domingo, 28 de abril de 2013

"Bang, Bang! Estás Morto" - dias 2, 3 e 4 de maio, 21h45, Rivoli (Porto)


Um adolescente problemático comete um massacre na sua escola, vitimizando cinco amigos. Quando é preso, dá por si a ouvir as vozes das suas vítimas, que o atormentam, levando-o a um estado de paranoia e loucura. Como vai ele calar as vozes de quem já não tem nada a perder?

Tendo como ponto de partida os massacres perpetrados nas escolas de Columbine e Newport, “Bang, Bang! Estás Morto” é uma peça que aborda o universo da escola contemporânea e mergulha sem medo na análise de conflitos da adolescência, na relação entre pais e filhos, professores e alunos, no bullying, nas ilusões de grandeza, na atração pela violência, na sociedade de consumo e na era da imagem, nos jogos de vídeo, na esquizofrenia própria das sociedades urbanas dominadas pela ausência de diálogo, pelo vazio axiológico e pela cultura do ruído. Trata-se de um espetáculo de elevado interesse pedagógico ao suscitar a reflexão em torno de uma questão fundamental: como é possível sociedades democráticas e esclarecidas produzirem monstros como Anders Breivik?

Esta é a sinopse da nova peça do GAEDE, grupo de teatro que dirijo há já 8 anos. Como sempre, é um trabalho construído com muito carinho e entrega e que, espero, consiga comunicar com o público e lançar questões acerca de um tema tão atual e urgente. Não se pense que em "Bang, Bang! Estás Morto" embarcamos na obsessão da comunicação social em conhecer os motivos por detrás do terrorismo ou dos assassinos em série - esses são atos injustificáveis perpetrados por bestas com rosto humano -; antes pelo contrário, interessa-nos abordar o ponto de vista das vítimas - essas que, de rosto invisível, já não podem reclamar o seu direito à vida, à vida que estupidamente lhes foi roubada. Venham ao Teatro celebrar a Vida!



terça-feira, 16 de abril de 2013

Banda sonora para a Primavera (19) - Nektar, o regresso aos clássicos

Os Nektar são uma das mais amadas bandas de culto da história do rock progressivo. Com uma carreira algo errante, mas que já ultrapassa quatro décadas de edição discográfica, lançaram no final do ano passado um álbum de versões de clássicos do rock como "Sirius" (The Alan Parsons Project), "Wish You Were Here" (Pink Floyd), "Blinded By The Light" (Bruce Springsteen), "Old Man" (Neil Young), "2,000 Light Years From Home" (The Rolling Stones), "I'm Not In Love" (10 CC) e ""Africa" (Toto). Apesar de aparentemente as presentes releituras de tão grandes canções não acrescentarem muito às versões originais, trata-se - por isso mesmo - de uma humilde homenagem prestada por uma enorme banda a não menos importantes músicos seus contemporâneos. Pela mão dos Nektar, as canções ganham uma roupagem talvez mais orgânica e sem artifícios, e o álbum, "A Spoonful Of Time", consegue ser viciante. Há vários dias que não sai da minha aparelhagem. É, por isso, um disco fundamental.




sexta-feira, 12 de abril de 2013

"Notas de amor" - objeto delicado de Sarah Polley

Depois de abordar a doença de Alzheimer em "Longe Dela", Sarah Polley analisa agora a força do casamento, testando a persistência de Margot (Michelle Williams, confirmando por que é a atriz mais complexa da sua geração) enquanto esposa de Lou (um discreto Seth Rogen) mas dividida pela atração pelo vizinho Daniel (Luke Kirby, sempre no tom certo).

