terça-feira, 12 de março de 2013

Jorge Jesus revela na universidade que o seu cabelo homenageia a cabeleira de Sir Isaac Newton

Jorge Jesus deu ontem um colóquio na Faculdade de Motricidade Humana, onde explicou a sua "ciência".
Tal é o espírito científico de Jorge Jesus que confessou finalmente a razão de ser do seu penteado: homenagear a famosa cabeleira cinza-prateada de Sir Issac Newton, o físico que descobriu a lei da gravidade, grande referência na vida do treinador do Benfica. Jorge Jesus disse ainda que, no futuro, caso fique careca, não se importará, pois será uma maneira de homenagear Jorge de Sena, outro dos seus ídolos académicos.
in O Inimigo Público, 12/03/13

sexta-feira, 1 de março de 2013

Camilo Lourenço, a História e a utilidade económica


Um colega de universidade chamou-me a atenção para um comentário de Camilo Lourenço sobre professores de História no qual afirma que estes não são necessários à economia
Camilo Lourenço é um homem que tem feito carreira no comentário económico através de declarações provocadoras. Algumas, como esta, são infelizes; outras interessantes e acutilantes. (Num parêntesis, esclareço que apesar de nunca ter trabalhado com ele, fui publisher de uma revista - a Exame - de que fora diretor, pelo que posso dizer que a versão que por aí circula do seu afastamento por causa de um artigo sobre o BPN é... ficção). 
Se Camilo tivesse estudado Humanidades, sabia que a utilidade não pode ser a medida de todas as coisas e conheceria as críticas ao utilitarismo. Ocorre-me, até, que caso seja economista, Camilo possa conhecer essas críticas. E isso torna as coisas piores, porque significa que ele foi levado a dizer o que disse não por desconhecimento - o que conduz àquele pensamento cristão, "Perdoa-lhe Senhor, que ele não sabe o que diz" -, mas por convicção, o que eleva o debate a um novo patamar
O utilitarismo analisa as ações pela utilidade que têm ou virão a ter na produção de bem estar numa sociedade. Por exemplo, um utilitarista moderado dirá que os idosos produzem bem estar social através do exemplo, ou da integração social e da transmissão de conhecimentos e sabedoria. Já um radical - camilista? - dirá que um velho é um desqualificado porque já nada produz e só gasta dinheiro. 
"Não pode ser. Mas um licenciado em História é qualificado só por que tem um canudo?" pergunta Camilo. E a resposta é sim. É qualificado porque o reconheceram como possuidor de um conjunto de conhecimentos (se bem ou mal é outra discussão). Claro que a qualidade do seu trabalho pode ser melhor ou pior, mas dizer que licenciados em História, ou em Filosofia, ou em Clássicas ou em Literatura não têm qualificação só por terem um canudo - uma vez que não "têm utilidade no mercado de trabalho", é o mesmo que dizer que um idoso não tem utilidade porque só gasta dinheiro e não produz nada (algo que lembrou a um senhor economista no Japão). Ou, como diz Camilo, "Não tem utilidade para a economia".
A Economia é importante, Camilo, claro que é. Mas o mundo é mais do que a Economia. A mera racionalidade económica, se não for compensada por aspetos como caridade/solidariedade; amizade/companheirismo/amor; coesão/camaradagem/vizinhança entre muitas outras categorias não económicas (ocorre-me também a boa educação), é inútil.
Como já demonstrou o suspeito licenciado em História Rui Tavares (ontem, num artigo no 'Público') acresce que os licenciados em História têm utilidade para a Economia. E os licenciados em Filosofia também. Muitas empresas, por todo o mundo, contratam quadros destes cursos porque o conhecimento da história e do pensamento permite às empresas evitar erros.
Por exemplo, Amos Shapira, o CEO da Cellcom,a maior empresa de Cabo nos EUA, diz literalmente isto: "O conhecimento que uso como CEO pode ser adquirido em duas semanas... A principal coisa que os estudantes têm de aprender é como estudar e analisar as coisas, incluindo a História e a Filosofia". O design da Apple deve-se a um curso de caligrafia de Steve Jobs. Grandes vendedores dos EUA vêm de cursos de letras e de teatro. Em França, caro Camilo, Filósofos dão consultas a dirigentes de empresas, para os ajudar a ultrapassar certos dilemas. A própria utilidade das Humanidades na Economia é indiscutível e é reconhecida por fontes insuspeitas como a Harvard Business Review.
Porque qualquer licenciado em Filosofia diria que a teoria do crescimento constante da Economia é anti-natural (não há nada na natureza que cresça constantemente sem morrer). Qualquer licenciado em História sabe que o desequilíbrio entre a China e a Europa é bastante recente em termos históricos, pelo que tender-se-ia para o re-equilíbrio que está a acontecer. 
São coisas úteis para a sociedade, sobretudo se a sociedade não for formada por um conjunto de ignorantes.
Por: Henrique Monteiro

