segunda-feira, 23 de maio de 2011

O cinema de Kôji Wakamatsu

O cinema pink, género difícil de definir (para uns, é pornográfico, para outros é a quintessência do erotismo), surgiu no Japão na década de 60 do século passado pela mão e pelo olhar de Kôji Wakamatsu, cineasta que tem sido nos últimos anos alvo de reavaliação crítica. O manifesto que introduziu aquele género cinematográfico estabelece quatro regras fundamentais: ter aproximadamente uma hora de duração, ter cenas de sexo, ser filmado em 16mm ou 35 mm no período de uma semana e estar limitado a um orçamento reduzido. 

Em cerca de 50 anos de carreira, Kôji Wakamatsu tem assinado uma série de filmes ousados, tanto na forma como no conteúdo. Chocantes, subversivas, anarquistas, ou simplesmente manifestos estéticos, cinco películas do realizador japonês foram recentemente editadas em Portugal pela Clap filmes. Com nomes estranhos, mas não tão bizarros quanto os filmes que representam, "Os Segredos Atrás das Paredes", "O Embrião Caça em Segredo", "Vai, Vai Virgem Pela Segunda Vez", "Sex Jack - Sistema Violado" e "O Êxtase dos Anjos" são obras que merecem ser vistas, ainda que, por vezes, se situem na linha ténue que separa a arte do lixo abjecto.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Tamara Drewe" - um filme de Stephen Frears

Stephan Frears foi um dos mais aclamados cineastas surgidos na década de 80, capaz de alternar o cinema britânico independente ("A Minha Bela Lavandaria", "A Carrinha") com o cinema dos estúdios de Hollywood ("Ligações Perigosas", "O Herói Acidental") sem perder a identidade e, sobretudo, a classe com que filma e dirige os actores. Trata-se, na verdade, de um cineasta que opta sempre pela adaptação de argumentos de estrutura clássica, abordando-os com impressionante precisão e rigor. Nem todas as obras de Frears resultam em grandes filmes, mas ainda assim mantêm uma coerência que permite destacar este realizador dos demais parceiros da indústria cinematográfica. 

"Tamara Drewe" é a história de uma jovem mulher que, após a morte da mãe, recebe de herança a casa na aldeia em que cresceu, o que a obriga a regressar e a reencontrar o seu passado. Os personagens que com ela se cruzam têm todos espessura dramática e a narrativa é sempre pontuada por um humor leve mas fino, garantindo ao espectador cerca de duas horas de excelente entretenimento. A ver!

sábado, 14 de maio de 2011

Banda sonora para a Primavera (11)

A recente reedição de "Bridge Over Troubled Water", clássico maior dos Simon and Garfunkel, assinalando o 40º aniversário do álbum, é um dos acontecimentos culturais de 2011. Na verdade, o referido disco é um monumento da canção popular que só tem paralelo em clássicos de folk-rock de Bob Dylan, Neil Young ou Bruce Springsteen. É uma obra-prima incontornável para se perceber a evolução da música popular ao longo da segunda metade do século XX. O génio de Paul Simon (mais esquecido que os outros autores) carece de reavaliação e aqui está um bom pretexto para tal análise. Aliás, em simultâneo o cantautor acaba de editar o seu mais recente álbum a solo - "So Beautiful Or So What".

"Bridge Over Troubled Water" - Simon and Garfunkel

sábado, 7 de maio de 2011

GAEDE no XXXII Encontro Nacional de Teatro na Escola (ETE)

O XXXII ETE decorreu em Almada entre os dias 4 e 7 de Maio, numa organização conjunta da Escola Secundária Daniel Sampaio e do Agrupamento de Escolas Elias Garcia. Foi um belíssimo Encontro, com a participação de grupos de teatro de muitas escolas do País e onde o GAEDE esteve, pelo quinto ano consecutivo, presente, desta vez enquanto Grupo Observador. Entre workshops e espectáculos, foi mais uma festa de celebração do Teatro, da Escola, da Amizade, dos Afectos e da Vida.

Consultem o Programa do XXXII ETE em http://www.eteac.org/.

Viva o Teatro!

Vivam os ETEs!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Banda sonora para a Primavera (10)

Fabuloso vídeo de Keny Arkana! É música para os tempos difíceis que estamos a atravessar, mas sobre os quais urge reflectir.