Que desta sinopse não fique a ideia de que estamos perante mais um objeto anódino com uma história já vista e revista. Bem pelo contrário, "Notas de Amor" é uma obra subtil e delicada, que revela em cada plano uma crença inabalável nas suas personagens e, sobretudo, um amor infinito pelo poder do cinema enquanto arte popular capaz de continuamente reformular as suas matrizes - no presente caso, o melodrama. Em boa verdade, Sarah Polley consegue evitar os clichés do género, filmando um drama poético com estrofes de humor e erotismo, mas sempre verdadeiro e comovente. Para a posteridade ficarão duas cenas sublimes: a primeira, num carrossel com os amantes ao som de "Video killed the radio star" dos Buggles; a segunda, com as personagens anteriores a dançar ao som de "Take this waltz". 


sexta-feira, 5 de abril de 2013

A misteriosa gaveta de Nuno Crato - pouco antes da demissão de Miguel Relvas


Pode parecer embirração ou configurar perseguição. Pode, acima de tudo, revelar que os meus horizontes são muito limitados. Então, quando as calotes polares derretem, quando a República Centro-Africana se agita, quando o Papa Francisco surpreende o mundo, quando chove há tantos meses sem parar, eu não tenho mais nada para perguntar?
Quando o país aguarda em transe uma decisão do Tribunal Constitucional, quando os portugueses se preparam para assistir à moção de censura do PS, quando Gaspar faz as contas a mais uma execução orçamental, é só mesmo esta a pergunta que me resta?
Sim, com Sócrates ao alcance, com Marques Mendes como alvo, com Marcelo na mira e com tantos políticos comentadores como assunto, é esta pergunta que me resta?
Confesso que o tema é pequenino, próprio do meu mundo e das minhas curtas deambulações. Mas pronto, aqui vai: que raio é que está a fazer há dois meses na gaveta de Nuno Crato o relatório final sobre as curiosas equivalências de Miguel Relvas?
Eu sei que o ministro da Educação tem que educar a pátria, salvar as crianças da ignorância e transformar os nossos petizes em alemães. Sei que os quer a fazer contas de cabeça e a escolher a profissão aos doze anos. Mas no meio de tanta coisa importante, será que o ministro se importa de abrir a gaveta da secretária e mostrar ao mundo o relatório sobre o seu colega que esconde há dois meses?
Eu sei que é pedir pouco, mas hoje deu-me para isto. Amanhã já penso em coisas importantes.
 Ricardo Costa, in Expresso

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Banda sonora para a Primavera (18) - The Strokes

O som único dos The Strokes já é clássico. "Is This It", o primeiro disco da banda, já tem mais de uma década. Entretanto, surgiram várias bandas de covers de Strokes; existe já um disco de tributo e até uma t-shirt usada dos tempos de "Room On Fire" na subcategoria vintage do eBay (à venda por uma pequena fortuna). O grupo acaba de lançar "Comedown Machine", um álbum com 11 canções espontâneas mas cuidadas, concebidas com a competência dos grandes compositores de rock. De qualquer forma, o destaque vai naturalmente para a terceira faixa do disco, "One Way Trigger", uma canção-ovni, objeto superlativo mas tão estranho que figurará em qualquer antologia pop do século XXI. Aleluia!


terça-feira, 26 de março de 2013

"The Hunt" - um filme discretamente perturbador

Thomas Vinterberg, realizador dinamarquês conhecido por um dos mais célebres filmes decorrentes do manifesto estético Dogma, "A Festa", assina o recém-estrado "The Hunt", película formalmente discreta (sobretudo, se compararmos com o desvio anarquista que foi o manifesto Dogma), mas dramaticamente perturbadora, acerca de um educador de infância que se torna vítima de uma caça às bruxas quando uma criança o acusa de abuso sexual. À deriva num mar de suspeitas, Lucas não consegue provar a sua inocência, nem aos mais próximos. 

Mads Mikkelsen venceu em Cannes a Palma de Ouro pela sua impressionante interpretação de um homem comum vítima de uma acusação devastadora, sugerindo com arrepiante precisão que ainda há crimes pelos quais se é considerado culpado até se ser provado inocente. Em boa verdade, da suspeita (injusta) de comportamento criminoso Lucas não mais se livrará, mesmo que a comunidade, no seu artificial regresso à normalidade, oculte o passado através de rituais iniciáticos. Obrigatório!


sábado, 23 de março de 2013

O roubo do presente

Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.