domingo, 24 de fevereiro de 2013

"Lincoln" - Spielberg, uma vez mais, sublime

Não há cineasta contemporâneo que melhor percebeu o espírito dos grandes autores clássicos do que Steven Spielberg. Depois de ter assinado duas obras-primas de uma assentada (a aventura pelo cinema de animação em "As Aventuras de Tintin: o segredo do Licorne", e a incursão na 1ª Guerra Mundial no lindíssimo "Cavalo de Guerra"), "Lincoln" vem confirmar a crescente maturidade e mestria do maior autor da Sétima Arte dos últimos 40 anos, revelando-o como o maior herdeiro do cinema de John Ford e Victor Fleming.

Tendo como ponto de partida o livro "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", de Doris Kearns Goodwin, em "Lincoln", Spielberg encena uma reconstituição minuciosa do esforço do mais amado Presidente norte-americano da História em fazer aprovar a 13ª Emenda, que aboliria a escravatura em prol do respeito pela dignidade da pessoa humana independentemente da cor de pele. A interpretação de Daniel Day-Lewis é sublime na entrega total do ator a tão emblemática figura histórica; mas os atores que o secundam têm também aqui o papel das suas vidas, destacando-se Sally Field, Tommy Lee Jones, David Strathairn e James Spader.

Em noite de Óscares, é bom saber de que falamos quando nos referimos às 12 nomeações da obra majestosa que é "Lincoln", e, de uma vez por todas, respeitarmos Spielberg como autor incontornável. Temos também neste filme (como já haviam sido "A Lista de Schindler", "Amistad" ou "Inteligência Artificial") um excelente complemento didáctico para aulas de História ou Filosofia, desde que professores e alunos (bem como os responsáveis pelos programas disciplinares) se predisponham a ver definitivamente o Cinema como Arte e veículo pedagógico privilegiado, capaz de transformar o Mundo.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Banda sonora para o inverno (24) - Diagonal, "The Second Mechanism"

O neo-prog, enquanto variante do rock progressivo, está a ressurgir em força na cena musical anglo-saxónica. Nesse contexto, os Diagonal têm-se distinguido na criação de harmonias que fundem o jazz rock, o psych e o classic prog. Com o seu último álbum, "The Second Mechanism", apuram a sua sonoridade, resultado de um intenso trabalho de pesquisa e um maior cuidado na composição de melodias esculpidas de forma cada vez mais afastada de dissonâncias e, portanto, mais estruturadas e concisas. É uma boa companhia para um fim de semana que se adivinha frio.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

