domingo, 8 de agosto de 2021

Para refletir (3)


A lei do ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos. 

Gandhi (1869-1948), fundador do Estado moderno indiano

sábado, 7 de agosto de 2021

"Contos de um Verão Negro" - de Damiano e Fabio D'Innocenzo

No início de Contos de um Verão Negro o narrador afirma: "o que se segue é inspirado por uma história verdadeira; a história verdadeira é inspirada por uma mentira; a mentira não é lá muito inspirada". Fica dado o mote para o que se segue: uma narrativa nada agradável que, pelo contrário, explora histórias (talvez seja melhor dizer pequenas narrativas que se entrelaçam) que revelam o pior do ser humano (ou, pelo menos, de uma certa classe média baixa italiana).  

Efetivamente, os irmãos D'Innocenzo, que assinam, simultaneamente, o argumento e a realização (em 2020, o filme arrecadou o Urso de Prata para melhor argumento no Festival de Berlim), não revelam qualquer esperança na humanidade (nem sequer carinho pelos seus personagens). Nestes Contos de um Verão Negro ninguém sai incólume, sobretudo as crianças. Os adultos são eternos petizes imaturos (que transformam a sua fragilidade em perversidade) sem qualquer capacidade para enfrentar obstáculos hodiernos e muito menos para servirem de (bons) exemplos para os seus filhos. Por sua vez, as crianças são vítimas do egoísmo, do desamor e da crueldade dos pais. É também por aqui que se encontra a maior vulnerabilidade da obra (acutilante) de Damiano e Fabio D'Innocenzo.

Ao lançar às urtigas qualquer possibilidade de ligação emocional (ou sequer algum resquício de empatia) do espectador com os personagens, revela uma total ausência de pathos. É pena, porque, verdade seja dita, estamos perante uma obra que expõe de modo cru e implacável a era do vazio (ético e afetivo), em que os laços comunitários são apenas um ténue véu apolíneo que mal consegue rebuçar a essência dionisíaca que facilmente os desfaz. Como assegura um adulto, já próximo do final do filme, o que podemos pretender mais da vida quando temos uma mesa posta com mortadela, mozarela e vinho?

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

"O Pai" - de Florian Zeller

Anthony, de 83 anos, recebe a visita regular da sua filha. Aparentemente, o octogenário vive orgulhosamente só, no seu apartamento, contra a vontade daquela, que, devido aos graves sinais de demência que o pai claramente revela, insiste em contratar uma nova cuidadora (Anthony terá recusado as cuidadoras anteriores).

Se este é o início do filme O Pai, modelarmente escrito e realizado por Florian Zeller, rapidamente descobrimos que estamos a assistir à construção e reconfiguração do complexo e intricado puzzle em que se tornou a mente de Anthony. O seu mundo interior, severamente estilhaçado pelos efeitos da doença de Alzheimer, determina o modo como perceciona o real, que se confunde com a sua mente turbada. A filha e a cuidadora são a mesma pessoa? Quem é o companheiro da filha? A nova cuidadora é uma projeção da filha que faleceu? Ser bailarino com talento para sapateado corresponderá a um sonho de infância recalcado?

No fim, ficamos inevitavelmente comovidos com a impressionante interpretação do outro Anthony, o Hopkins, sempre no tom certo e com a expressão ajustada. Esquecemo-nos que estamos a ver um filme com um rosto conhecido por todos. Anthony é inteiramente o ator que lhe dá corpo, alma e voz. A realização de Zeller é subtil, sempre comprometido com a história e ao serviço dos atores, sobretudo daquele que é, indubitavelmente, um dos melhores de sempre.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

"O Rei de Staten Island" (2020) - de Judd Apatow

Judd Apatow é um dos comediantes, guionistas, produtores e realizadores mais interessantes dos últimos trinta anos. A sua prolífica carreira inclui a assinatura de filmes tão hilariantes e singulares (no sentido de não se limitarem a repetir fórmulas, antes evidenciado marcas do seu autor) como Virgem aos 40 e Aguenta-te aos 40!. A sua obra mais recente, O Rei de Staten Island, é uma comédia brilhante sobre um adolescente tardio que vive desorientado desde a morte do seu pai, um bombeiro que morreu em serviço. Scott, o protagonista, tem já 24 anos mas ainda vive com a mãe, não concluiu o ensino secundário, está desempregado e sem vontade de encontrar trabalho, passa os dias a fumar erva e a exercitar as suas competências como tatuador, embora o seu talento como desenhador seja, no mínimo, peculiar.

