoras criadas pelos três músicos que constituem a banda. Na verdade, este projecto é, mais do que um grupo, a reunião de três veteranos de géneros musicais distintos (clássica, rock e jazz) que, inspirados pelos deuses, criaram nove belíssimas canções que agora reuniram em disco. 

O LP deve ser escutado no escuro, sem outras inteferências sonoras, como se de uma cerimónia religiosa se tratasse. Ouçam, por exemplo, "Morning Comes" e percebam porquê. Refira-se também que estas músicas - como quase todo o rock progressivo - são ignoradas pelas emissoras de rádio por não se enquadrarem na ditadura do paradigma musical popular ainda dominante, que ordena que as canções tenham cerca de três minutos e uma estrutura facilmente trauteável pelo ouvinte. Devemos, no entanto, exigir maior elevação à nossa sensibilidade estética.

Só mais um breve apontamento: não deve ser fácil encontrar o disco em lojas nacionais, mas pode ser adquirido a bom preço no site da amazon.

sábado, 6 de agosto de 2011

A Somália também somos nós

A Organização das Nações Unidas garante que a fome na Somália vai aumentar até ao final do ano, pelo que a ajuda internacional terá de continuar. Por isso, a ONU fez um apelo à solidariedade mundial para que se aumentem os donativos em mil milhões de euros. Para agravar de forma absurda a presente calamidade, há grupos radicais/fundamentalistas que não permitem a entrada de ajuda internacional em certas zonas daquele país africano. 

Após milhares de anos de evolução na Terra e de tantas barbaridades cometidas pelo ser humano - à natureza e a si próprio - é caso para perguntarmos: o que aprendemos ao longo dos séculos?

domingo, 24 de julho de 2011

"Catedral" - contos de Raymond Carver

Raymond Carver (1938-1988) foi um dos maiores contistas norte-americanos do século XX. Com uma visão apurada, fria e cinematográfica, Carver retratou a América profunda nos seus contos, revelando alma de sociólogo. Na verdade, encontramos nas suas histórias personagens que parecem saídas de pequenas notícias de jornais regionais. Personagens que são mesmo pessoas reais. A obra "Catedral", publicada recentemente em Portugal via QUETZAL, reúne alguns dos seus mais viciantes contos, que lemos sem vontade de parar, tal a imensidão de vida que por lá passa. Vidas que, no fundo, mais parecem um deserto de almas. A ler, obrigatoriamente, para perceber porque é que o existencialismo foi a corrente filosófica que marcou a literatura do século passado.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Banda sonora para o Verão (16)

Destroyer é uma banda canadiana liderada por Dan Bejar (mentor de um dos projectos rock mais estimulantes dos últimos dez anos - os New Pornographers), que acaba de editar o álbum Kaputt. Trata-se de um excercício de estilo inteligente (mais do que sensível), que encontra a sua matriz na melhor filigrana pop da década de 80, nomeadamente nos injustamente esquecidos Scritti Politti e Talk Talk, mas também em Sade (álbum Diamond Life) e Simply Red (Picture Book e Man and Women). Kaputt é uma obra coesa, plena de texturas melódicas onde as batidas eminentemente pop são acompanhadas por sintetizador, guitarra, baixo, trompete e saxofone, bem como por vocalizações discretas e simples, diria até minimais, comprovando a máxima do último álbum dos Marillion, Less is More.

Destroyer - Kaputt

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...