"The Killing Fields - O Campo da Morte" - opus 1 de Ami Canaan Mann

Dois detetives e um caso de desaparecimento nos Texas Killing Fields é a premissa deste policial em tons de drama noir sobre a natureza irracional do mal. Apesar de seguir uma estrutura fria e algo distante dos personagens (bem como algumas pontas soltas, nomeadamente no que concerne a vestígios do passado dos protagonistas, nunca suficientemente explorados na montagem final), apresenta uma estética algo experimental que, por vezes, roça o bizarro, acabando por conquistar o espectador através de interpretações intensas e de uma fotografia visualmente rica. Não é um filme obrigatório, mas recomenda-se.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Banda sonora para o inverno (23) - "Journey To The Centre Of The Earth", de Rick Wakeman

"Journey To The Centre Of The Earth" é, para além de uma das obras literárias de referência da cultura universal, um dos discos mais brilhantes da história do rock sinfónico e progressivo. O seu autor é Rick Wakeman, que tem no seu currículo a coautoria dos LPs mais inspirados dos Yes. Este compositor assinou aquela obra, que levou a concerto, em 1972, tornando-se um dos discos ao vivo mais vendidos de todos os tempos. Para comemorar os 40 anos do álbum, Wakeman regravou a composição, agora, e pela primeira vez, em estúdio. Inspirado pelo livro de Júlio Verne ("Viagem ao Centro da Terra"), é um CD lindíssimo, cruzando várias estéticas, da música clássica, passando pelo jazz, até ao rock, é música de fusão de inspiração literária e cinematográfica. 

"Journey To The Centre Of The Earth" é uma obra concetual viciante, que nos exige audições sucessivas, tal a força com que prende os nossos sentidos. Acompanhada pela leitura do livro de Júlio Verne, o disco em análise ganha mais sentido. Uma obra-prima, pois claro!


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Educação cultural - in aefetivamente.blogspot.pt

Está a tornar-se cada vez mais difícil lecionar conteúdos culturais aos alunos. Muito mais do que  as dificuldades linguísticas de alguns, e da falta de jeito para a língua estrangeira, é o total desconhecimento de história, geografia, cinema, cultura em geral que é tremendamente assustador e desmotivante. 
Naturalmente que há um fosso geracional que se vai acentuando com a passagem do tempo, cá do meu lado. Eles continuam na mesma faixa etária de sempre e eu não. A nível da música isso é notoriamente percetível. Falam de coisas que desconheço, ainda que o meu fator idade não explique tudo. Podia ter à mesma os anos que tenho e saber tudo acerca das novidades musicais. 
Mas numa era em que a tudo têm acesso, nomeadamente através deste mundo fascinante que é a internet, tem vindo a agravar-se o desconhecimento generalizado sobre aspetos culturais, nacionais e ainda mais mundiais. O seu mundo é pequeno, cada vez mais pequeno, diria. Porque há um desinteresse total por saber mais e mais, mesmo que sejam apenas curiosidades ou conhecimentos extra aquilo que é necessário para terem boas notas e especializarem-se na sua área.
Todos nós temos lacunas várias e podemos sempre saber mais acerca de determinado assunto ou esfera. Há quem saiba muito de pintura mas não de cinema, por exemplo. Ou que saiba de ciências e nada de literatura. Ou muito de escultura e nada de geografia. E por aí adiante. Mas há um conhecimento geral, de nomes, figuras, lugares, acontecimentos, que é ou pode ser acessível à maior parte de nós. Com os condicionalismos vários do nosso quotidiano ou meio, educação e percurso profissional. 
Aquilo que angustia é que estes condicionalismos hoje estão mais esbatidos com um simples toque no rato do computador. Está lá praticamente tudo e tempo não parece ser algo que falte aos miúdos, comparativamente com os adultos e as responsabilidades do dia a dia. O desinvestimento nos conhecimentos culturais é enorme, e a falta de curiosidade também. Muitas vezes dizem não sei nada disso, ao que respondo não tem mal, hoje vais ficar a saber. Menos mal. Pior é quando dizem não me interessa nada disso. Porque é verdade.
Há também um aspeto que salta à vista da minha experiência pessoal. As raparigas perdem, se compararmos os dois géneros em termos de conhecimentos de cinema, geografia, política, sociedade, cultura geral. Porque será? Porque a coquetterie pessoal, os namoricos e os media de fraca qualidade levam avante? Os media, nomeadamente a televisão e alguma televisão privada, têm arrasado as gerações mais novas culturalmente. E isto serve para ambos os sexos, certamente. Apenas me dá a ideia que as miúdas se distraem com outras coisas mais  e são várias.
Não querendo generalizar muito, porque posso errar, a minha experiência é a que, de facto, tive sempre mais rapazes a partilhar e a mostrar curiosidade em aprender do que meninas, com muita pena minha. Há exceções, felizmente, mas tem sido assim. Por outro lado, uns e outros cada vez sabem menos, e parece-me que será transversal a muitas escolas, muitas mesmo. Ora isto é uma realidade dos diabos. Porque a angústia e a preocupação não se confinam a uma sala de aula, elas estendem-se a toda uma sociedade futura.