"5eme soleil" - Keny Arkana

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Deputados ingleses

Os deputados do Reino Unido, na "Mãe dos Parlamentos":

1. Não têm lugar certo onde sentar-se, na Câmara dos Comuns;
2. Não têm escritórios, nem secretários, nem automóveis;
3. Não têm residência (pagam pela sua casa em Londres ou nas províncias);
· Detalhe: e pagam, por todas as suas despesas, normalmente, como todo e qualquer trabalhador;
4. Não têm passagens de avião gratuitas, salvo quando ao serviço do próprio Parlamento.
E o seu salário equipara-se ao de um Chefe de Secção de qualquer repartição pública.
Em suma, são SERVIDORES DO POVO e não PARASITAS do mesmo.

A propósito, sabiam que, em Portugal, os funcionários não deputados que trabalham na Assembleia têm um subsídio equivalente a 80 % do seu vencimento? Isto é, se cá fora ganhasse 1000,00 € lá dentro ganharia 1800,00 €. Porquê? Profissão de desgaste rápido! E por que é que os jornais não falam disto? Porque têm medo? Ou não podem?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Portugal com Sócrates (2) - o legado de 6 anos de (des)governo

Do legado socrático ficam mais de 600 mil desempregados, o nível mais alto em cerca de 30 anos, mas os economistas estimam que a trajectória de subida de desemprego ainda demore algum tempo a passar. Segundo o Eurostat, a taxa de desemprego em Portugal atingiu em Janeiro os 11,2 por cento, mantendo o mesmo valor registado em Dezembro, mas tendo aumentado 0,7 pontos percentuais face ao mesmo mês do ano anterior.

A juntar à herança está a nova onda de emigração: jovens quadros técnicos e científicos optam, cada vez mais, por fazer carreira no estrangeiro devido às melhores oportunidade e salários. E fazem eles muito bem!....

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Portugal com Sócrates (1) - o legado de 6 anos de (des)governo

Portugal tem uma dívida externa bruta de 230 por cento (são  cerca de 410 mil milhões de euros que o esforçado primeiro-ministro demissionário nos deixou como herança). Sócrates deixa uma factura de 9,5 mil milhões de euros para pagar até 2015. O que quer dizer que o próximo Governo terá de acarretar a responsabilidade por estes encargos, assumidos pelos últimos dois (des)governos socráticos.

Mais de dois terços deste valor dizem respeito às PPP rodoviárias. Aparentemente, as sete SCUT, construídas durante o último (des)governo socialista de António Guterres, e as nove concessões rodoviárias lançadas desde que Sócrates chegou ao poder, em 2005, são as culpadas pela dimensão dos encargos financeiros do Estado. 

sábado, 23 de abril de 2011

"Os Doze" - um romance invulgar

William Gladstone é responsável por um dos romances mais originais editados já neste século. "Os Doze" é a obra a que me refiro. O livro narra a história de Max que, ao longo de cerca de sessenta anos da sua vida, é literalmente lançado pelo destino numa viagem à descoberta do segredo por detrás da antiga profecia Maia sobre o final dos tempos (previsto para 21 de Dezembro de 2012). 

Aparentemente, esta sinopse evidencia um material narrativo susceptível de resvalar para uma série de reflexões superficiais e pseudo-filosóficas, típicas de tanta literatura esotérica (com Paulo Coelho à cabeceira). Todavia, em "Os Doze", Gladstone consegue a proeza de criar uma aventura literária invulgar, combinando elementos do thriller (sobretudo, na relação de Max com o seu irmão), do romance iniciático (há qualquer coisa em Max que tem a ver com o herói de "O Fio da Navalha", de Somerset Maugham*) e até de alguma (boa) literatura esotérica (Eckhart Tolle, por exemplo) de forma harmónica e prendendo o leitor da primeira à última página.