Apatow dá ao filme um sentido de espontaneidade, como se tudo fosse simples captação da realidade em bruto. Para esse realismo muito contribui a excelência dos atores e do argumento baseado na vida do ator principal, Pete Davidson. Estamos, portanto, perante um curioso exercício de autoficção. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

"Bill e Ted salvam o universo" (2020) - de Dean Parisot

Se aproveitar as possibilidades de uma máquina do tempo para reunir Mozart, Louis Armstrong e Jimi Hendrix numa superbanda de rock sinfónico parece ser uma ideia engraçada, o terceiro filme da saga iniciada em 1989 por Stephen Herek (A Fantástica Aventura de Bill e Ted) encarrega-se de nos mostrar que não bastam boas premissas para construir boas histórias e fazer bons filmes.

Na verdade, Bill e Ted salvam o universo é uma comédia anódina, que se limita a clonar fórmulas gastas com propósitos inteiramente comerciais. A evitar!




terça-feira, 3 de agosto de 2021

"Almoço de Domingo" - Rui Nabeiro por José Luís Peixoto

O último romance de José Luís Peixoto é uma sentida homenagem ao ilustre comendador Rui Nabeiro, fundador da Delta.

Almoço de Domingo percorre os temas centrais da obra literária de JLP: a família, as raízes, a inexorabilidade do tempo e a memória enquanto complexo e misterioso puzzle cujas peças são compostas por instantes que já não existem senão no espírito de quem lhes sobreviveu.

Dividido em três partes (26, 27 e 28 de Março de 2021, três dias em que se percorre uma vida inteira) nas quais o narrador evoca momentos fundamentais da vida de Nabeiro, o livro tem todas as marcas distintivas da prosa poética do autor. 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

"Presos no Tempo" (2021) - de M. Night Shyamalan

Olvidável retorno de Shyamalan ao cinema, Presos no Tempo é um drama patético, que não se percebe bem se é ficção científica, thriller, terror ou mistério. No fim, ficam os despojos de uma comédia tola involuntária, que, no limite, se compreenderia se o seu autor fosse Ed Wood (para quem não sabe, Ed Wood ficou conhecido por ter concebido alguns dos piores filmes da história do cinema, mas mantendo sempre a ambição "visionária" de fazer obras à altura de Citizen Kane).

Quem assistir a Presos no Tempo desconhecendo obras-primas como O Sexto Sentido (1999), O Protegido (2000), Sinais (2002) ou A Vila (2004), provavelmente pensará que foi escrito e realizado por um qualquer neófito deslumbrado pela primeira oportunidade em Hollywood. É que este pretensioso "tratado" sobre o envelhecimento e a finitude tem o potencial para destruir carreiras, pelo menos as do realizador e dos atores. Um filme que só não chega a ser dececionante por ser desastroso.

domingo, 1 de agosto de 2021

"Annette" (2021) - de Leos Carax

Filme de abertura do último Festival de Cannes, Annette marca o regresso de Leos Carax, cineasta de culto que, em cerca de 40 anos de carreira, assina aqui a sua sexta longa-metragem. E valeu a pena a espera, pois este é um filme grandioso (talvez seja mais ajustado dizer grandíloquo), uma ópera rock trágica realizada com alma e que dá aos seus dois atores principais (Marion Cotillard e Adam Driver) a oportunidade para prestações memoráveis (sobretudo, Adam Driver, que tem aqui um desempenho soberbo).

Leos Carax aproveita a estética do musical para construir uma parábola sobre os tempos que correm, lançando um duro golpe ao público consumidor acéfalo da informação veiculada nas redes sociais e aos órgãos de comunicação que, para sobreviverem, se renderam às imagens vazias do YouTube, Facebook ou Instagram. 

Uma lição de mise-en-scène majestática. Um filme obrigatório! (O melhor que veremos em 2021?)