(Sempre defendi a ideia de haver uma disciplina de cultura geral obrigatória, uma vez por semana, com avaliação e tudo. Nunca a pude apresentar em lado nenhum, claro.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Os Professores - por valter hugo mãe


Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em
livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não
guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns
professores como se fossem família ou amores proibidos. Tivem uma professora
tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao
menos entre os meus treze e os quinze anos de idade. A escola, como mundo
completo, podia ser esse lugar perfeito
... Ver mais de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada
indivíduo se vota a encontrar no seu mais genuíno, honesto, caminho. Os
professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se
o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a
tornar. Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos
breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que
tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na
passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que
estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a
tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei
perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão
um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há
quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como
criar de novo aquele que os recebe. Os alunos nascem diante dos
professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do
entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores
versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante.
Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro
durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um
orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por
merecer que alguém os discutisse comigo. Houve um dia, numa aula de
história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga.
Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava
contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às
figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo.
Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela
solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes
do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a
minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na
verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha.
Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes.
Profundamente felizes. Talvez estas coisas só tenham uma importância
nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em
Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no
sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir
uma sedução antiga, um amor que começara
muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem
dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos
oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível. Dá -me isto agora
porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio
povo. E porque me parece que perseguir e tomar os
professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores
são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum
miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da
maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de
melhorar os nossos miúdos, que é pior do
que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do
que comer apenas sopa todos os dias. Estragar os nossos miúdos é o fim do
mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para
melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a
esperança toda de que, um dia, o mundo seja um
condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas
esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade,
disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista
para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de
afeto. As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os
professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é
indiferente ensinar
vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da
maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus
cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é
um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de
educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O Estado do Mundo (15) - a década mais quente

A última década foi a mais quente que o planeta conheceu desde que se começaram a fazer registos de temperaturas em 1880. A conclusão é de climatólogos norte-americanos que acrescentam que, com exceção de 1998, os nove anos mais quentes foram registados após 2000, com 2010 a ser o que teve a temperatura mais elevada. Além disso, a Organização Mundial de Saúde alerta que a poluição do ar provoca dois milhões de mortes prematuras por ano, sendo 50% destas de crianças com menos de cinco anos de idade, um número que podia baixar 15% se o nível de poluição fosse reduzido para um patamar tolerável. Haverá vontade política em fazê-lo?

domingo, 13 de janeiro de 2013

"Zoolander" - a civilização da frivolidade

Em 2001, Ben Stiller realizou um filme que, apesar de alguma exposição mediática, passou relativamente despercebido. Doze anos depois, podemos reavaliar a película e constatar como se trata de um documento incontornável para compreendermos aquilo a que Mario Vargas Llosa designa por "Civilização do Espetáculo" - uma cultura que mitifica a estética do vazio, desprovida de bússola ética e espiritual, fascinada pela fama, confundindo preço e valor da obra de arte. 