Além disso, há no romance em análise uma simples, mas profunda reflexão filosófica que procura, uma vez mais, dar um sentido metafísico à existência da humanidade. O segredo acaba por residir na nossa capacidade de amar o próximo, elevando finalmente cada homem e mulher a uma consciência cósmica universal.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Banda sonora para a Primavera (9)

Tiago Guillul, através da sua originalíssima editora - Flor Caveira -, tem assinado um rock de inspiração cristã e lançado vários artistas que aproveita como colaboradores para a sua própria obra. Em V, Guillul apresenta uma dúzia de canções limpas e de guitarras bem afinadas, que bem mereceriam maior airplay nas ondas hertzianas cá do burgo. "São Sete Voltas Para a Muralha Cair" ou "O Meu Carcereiro" são hinos construídos com uma precisão e um sentido de harmonia superlativos, a ouvir repetidamente.

"O Meu Carcereiro" - Tiago Guillul


segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme" - de Oliver Stone

Nos tempos da minha cinefilia adolescente, Oliver Stone era o símbolo do cineasta politicamente comprometido com os ideais fundadores da esquerda norte-americana, lutando activamente pela denúncia dos crimes de guerra cometidos por políticos republicanos corruptos, pela CIA, pelo Pentágono e por corporações empresariais que mandariam efectivamente na grande nação americana e, por consequência, no mundo. Assim, qualquer nova película deste realizador constituía um dos acontecimentos cinematográficos do ano. A década de 80 foi, aliás, a mais prolífica de Stone. Senão vejamos: "Salvador", "Platoon", "Talk Radio", "Wall Street" e "Nascido a 4 de Julho", são cinco obras-primas assinadas por aquele autor. E a verve criativa não acabaria aí - a década seguinte seria também marcada por outras obras de referência de Stone: "The Doors", "Entre o Céu e a Terra", "JFK", "Assassinos Natos", "Nixon" e "Sem Retorno", são a continuidade natural da reflexão do cineasta sobre a história recente dos Estados Unidos da América.

Curiosamente, a personagem mais mítica filmada por Oliver Stone acabou por ser o maior dos vilões da sua obra: Gordon Gekko (magistralmente interpretado por um Michael Douglas inspiradíssimo). A recente crise financeira internacional acabou por motivar o realizador a regressar a "Wall Street", constatando que, afinal, o mundo da alta finança - o capitalismo - não mudou: os tubarões da banca continuam a mandar no mundo, ditando a agenda e as decisões políticas; o dinheiro é o meio e o fim orientador da civilização; a ecologia não é, na verdade, encarada como um sério (e talvez o único) problema filosófico por quem compra, gere e vende empresas; num mundo dominado pela moeda, o ser humano só tem valor enquanto for capaz de produzir e gerar dinheiro.

Não sendo a obra-prima que foi o filme homónimo dos anos 80, "Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme" é a continuação possível, mais de vinte anos depois. Os espectadores mais jovens são diferentes daqueles que viram a fita original, daí talvez a suavidade (diria até, o tom um pouco meloso) da última incursão de Stone pelo universo da bolsa de Nova Iorque. Ainda haverá yuppies?

Uma última nota para a fabulosa banda-sonora composta por Craig Armstrong e com canções originais de David Byrne e Brian Eno - um must para os melómanos.

terça-feira, 5 de abril de 2011

"Lost" - a melhor série de sempre merecia outro final

"Lost" durou 6 temporadas. As cinco primeiras são geniais. Dificilmente encontramos uma série tão interessante, pensada com rigor milimétrico, mas sem nunca descurar a alma das personagens. John Locke, David Hume e Sawyer são alguns dos emblemáticos nomes dos personagens centrais da série criada por J. J. Abrams. Só é pena que a última temporada nos dê a certeza de que os argumentistas perderam o fio narrativo e, afinal, não sabiam mesmo como dar sentido às diversas ocorrências. A conclusão é metafísica, mas esse não é o problema. Aliás, acho as soluções filosóficas sempre mais interessantes que as empíricas. O problema reside no recurso à metafísica mais evidente e fácil. Não adianto mais nada, de modo a não privar o espectador incauto do prazer que poderá ter em desfrutar de tal final.


segunda-feira, 28 de março de 2011

"Civilização" no Rivoli Teatro Municipal (Porto) - 1 e 2 de Abril, às 21h30

O GAEDE é um projecto extra-curricular que desenvolvo há 5 anos no Colégio D. Dinis. "Civilização" é já o sexto espectáculo (os anteriores foram "O Muro", "O Eterno Retorno", "A Morte Não Existe", "Ontem à noite, uma criança sonhou..." e "Luz").