José Gil,  in Visão

terça-feira, 19 de março de 2013

Banda sonora para o inverno (25) - o regresso de Nick Cave às canções intimistas

Sem Mick Harvey, e sem a proeminência da guitarra, "Push The Sky Away" é um disco com mais espaço do que os clássicos de Nick Cave and the Bad Seeds e com uma temperatura diferente do delírio experimentalista dos Grinderman (projeto, na minha opinião, falhado, na medida em que não suscita o regresso do ouvinte a essas canções). Da mesma forma que Grinderman serviu para Cave abanar o seu corpo gingão e mostrar que, embora cinquentão, ainda tem força para pegar na enxada, também "Push The Sky Away" serve um propósito não necessariamente apaziguador: Nick Cave quer reedificar uns Bad Seeds atmosféricos e falsamente mansos. Na verdade, tudo aqui se toca em surdina, com teclados em loop e violinos que sobrevoam sem pousar.

O melhor resultado da concisão autoimposta, mas também da recusa do adorno, é "Jubilee Street", ou Cave a discorrer sobre uma rua de má fama sob um riff de guitarra ondulante. É uma canção em busca de clímax, mantendo debaixo de si um violino quase zumbido, abrindo espaço para versos finais com tanto de súplica como de libertação ("I am alone now, I am beyond recriminations/ Curtains are shut, the furniture is gone/ I'm transforming, I'm vibrating, I'm glowing/ I'm flying, look at me). Antes, "Waters Edge" anuncia-se com uma linha de baixo hitchcokiana: da sua janela, Cave observa jogos de sedução entre rapazes e raparigas na praia ("their legs to the world like bibles open"), para rapidamente passar a uma reflexão sobre o envelhecimento ("but you grow old, and you grow cold"). A acompanhá-lo, estão uns Bad Seeds subterrâneos, subtilmente introvertidos, interessados numa ocupação de espaço que dê primazia à melodia e à voz poética e introspetiva de Cave (ouça-se o discreto Fender Rhodes dedilhado a meio da belíssima "Mermaids").

"Push The Sky Away" é uma obra em que o músico australiano regressa aos seus temas essenciais, a saber: sexo, religião e liberdade. E de uma forma que, ao suscitar subliminarmente sucessivas audições, nos vai conquistando, primeiro pela inteligência e só depois pelo coração.


segunda-feira, 18 de março de 2013

"A Vida de Pi" - obra-prima de Ang Lee

O cinema de Ang Lee tem sido edificado com um pé na matriz popular do cinema clássico (à maneira de um William A. Wellman ou até de um William Wyler) e com o outro pousado no futuro (à semelhança de mestres como Steven Spielberg ou Robert Zemeckis). "A Vida de Pi" é o regresso ao seu cinema metafísico, que teve como paradigma o belíssimo "O Tigre e o Dragão".

O filme adapta o premiado romance de Yann Martel, que narra as vicissitudes de um jovem indiano que, após um naufrágio, se vê na imensidão do oceano Pacífico a bordo de um bote salva-vidas acompanhado de uma hiena, um orangotango, uma zebra ferida e um tigre de Bengala. Em breve estarão apenas Pi e o ameaçador tigre, e a única esperança de sobreviverem é descobrirem, de alguma forma, que ambos precisam um do outro.

Desenganem-se os cínicos e os céticos: a sinopse atrás apresentada é o pretexto para uma profunda obra filosófica que encena uma reflexão em torno do sentido da existência, da procura de Deus e da essência humana. É um filme para ver e rever.


domingo, 17 de março de 2013

Onde para a Ética na Justiça?


De acordo com o jornal i, para evitar ser preso Isaltino Morais já gastou 132 mil euros em recursos. Repito: 132 mil euros só com recursos!