"Zoolander" é uma comédia desvairada que, a partir da história de um modelo famoso que, após uma gloriosa ascensão no mundo da moda, inicia a queda rumo ao esquecimento, retrata a forma como, a partir da segunda metade do século XX, a cultura se tornou frívola - precisamente, uma civilização do espetáculo. Há dois momentos, particularmente hilariantes, inspirados em "2001 - Odisseia no Espaço" e "A Laranja Mecânica", filmes de Kubrick; há divertidíssimos cameos de vedetas e gurus da moda (destacando-se as presenças de David Bowie e David Duchovny); e há a frenética câmara de Ben Stiller, que alguns anos antes  nos tinha surpreendido com a comédia negra "O Melga".

Uma recente entrevista de um jornalista inglês a Quentin Tarantino que acabou em discussão, com este cineasta a recusar-se a analisar questões sérias e pertinentes colocadas pelo primeiro sobre o conteúdo violento dos seus filmes e as implicações dessa violência no real social, demonstram bem quão superficial é a cultura contemporânea e grande parte dos seus artistas. Tarantino insistiu que estava ali para promover a sua última fita, "Django Libertado", e não para analisar questões sociológicas implicadas nos filmes que levam a sua assinatura. É esta a atitude filosófica e cultural da civilização do espetáculo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Legendar o silêncio icónico (26)

Todos os invernos, no Afeganistão, o cenário repete-se: o branco imaculado da paisagem choca com as graves carências de uma população entalada entre a ocupação ocidental e a violência sem quartel dos talibãs. A ONU serve, aqui como noutros pontos do globo, de salva-vidas. De facto, a população dos arredores de Cabul continua a depender, avidamente, das entregas de alimentos e outros bens necessários à sobrevivência por parte da força da ONU instalada no país, como cobertores e agasalhos para as temperaturas que caem abaixo de zero. A missão das Nações Unidas estima que dois milhões de afegãos correm sérios riscos com os rigores deste inverno. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2013 - o presente é o futuro

Espera-nos um ano de grave austeridade, pelo que não é fácil cumprir algumas promessas de Ano Novo (focarmo-nos no que a vida tem de positivo; darmo-nos por felizes no caso de termos trabalho e um salário, ainda que magro; termos esperança de que o mundo poderá ser melhor em 2013). Vemos nos telejornais, nas capas dos jornais, na mensagem do Presidente da República um cinzentismo que não dá margem para perspetivarmos um futuro melhor que os últimos 365 dias. No fundo, a melhor mensagem a que assistimos nos últimos dias foi a do Papa Bento XVI, quando afirmou (e cito de memória) que a comunicação social sobrevaloriza o Mal; este último faz muito mais barulho (eu diria, ruído) do que o Bem; este trabalha no silêncio, na não visibilidade, pois dispensa publicidade estridente para ser bem; no fundo, a bondade basta-se a si mesma. 

Por entre tanto ruído na comunicação social; no meio de suspeitas de fraude e corrupção; apesar das dúvidas quanto à constitucionalidade do Orçamento de Estado; embora estejamos a construir um mundo regressivo do ponto de vista de uma cultura de ética; por entre cortes na Educação, na Saúde e nos subsídios de férias; apesar da falta que fazem políticos engajados com ideias, valores e ideais; vamos acreditar que o projeto da União Europeia tem futuro, que os Estados Unidos da América continuarão a ser uma garantia de Paz para o mundo, que os países em convulsão social e política no Médio Oriente trabalharão em prol da Democracia e do respeito pelos Direitos Humanos e que os nossos políticos estão realmente comprometidos na construção de um mundo mais justo e de uma sociedade mais esclarecida.

Feliz 2013.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo!