"Civilização" é uma parábola política, plena de energia e fisicalidade, que reflecte acerca dos ciclos políticos ditatoriais, revolucionários e democráticos. A acção situa-se num circo em que os artistas são pessoas comuns, que lutam pela sobrevivência numa existência marcada pela rotina de um quotidiano absurdo e alienante. 

Inicialmente, "Civilização" pretendia estabelecer uma síntese da estética que marcou os cinco trabalhos anteriores do GAEDE (sobretudo, uma revisitação da peça "O Eterno Retorno", levada à cena em 2007). Progressivamente, foi conquistando autonomia e singularidade, acabando por ser um espectáculo que surge sob o signo das revoluções que estão a decorrer no Mundo, mas que também se assume como uma reflexão crítica em torno da matriz cultural judaico-cristã.

Garantimos um trabalho forte, algo provocador, que oscila situações negras e violentas (encenamos uma crucificação) com cenas retiradas dos melhores álbuns da infância (temos uma boneca e um palhaço como personagens). A banda sonora é a melhor das 6 peças que construímos até hoje.

É a segunda vez que estaremos em nome próprio na cidade do Porto - e logo no Teatro Rivoli! É uma oportunidade única na história, currículo e objectivos do grupo. Mas, para o sucesso de "Civilização", será fundamental termos a maior divulgação possível e muito público. Divulguem junto dos vossos contactos, venham assistir ao espectáculo e tragam pais, irmaõs, amigos, professores e camaradas dos 6 aos 106 anos de idade.

Os bilhetes estão à venda na bilheteira do Rivoli Teatro Municipal do Porto ou em www.bilheteiraonline.pt

Para mais informações, consulte: http://bebegaede.blogspot.com ou www.colegioddinis.pt

GAEDE - Ensaios de "Civilização"




segunda-feira, 21 de março de 2011

Banda sonora para a Primavera (8)

Em 1993, Rodrigo Leão, acompanhado pelos Vox Ensemble, alterou o panorama da música nacional ao editar "Ave Mundi Luminar", disco conceptual, minimalista, moderno, mas sem nunca perder de vista o rigor classicista dos grandes compositores. No final de 2010, o músico reeditou o álbum em versão remasterizada e com um disco com novas gravações ("In Memoriam"). O CD é lindíssimo. Para ouvir, repetidamente, durante a Primavera que agora se anuncia.

"Ave Mundi" - Rodrigo Leão

sábado, 19 de março de 2011

"A Rede Social" - tese sociológica de David Fincher

David Fincher é um cineasta cuja linha autorística se aproxima da corrente estética iniciada por Stanley Kubrick ("Nascido Para Matar" ou "De Olhos Bem Fechados") e prosseguida por Christopher Nolan ("Memento" ou "A Origem"). Na verdade, desde "Seven", passando por "Clube de Combate" e "Zodiac", David Fincher tem construído um cinema hermético, cerebral, filosófico e, sobretudo, de elevado interesse sociológico. Ora, é essencialmente enquanto tratado sociológico que "A Rede Social" deve ser analisado. De facto, trata-se de um filme elaborado com precisão geométrica que, partindo de um argumento depurado e rigoroso, entra pelos personagens adentro sem qualquer floreado ou comiseração. São os paradigmas da geração da primeira década do século XX que protagonizam esta história baseada na criação do Facebook (com Mark Zuckerberg à cabeceira). Gente criativa, mas pragmática, com critérios morais ambíguos e indiferentes a causas nobres ou valores éticos. No fundo, são uma espécie de renascimento da geração yuppie que marcou os anos 80 do século passado e que tão bem retratada foi nas obras de Brest Easton Ellis. 