E ainda haverá quem diga que, em Portugal, a Justiça é igual para todos?

terça-feira, 12 de março de 2013

Jorge Jesus revela na universidade que o seu cabelo homenageia a cabeleira de Sir Isaac Newton

Jorge Jesus deu ontem um colóquio na Faculdade de Motricidade Humana, onde explicou a sua "ciência".
Tal é o espírito científico de Jorge Jesus que confessou finalmente a razão de ser do seu penteado: homenagear a famosa cabeleira cinza-prateada de Sir Issac Newton, o físico que descobriu a lei da gravidade, grande referência na vida do treinador do Benfica. Jorge Jesus disse ainda que, no futuro, caso fique careca, não se importará, pois será uma maneira de homenagear Jorge de Sena, outro dos seus ídolos académicos.
in O Inimigo Público, 12/03/13

sexta-feira, 1 de março de 2013

Camilo Lourenço, a História e a utilidade económica


Um colega de universidade chamou-me a atenção para um comentário de Camilo Lourenço sobre professores de História no qual afirma que estes não são necessários à economia
Camilo Lourenço é um homem que tem feito carreira no comentário económico através de declarações provocadoras. Algumas, como esta, são infelizes; outras interessantes e acutilantes. (Num parêntesis, esclareço que apesar de nunca ter trabalhado com ele, fui publisher de uma revista - a Exame - de que fora diretor, pelo que posso dizer que a versão que por aí circula do seu afastamento por causa de um artigo sobre o BPN é... ficção). 
Se Camilo tivesse estudado Humanidades, sabia que a utilidade não pode ser a medida de todas as coisas e conheceria as críticas ao utilitarismo. Ocorre-me, até, que caso seja economista, Camilo possa conhecer essas críticas. E isso torna as coisas piores, porque significa que ele foi levado a dizer o que disse não por desconhecimento - o que conduz àquele pensamento cristão, "Perdoa-lhe Senhor, que ele não sabe o que diz" -, mas por convicção, o que eleva o debate a um novo patamar
O utilitarismo analisa as ações pela utilidade que têm ou virão a ter na produção de bem estar numa sociedade. Por exemplo, um utilitarista moderado dirá que os idosos produzem bem estar social através do exemplo, ou da integração social e da transmissão de conhecimentos e sabedoria. Já um radical - camilista? - dirá que um velho é um desqualificado porque já nada produz e só gasta dinheiro. 
"Não pode ser. Mas um licenciado em História é qualificado só por que tem um canudo?" pergunta Camilo. E a resposta é sim. É qualificado porque o reconheceram como possuidor de um conjunto de conhecimentos (se bem ou mal é outra discussão). Claro que a qualidade do seu trabalho pode ser melhor ou pior, mas dizer que licenciados em História, ou em Filosofia, ou em Clássicas ou em Literatura não têm qualificação só por terem um canudo - uma vez que não "têm utilidade no mercado de trabalho", é o mesmo que dizer que um idoso não tem utilidade porque só gasta dinheiro e não produz nada (algo que lembrou a um senhor economista no Japão). Ou, como diz Camilo, "Não tem utilidade para a economia".
A Economia é importante, Camilo, claro que é. Mas o mundo é mais do que a Economia. A mera racionalidade económica, se não for compensada por aspetos como caridade/solidariedade; amizade/companheirismo/amor; coesão/camaradagem/vizinhança entre muitas outras categorias não económicas (ocorre-me também a boa educação), é inútil.
Como já demonstrou o suspeito licenciado em História Rui Tavares (ontem, num artigo no 'Público') acresce que os licenciados em História têm utilidade para a Economia. E os licenciados em Filosofia também. Muitas empresas, por todo o mundo, contratam quadros destes cursos porque o conhecimento da história e do pensamento permite às empresas evitar erros.
Por exemplo, Amos Shapira, o CEO da Cellcom,a maior empresa de Cabo nos EUA, diz literalmente isto: "O conhecimento que uso como CEO pode ser adquirido em duas semanas... A principal coisa que os estudantes têm de aprender é como estudar e analisar as coisas, incluindo a História e a Filosofia". O design da Apple deve-se a um curso de caligrafia de Steve Jobs. Grandes vendedores dos EUA vêm de cursos de letras e de teatro. Em França, caro Camilo, Filósofos dão consultas a dirigentes de empresas, para os ajudar a ultrapassar certos dilemas. A própria utilidade das Humanidades na Economia é indiscutível e é reconhecida por fontes insuspeitas como a Harvard Business Review.
Porque qualquer licenciado em Filosofia diria que a teoria do crescimento constante da Economia é anti-natural (não há nada na natureza que cresça constantemente sem morrer). Qualquer licenciado em História sabe que o desequilíbrio entre a China e a Europa é bastante recente em termos históricos, pelo que tender-se-ia para o re-equilíbrio que está a acontecer. 
São coisas úteis para a sociedade, sobretudo se a sociedade não for formada por um conjunto de ignorantes.
Por: Henrique Monteiro