Aos leitores deste blogue, desejo um Feliz 2013, pleno de luz, saúde, amizade, paz e sabedoria na esperança de que a união dos homens de boa vontade nos conduza a um mundo melhor.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Banda sonora para o inverno (22) - Natal em Brooklyn

O Natal tem sido pretexto para inúmeras composições que, desde há muito, fazem parte do cancioneiro popular. Todavia, nunca como em Surfjan Stevens esta quadra religiosa (mais do que festiva) tem sido objeto de obsessão, como se de um desígnio de vida artística se tratasse. Talvez movido pelo imaginário da infância (basta atentar nas capas dos cinco discos que compõem "Silver and Gold" para verificarmos que é todo um universo infanto-juvenil que as inspira), aquele músico editou este mês a sua segunda obra dedicada à Natividade (a primeira, "Songs For Christmas", foi publicada em 2006) e , uma vez mais, é constituída por uma caixa (que inclui autocolantes, um poster, um ornamento de Natal e um booklet com partituras, fotos e um texto assinado pelo músico de Brooklyn) com cinco CD (sim, cinco!) divididos por subtemas ilustrados por títulos litúrgicos ou fantasiosos. Ao todo, são 58 canções que tanto viajam por standards bem conhecidos, como também há espaço para divagações pessoais (são 21 originais e um cover de "Alphabet St.", de Prince, agora transformado em canção de Natal).

Não se pense, contudo, que a fixação de Surfjan Stevens resulte num produto convencional de mero consumo sazonal. Bem pelo contrário! A provar a perspetiva apaixonada mas singular do músico perante a época natalícia está o facto de as composições originais se dedicarem a questionar - e até a satirizar (ouça-se o brilhante grand finale que é a canção "Christmas Unicorn") - o consumo excessivo que marca tristemente aquela que deveria ser, sobretudo, a época da celebração da família e do amor incondicional.

"Silver and Gold" é uma obra concetual constituída por cerca de três horas de música, uma viagem pela arte das musas que passa por hinos celestiais, cantigas folk e barrocas, desconstruções de clássicos, retratos apocalípticos, ambientes futuristas e cenários quase esquizofrénicos. De qualquer forma, estamos perante uma obra-prima que celebra o solstício de dezembro e em que o todo não se reduz à soma das suas partes. Daria um excelente presente de Natal...

Surfjan Stevens - "I'll Be Home For Christmas"

domingo, 23 de dezembro de 2012

Natal 2012

Numa planície de esperança, resta-nos semear o futuro. Que o amor entre todos nós seja o suficiente para adicionar as cores que precisamos na nossa vida.

Votos de um Natal pleno de Luz, Amor e Saúde.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Banda sonora para o outono (27) - Cody ChesnuTT: "Landing on a hundred"

Cody ChesnuTT foi o autor de "The headphone experience", provavelmente a maior obra da soul music da década passada. Na verdade, esse foi um disco monumental composto por mais de trinta canções da mais pura filigrana musical, à altura do legado de autores como Marvin Gaye e Stevie Wonder. 

Dez anos volvidos sobre a dita obra, finalmente Cody ChesnuTT edita o LP sucessor (sim, o homem compõe sem pressa, consciente de que quando a música é boa o artista não é esquecido). Chama-se "Landing on a hundred" e justifica o tempo que levou a bulir. É um disco com doze canções nascidas de uma alma maior, que sabe que a música vale por si mesma e que uma obra-prima basta-se a si própria. Além disso, talvez esteja aqui a melhor canção do ano: "Chip's Down (in a landfill)".

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

"007 Skyfall" - exercício trágico [falhado] de Sam Mendes

Esperava-se muito da nova aventura de 007, mas "Skyfall", assinado pelo prestigiado Sam Mendes, dececiona quer como filme por si, quer como parte da série de fitas do popular agente secreto inglês. Pretende ser um exercício trágico distinto dos episódios anteriores, mas apenas serve para acentuar o tom cada vez mais sisudo do personagem, desde que é interpretado por Daniel Craig. Vai com certeza contribuir para aumentar a conta bancária do autor de "American Beauty", mas não terá lugar no panteão de películas de James Bond. Que saudades de "Goldfinger" e "A View To A Kill"!




Trailer de "007 Skyfall"

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...