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Paul Schrader (2) - "No coração da escuridão" (2018)

Regressamos ao cinema negro, denso, revoltado e permanentemente à procura da redenção, de Paul Schrader. No coração da escuridão (First Reformed, no original), o seu mais recente filme, é um regresso claro aos seus fantasmas pessoais e às suas preocupações metafísicas: fé, Deus, redenção, sentido da existência, livre-arbítrio, niilismo, morte, amor, mas também a autodestruição.

Ethan Hawke interpreta magistralmente o papel de uma padre em crise de fé, que, perturbado com o suicídio do marido de uma paroquiana (ativista em prol de causas ambientais), sente o dever de completar a sua missão, insurgindo-se contra uma humanidade que não merece o perdão de Deus.

No coração da escuridão é um filme perfeito, sem um único plano ou diálogo a mais. Uma obra de um rigor absoluto. Não é fácil gostar do cinema de Schrader, mas é por obras como esta que o cinema é arte maior. Afinal, ainda vale a pena comprar um bilhete de cinema e refugiarmo-nos no coração da escuridão.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Blake Edwards (2) - "A Semente de Tamarindo"(1974)

Judith Farrow trabalha no Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico. De passagem pelas Caraíbas, Judith apaixona-se por um adido militar russo e o caso desperta suspeitas nos dois lados da Cortina de Ferro.

A partir de um romance de Evelyn Anthony, e filmado nas Caraíbas, em Paris, Londres e Canadá, Blake Edwards constrói um argumento com todos os sinais da década de 70 do século XX. Em boa verdade, estávamos em plena Guerra Fria e o filme reflete o clima de tensão leste-oeste. No entanto, interessa a Edwards não tanto a intriga política mas mais a história de amor entre uma funcionária pública britânica (interpretada por uma etérea Julie Andrews) e um espião russo (um sedutor Omar Sharif).

O genérico de abertura é digno de antologia. Com música assinada por John Barry, A Semente de Tamarindo evoca claramente os créditos iniciais dos filmes de James Bond. É, contudo, um filme menor na extensa filmografia de Edwards.


segunda-feira, 12 de julho de 2021

Blake Edwards (1) - "Uma voz na escuridão" (1962)

Blake Edwards, cineasta responsável por inúmeras comédias inesquecíveis (por exemplo, a série Pantera cor-de-rosa, com Peter Sellers), experimentou vários registos. Uma voz na escurdião marcou a sua incursão pelo thriller, resultando num dos maiores filmes de sempre do género.

A primeira cena introduz logo o conflito numa sequência longa (filmada quase num só grande plano) e aterradora. Uma mulher acaba de estacionar o carro na garagem de casa quando é atacada por um assassino, que a agarra pelas costas e lhe exige que roube cem mil dólares do banco onde trabalha sob pena de assassinar a sua irmã adolescente. A voz do agressor é cavernosa, denunciando que sofre de asma. Nós, os espectadores, saímos da cena com a sensação de que o chão vai desabar por baixo dos nossos pés.

Os planos de Uma voz na escuridão são desenhados com o rigor de um arquiteto; a banda sonora de Henry Mancini (habitual colaborador de Edwards) é arrepiante; Glenn Ford (no papel do agente do FBI responsável pela investigação do caso) e Lee Remick (na pele da mulher ameaçada) são soberbos na arte da contenção, nunca se sobrepondo à narrativa; e a sequência final no estádio de baseball é uma lição de realização ao nível de mestres como Hitchcock ou Brian de Palma. 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

"Fim de semana com o morto" (1989) - de Ted Kotcheff

Larry (Andrew McCarthy) e Richard (Jonathan Silverman) descobrem um esquema fraudulento na seguradora onde trabalham. Na expectativa de serem promovidos, informam o patrão, Bernie Lomax (Terry Kiser). O que os dois colegas desconhecem é que é este o responsável pela fraude de 2 milhões de dólares. É então que Lomax decide contratar os serviços de um mafioso nova-iorquino para assassinar os dois funcionários. Mas o "padrinho" ordena ao seu capanga que elimine Lomax, em vez dos dois amigos. A partir daqui está instalada a confusão na melhor tradição da screwball comedy

Fim de semana com o morto é uma comédia louca como todas as comédias destravadas deviam ser: diverte o espectador durante 100 minutos, respeita as personagens, colocando-as ao serviço da história (marada do princípio ao fim) e tem uma realização competente (discreta, mas com mão segura).