domingo, 24 de fevereiro de 2013

"Lincoln" - Spielberg, uma vez mais, sublime

Não há cineasta contemporâneo que melhor percebeu o espírito dos grandes autores clássicos do que Steven Spielberg. Depois de ter assinado duas obras-primas de uma assentada (a aventura pelo cinema de animação em "As Aventuras de Tintin: o segredo do Licorne", e a incursão na 1ª Guerra Mundial no lindíssimo "Cavalo de Guerra"), "Lincoln" vem confirmar a crescente maturidade e mestria do maior autor da Sétima Arte dos últimos 40 anos, revelando-o como o maior herdeiro do cinema de John Ford e Victor Fleming.

Tendo como ponto de partida o livro "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", de Doris Kearns Goodwin, em "Lincoln", Spielberg encena uma reconstituição minuciosa do esforço do mais amado Presidente norte-americano da História em fazer aprovar a 13ª Emenda, que aboliria a escravatura em prol do respeito pela dignidade da pessoa humana independentemente da cor de pele. A interpretação de Daniel Day-Lewis é sublime na entrega total do ator a tão emblemática figura histórica; mas os atores que o secundam têm também aqui o papel das suas vidas, destacando-se Sally Field, Tommy Lee Jones, David Strathairn e James Spader.

Em noite de Óscares, é bom saber de que falamos quando nos referimos às 12 nomeações da obra majestosa que é "Lincoln", e, de uma vez por todas, respeitarmos Spielberg como autor incontornável. Temos também neste filme (como já haviam sido "A Lista de Schindler", "Amistad" ou "Inteligência Artificial") um excelente complemento didáctico para aulas de História ou Filosofia, desde que professores e alunos (bem como os responsáveis pelos programas disciplinares) se predisponham a ver definitivamente o Cinema como Arte e veículo pedagógico privilegiado, capaz de transformar o Mundo.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Banda sonora para o inverno (24) - Diagonal, "The Second Mechanism"

O neo-prog, enquanto variante do rock progressivo, está a ressurgir em força na cena musical anglo-saxónica. Nesse contexto, os Diagonal têm-se distinguido na criação de harmonias que fundem o jazz rock, o psych e o classic prog. Com o seu último álbum, "The Second Mechanism", apuram a sua sonoridade, resultado de um intenso trabalho de pesquisa e um maior cuidado na composição de melodias esculpidas de forma cada vez mais afastada de dissonâncias e, portanto, mais estruturadas e concisas. É uma boa companhia para um fim de semana que se adivinha frio.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

"The Killing Fields - O Campo da Morte" - opus 1 de Ami Canaan Mann

Dois detetives e um caso de desaparecimento nos Texas Killing Fields é a premissa deste policial em tons de drama noir sobre a natureza irracional do mal. Apesar de seguir uma estrutura fria e algo distante dos personagens (bem como algumas pontas soltas, nomeadamente no que concerne a vestígios do passado dos protagonistas, nunca suficientemente explorados na montagem final), apresenta uma estética algo experimental que, por vezes, roça o bizarro, acabando por conquistar o espectador através de interpretações intensas e de uma fotografia visualmente rica. Não é um filme obrigatório, mas recomenda-se.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Banda sonora para o inverno (23) - "Journey To The Centre Of The Earth", de Rick Wakeman

"Journey To The Centre Of The Earth" é, para além de uma das obras literárias de referência da cultura universal, um dos discos mais brilhantes da história do rock sinfónico e progressivo. O seu autor é Rick Wakeman, que tem no seu currículo a coautoria dos LPs mais inspirados dos Yes. Este compositor assinou aquela obra, que levou a concerto, em 1972, tornando-se um dos discos ao vivo mais vendidos de todos os tempos. Para comemorar os 40 anos do álbum, Wakeman regravou a composição, agora, e pela primeira vez, em estúdio. Inspirado pelo livro de Júlio Verne ("Viagem ao Centro da Terra"), é um CD lindíssimo, cruzando várias estéticas, da música clássica, passando pelo jazz, até ao rock, é música de fusão de inspiração literária e cinematográfica. 