Apesar das excelentes interpretações dos actores (sobretudo de Jesse Eisenberg) e de uma montagem prodigiosa (o fantasma do "Citizen Kane" de Orson Welles também passa por aqui), não estamos perante a obra-prima que grande parte da crítica elevou, mas antes perante um objecto cinematográfico singular a que o tempo permitirá uma leitura mais objectiva.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ministério da "Inducasão" (10)

Isabel Alçada e seus cúmplices decidiram não atribuir o Prémio Nacional de Professores e o Prémio Mérito Integração, iniciativas promovidas em 2007 pela sua antecessora na pasta da educação. Sendo assim, o júri decidiu que nenhum candidato a professor do ano cumpria os requisitos de melhor docente, uma vez que, segundo o Ministério da Educação, "o objectivo desta iniciativa é reconhecer e galardoar os docentes que contribuam de forma excepcional para a qualidade do sistema de ensino". Ou seja, este ano das duas uma: ou todos os professores são bons; ou todos os professores são maus. Na verdade, com esta decisão, os cofres do Estado poupam 25 mil euros e... em tempos de crise... o que era importante há 4 anos atrás deixa de ter relevância.

sábado, 12 de março de 2011

"Civilização" no CALE-se 5

Hoje, pelas 22h, o GAEDE apresentará um excerto de "Civilização", o seu novo espectáculo. Não será ainda a versão definitiva do trabalho, tal como o apresentaremos nos dias 1 e 2 de Abril no Rivoli, mas será uma boa amostra da peça que estamos a ultimar.

O CALE-se 5 é um Festival Internacional de Teatro que decorre na Associação Recreativa de Canidelo (Rua do Meiral, 51 - junto ao Cruzamento dos 4 Caminhos), em Vila Nova de Gaia.

"Civilização" é uma parábola política que reflecte sobre a dialéctica ditadura - revolução - democracia.
Num circo chamado “Civilização”, um palhaço apresenta o maior espectáculo do mundo. Os artistas são pessoas comuns, que lutam pela sobrevivência numa existência marcada pela rotina de um quotidiano absurdo e alienante. Caminham na passarela da vida, assumindo a pose de manequins falsos que caminham altivamente.
O sorriso vazio cessa ao grito de ordem do general em movimentos rígidos e coordenados. Um Messias é elevado, e logo pousado, antevendo-se o ciclo que se segue. Rotina – movimentos repetitivos, indiferença, alienação, tristeza, angústia, prisão. Os guardas controlam todos os movimentos e nada escapa ao grande olho do big brother. A criança, ainda colorida, destaca-se do ciclo e observa os fios esquecidos da marioneta messiânica. Brinca com ela, espicaça-a e, por fim, abre-lhe a consciência. O despertado sente a sua existência e verifica que vive agrilhoado, por trás de um muro. Ergue a sua voz e a sua força contra ele, tenta em vão destruí-lo, perante os olhares perplexos dos outros seres, apáticos, adormecidos. A guarda é chamada a actuar. O Messias é crucificado. Mas outros o seguirão, e o corpo crucificado do mártir desperta mais consciências, que formam um motim. O Messias é libertado. Dois anjos descem para o envolver em carícias, calor materno, útero renovado. A criança desperta-o novamente. As pessoas aproximam-se, prostram-se à sua imagem renascida. O déspota destituído vem oferecer oficialmente o seu lugar. Com relutância, o Messias vestiu a farda de líder. É elevado, é reconhecido. A criança adormeceu também, o grande chefe procura os seus fios. Dançam livres, ou puxados? A farda tomou a pele do Messias. Ele é agora um grande ditador: “Dispersem, trabalhem!”. Vida quotidiana. Cansaço ao extremo, desistência, desfalecem as almas. Mas eis que das cinzas do quotidiano se ergue novamente a criança que, agora renascida, segura cuidadosamente nas mãos uma flor e, com ela, desperta a humanidade e reconstrói a ideia de civilização.

Apareçam!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ministério da "Inducasão" (9)

O distrito de Viseu deverá ser o mais afectado na nova vaga de encerramento de mais escolas do primeiro ciclo, e alguns estabelecimentos de ensino receberam já ordem para não efectuar matrículas para o 1º ano. O Governo tinha previsto encerrar 400 escolas (sim, 400!), mas de acordo com as contas das autarquias são mais 254 a fechar portas. 

Que futuro espera um País que não cria incentivos à natalidade? Que anos serão esses, os que se avizinham, em que os jovens adultos não sentem que têm condições para se autonomizarem e construírem uma família? Que projectos de vida estarão a ser edificados? Que importância dá o Ministério da Educação à educação para a identidade? Que plano teleológico orienta o Governo de quem insiste em nos (des)governar?

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...