Volvidos 32 anos, podemos hoje perceber que a película de Ted Kotcheff é um clássico da comédia made in Hollywood, à altura de obras como Um, dois, três, de Billy Wilder (1961), A festa, de Blake Edwards (1968) e 1941 - Ano louco em Hollywood, de Steven Spielberg (1979).

terça-feira, 15 de junho de 2021

Pablo Larraín (3) - "Não" (2012)


No final dos anos 80 do século XX, e após 15 anos de ditadura, o general Pinochet cede à pressão internacional e decide convocar um referendo nacional para averiguar se os chilenos pretendem (ou não) que o regime governe por mais 8 anos. Aproveitando os 15 minutos diários de tempo de antena concedidos pela estação pública de televisão, os defensores do "não" encomendam a campanha a uma equipa de publicitários que, servindo-se das técnicas de publicidade da TV  norte-americana, encenam uma série de vídeos otimistas que apelam a um hipotético futuro risonho e colorido que os chilenos merecem ter após tantos anos sem liberdade.

Larraín filma com a estética dos anos 80 (cores garridas, imagem gasta, câmara à mão), como se o filme resultasse da montagem de imagens de arquivo. E, sobretudo, sobra o filme mais feliz de Pablo Larraín até à data.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

"Julieta" (2016) - de Pedro Almodóvar


Julieta é uma mulher de meia-idade que vive há mais de 18 anos atormentada com o drama do misterioso desaparecimento da sua filha, mas o reencontro com uma amiga de infância desta leva a protagonista à procura das respostas que nunca teve e, forçosamente, a confrontar-se com memórias do passado que jamais partilhara com alguém.

O penúltimo filme de Almodóvar (até à data de hoje) apura os temas de sempre e a estética pessoal (diria, clássica) do maior cineasta de Espanha. "Julieta" é uma película fascinante, que se vê do princípio ao fim como o mais viciante e intrigante dos romances. E há por aqui vestígios evidentes de Hitchcock e Cukor. Obrigatório!


domingo, 13 de junho de 2021

Estado da Nação (35) - Um País desgovernado por quem se governa a si próprio: o poder dos discípulos de Sócrates (7)


É mesmo bom ser socialista em Portugal. Aliás, nunca foi tão bom em quase 50 anos de convivência democrática. Senão vejamos.

O (des)governo de António Costa (AC) emprega o número-recorde de 1.259 boys. Entre assessores, adjuntos, técnicos especialistas, motoristas, secretários e pessoal administrativo, o atual Executivo gasta anualmente mais de 73 milhões de euros com os gabinetes de 70 (des)governantes. Só AC tem 10 assessores, 10 adjuntos e técnicos especialistas, 11 motoristas e 8 secretários pessoais. São 40 colaboradores que representam um encargo mensal de 140 mil euros. 

Haja tributação fiscal que suporte todos estes encargos do Estado socialista.

sábado, 12 de junho de 2021

Estado da Nação (34) - Um País desgovernado por quem se governa a si próprio: o poder dos discípulos de Sócrates (6)


Vale a pena ler a Resolução do Conselho de Ministros nº 70/2021, que "determina a realização das comemorações da Revolução de 25 de Abril de 1974 e cria a estrutura de missão que as promove e realiza". Talvez porque, como reconhece a Resolução, "a maioria da população portuguesa já nasceu depois da Revolução, e estando próximos de cumprir mais anos em democracia do que aqueles que durou a ditadura", a Resolução permite-se materializar ao abrigo da lei a utopia socialista. São só jobs for the boys

Para Presidente da Comissão Executiva das comemorações do 50º aniversário da dita revolução, o (des)Governo de António Costa nomeou o comentador socialista Pedro Adão e Silva (PAS), que é um boy, um arauto da ciência política nascido, precisamente, no ano da Revolução (um miúdo, portanto). 

PAS é a prova viva do pragmatismo socialista a que estamos habituados: quem semeia colhe. Este filho querido de Abril jogou sempre pelo seguro, passando PSD para o PS e envergando o trabalho sujo de defensor do Governo PS. Para além de um elevadíssimo salário (4,500 euros) ao longo de cinco anos e meio, PAS disporá ainda de ajudas de custo e de uma equipa de colaboradores, igualmente pagos.