"Journey To The Centre Of The Earth" é uma obra concetual viciante, que nos exige audições sucessivas, tal a força com que prende os nossos sentidos. Acompanhada pela leitura do livro de Júlio Verne, o disco em análise ganha mais sentido. Uma obra-prima, pois claro!


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Educação cultural - in aefetivamente.blogspot.pt

Está a tornar-se cada vez mais difícil lecionar conteúdos culturais aos alunos. Muito mais do que  as dificuldades linguísticas de alguns, e da falta de jeito para a língua estrangeira, é o total desconhecimento de história, geografia, cinema, cultura em geral que é tremendamente assustador e desmotivante. 
Naturalmente que há um fosso geracional que se vai acentuando com a passagem do tempo, cá do meu lado. Eles continuam na mesma faixa etária de sempre e eu não. A nível da música isso é notoriamente percetível. Falam de coisas que desconheço, ainda que o meu fator idade não explique tudo. Podia ter à mesma os anos que tenho e saber tudo acerca das novidades musicais. 
Mas numa era em que a tudo têm acesso, nomeadamente através deste mundo fascinante que é a internet, tem vindo a agravar-se o desconhecimento generalizado sobre aspetos culturais, nacionais e ainda mais mundiais. O seu mundo é pequeno, cada vez mais pequeno, diria. Porque há um desinteresse total por saber mais e mais, mesmo que sejam apenas curiosidades ou conhecimentos extra aquilo que é necessário para terem boas notas e especializarem-se na sua área.
Todos nós temos lacunas várias e podemos sempre saber mais acerca de determinado assunto ou esfera. Há quem saiba muito de pintura mas não de cinema, por exemplo. Ou que saiba de ciências e nada de literatura. Ou muito de escultura e nada de geografia. E por aí adiante. Mas há um conhecimento geral, de nomes, figuras, lugares, acontecimentos, que é ou pode ser acessível à maior parte de nós. Com os condicionalismos vários do nosso quotidiano ou meio, educação e percurso profissional. 
Aquilo que angustia é que estes condicionalismos hoje estão mais esbatidos com um simples toque no rato do computador. Está lá praticamente tudo e tempo não parece ser algo que falte aos miúdos, comparativamente com os adultos e as responsabilidades do dia a dia. O desinvestimento nos conhecimentos culturais é enorme, e a falta de curiosidade também. Muitas vezes dizem não sei nada disso, ao que respondo não tem mal, hoje vais ficar a saber. Menos mal. Pior é quando dizem não me interessa nada disso. Porque é verdade.
Há também um aspeto que salta à vista da minha experiência pessoal. As raparigas perdem, se compararmos os dois géneros em termos de conhecimentos de cinema, geografia, política, sociedade, cultura geral. Porque será? Porque a coquetterie pessoal, os namoricos e os media de fraca qualidade levam avante? Os media, nomeadamente a televisão e alguma televisão privada, têm arrasado as gerações mais novas culturalmente. E isto serve para ambos os sexos, certamente. Apenas me dá a ideia que as miúdas se distraem com outras coisas mais  e são várias.
Não querendo generalizar muito, porque posso errar, a minha experiência é a que, de facto, tive sempre mais rapazes a partilhar e a mostrar curiosidade em aprender do que meninas, com muita pena minha. Há exceções, felizmente, mas tem sido assim. Por outro lado, uns e outros cada vez sabem menos, e parece-me que será transversal a muitas escolas, muitas mesmo. Ora isto é uma realidade dos diabos. Porque a angústia e a preocupação não se confinam a uma sala de aula, elas estendem-se a toda uma sociedade futura.