PAS foi, recorde-se, um fervoroso defensor da honestidade de José Sócrates. O apoio ao modesto e íntegro senhor engenheiro ainda dá os seus frutos. Mas são só jobs for the boys num país que há muito se conformou - e aceita - o nepotismo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

"Os Sete Samurais" - obra de arte filmada por Akira Kurosawa

Em 1954, o Mestre Akira Kurosawa assinou aquele que viria a ser, muito justamente, um dos filmes mais citados e inspiradores da história da Sétima Arte. Falamos de "Os Sete Samurais", épico de guerra situado no século XVI, em pleno Japão Feudal, numa aldeia onde os pobres camponeses, cansados de ser constantemente saqueados por bandidos, convencem sete samurais a protegê-los dos ataques.

Este é um filme perfeito. Prova disso é ter resistido imaculadamente à passagem de quase 70 anos desde a sua estreia. Um preto e branco coruscante, atores em estado de graça (com destaque para o faceto e divertido Toshiro Mifune), banda sonora engenhosa e depurada, e 210 minutos que passam num ápice.

domingo, 3 de janeiro de 2021

"Wolfwalkers" - cinema de animação exemplar

Maravilharmo-nos com o visionamento de "Wolfwalkers", obra-prima do novo cinema de animação europeu, é uma excelente forma de inaugurar o novo ano cinéfilo. Filme poético, onírico e (porque não dizê-lo) folk, traz a assinatura dos artistas Tomm Moore e Ross Stewart.

Baseado em lendas célticas, a ação situa-se em meados do século XVII na Irlanda rural dominada por Lord Protector, tirano inglês que oprime e subjuga o povo de uma pequena cidade que vive apavorada com a ameaça de uma alcateia que tem atacado as ovelhas. Certo dia, Robyn, uma menina inglesa que sonha seguir as pisadas do pai como caçador de lobos, aventura-se na floresta e trava amizade com uma criança de longos cabelos ruivos, que é, na verdade, uma wolfwalker

E mais não digo para não tirar ao leitor o prazer de assistir a este filme de animação de recorte clássico, desenhado à mão como os mais emblemáticos desenhos animados de outros tempos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Banda sonora para o outono (40) - Sweet Billy Pilgram: "Wapentak"


Agora reduzidos a um duo, os Sweet Billy Pilgrim aproveitam para ensaiar uma viagem alternativa às texturas sónicas complexas (e sempre surpreendentes), rumo a canções simples e despojadas dos arranjos épicos que caracterizaram parte dos trabalhos anteriores.

Wapentak é um disco de canções gravadas quase sempre num registo acústico para realçar a melodia e a voz. E que canções, senhoras e senhores! Ouça-se Ash on the blacktop, Asking for a friend ou A shelter of reeds e entenda-se por que esta transformação intencional no som não representa uma descaracterização do projeto estético da banda, mas sim a exploração de uma música mais orgânica, romântica e melancólica. E, por que não, outonal.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Pablo Larraín (2) - "O Clube" (2010)


Numa esquecida aldeia costeira, algures no Chile, há uma casa que alberga quatro padres que a Igreja Católica quer esconder. São acompanhados por um freira que, à semelhança dos padres (pedófilos, violadores, homossexuais, confessores de torturadores), foi ostracizada por ter cometido pecados mortais. Todos apostam em corridas de galgos e convivem na superficial ilusão de que vivem em santidade. No entanto, transportam na alma um mal sem cura, a inconsciência da perfídia, a crença falsa de que tudo o que fizeram está justificado por Deus. Para eles, então, não há solução possível. 

Entretanto, recebem um novo hóspede, tão sinistro quanto eles, que comete suicídio à porta de casa. A Igreja envia um padre/psicólogo para investigar o que, de facto, aconteceu, mas que cedo descobre que, ali, naquela casa de horrores não há lugar para qualquer forma de redenção e que o mal absoluto se instalou confortavelmente. Deus há muito que parece ter-se esquecido daqueles homens. Ou, então, um universo que admite a possibilidade do mal é incompatível com o Deus teísta, não havendo teodiceia que justifique as ações daqueles homens.

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...