(Sempre defendi a ideia de haver uma disciplina de cultura geral obrigatória, uma vez por semana, com avaliação e tudo. Nunca a pude apresentar em lado nenhum, claro.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Os Professores - por valter hugo mãe


Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em
livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não
guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns
professores como se fossem família ou amores proibidos. Tivem uma professora
tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao
menos entre os meus treze e os quinze anos de idade. A escola, como mundo
completo, podia ser esse lugar perfeito
... Ver mais de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada
indivíduo se vota a encontrar no seu mais genuíno, honesto, caminho. Os
professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se
o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a
tornar. Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos
breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que
tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na
passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que
estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a
tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei
perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão
um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há
quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como
criar de novo aquele que os recebe. Os alunos nascem diante dos
professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do
entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores
versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante.
Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro
durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um
orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por
merecer que alguém os discutisse comigo. Houve um dia, numa aula de
história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga.
Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava
contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às
figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo.
Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela
solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes
do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a
minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na
verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha.
Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes.
Profundamente felizes. Talvez estas coisas só tenham uma importância
nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em
Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no
sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir
uma sedução antiga, um amor que começara
muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem
dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos
oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível. Dá -me isto agora
porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio
povo. E porque me parece que perseguir e tomar os
professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores
são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum
miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da
maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de
melhorar os nossos miúdos, que é pior do
que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do
que comer apenas sopa todos os dias. Estragar os nossos miúdos é o fim do
mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para
melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a
esperança toda de que, um dia, o mundo seja um
condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas
esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade,
disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista
para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de
afeto. As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os
professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é
indiferente ensinar
vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da
maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus
cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é
um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de
educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O Estado do Mundo (15) - a década mais quente

A última década foi a mais quente que o planeta conheceu desde que se começaram a fazer registos de temperaturas em 1880. A conclusão é de climatólogos norte-americanos que acrescentam que, com exceção de 1998, os nove anos mais quentes foram registados após 2000, com 2010 a ser o que teve a temperatura mais elevada. Além disso, a Organização Mundial de Saúde alerta que a poluição do ar provoca dois milhões de mortes prematuras por ano, sendo 50% destas de crianças com menos de cinco anos de idade, um número que podia baixar 15% se o nível de poluição fosse reduzido para um patamar tolerável. Haverá vontade política em fazê-lo?

domingo, 13 de janeiro de 2013

"Zoolander" - a civilização da frivolidade

Em 2001, Ben Stiller realizou um filme que, apesar de alguma exposição mediática, passou relativamente despercebido. Doze anos depois, podemos reavaliar a película e constatar como se trata de um documento incontornável para compreendermos aquilo a que Mario Vargas Llosa designa por "Civilização do Espetáculo" - uma cultura que mitifica a estética do vazio, desprovida de bússola ética e espiritual, fascinada pela fama, confundindo preço e valor da obra de arte. 

"Zoolander" é uma comédia desvairada que, a partir da história de um modelo famoso que, após uma gloriosa ascensão no mundo da moda, inicia a queda rumo ao esquecimento, retrata a forma como, a partir da segunda metade do século XX, a cultura se tornou frívola - precisamente, uma civilização do espetáculo. Há dois momentos, particularmente hilariantes, inspirados em "2001 - Odisseia no Espaço" e "A Laranja Mecânica", filmes de Kubrick; há divertidíssimos cameos de vedetas e gurus da moda (destacando-se as presenças de David Bowie e David Duchovny); e há a frenética câmara de Ben Stiller, que alguns anos antes  nos tinha surpreendido com a comédia negra "O Melga".

Uma recente entrevista de um jornalista inglês a Quentin Tarantino que acabou em discussão, com este cineasta a recusar-se a analisar questões sérias e pertinentes colocadas pelo primeiro sobre o conteúdo violento dos seus filmes e as implicações dessa violência no real social, demonstram bem quão superficial é a cultura contemporânea e grande parte dos seus artistas. Tarantino insistiu que estava ali para promover a sua última fita, "Django Libertado", e não para analisar questões sociológicas implicadas nos filmes que levam a sua assinatura. É esta a atitude filosófica e cultural da civilização do espetáculo

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...