quinta-feira, 30 de agosto de 2012

"4:44 Último Dia na Terra" - a obra-prima de Abel Ferrara

Descobri Abel Ferrara ainda durante a minha adolescência, nos últimos anos da década de oitenta. Curiosamente, numa altura em que o seu nome não era levado a sério pela mesma crítica que agora faz de cada novo filme daquele cineasta nova-iorquino um acontecimento. Ainda assim, via os seus filmes de baixo orçamento com algum fascínio, neles percecionando o alvor de um autor. "Fear City", "China Girl", "Cat Chaser" e "King Of New York" permanecem películas de culto a necessitarem de urgente reavaliação, face à credibilidade conquistada por Ferrara a partir da década de noventa, sobretudo graças a "Bad Lieutenent" (filme que o consagrou como legítimo herdeiro de Scorsese).

"4:44 Último Dia na Terra" é uma profundíssima reflexão em torno do sentido da existência, das escolhas que definem o que somos e da irreversibilidade das mesmas. Trata-se de uma fita complexa, soberbamente interpretada por Willem Dafoe e Shanyn Leigh, que assumem o papel de um casal a contas com a vida, o passado, o presente e o futuro que lhes espera após o apocalipse (sim, o futuro, já que a espiritualidade e a procura da redenção são traços comuns da demanda dos personagens criados por este cineasta). A Nova Iorque de Ferrara é preenchida por poucos personagens, todos eles reais, divididos entre os prazeres da carne e as necessidades espirituais. 

Após o visionamento da obra em análise, vem à mente uma questão essencial: será Abel Ferrara o último dos cineastas urbanos? Duas coisas são certas: (i) o filme deixa-nos sem fôlego; (ii) é o melhor filme deste verão. 
Trailer de "4:44 Último Dia na Terra"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Banda sonora para o verão (23) - "Lost In The New Real"

Arjen Anthony Lucassen é um músico holandês de 52 anos, corresponsável pelo ressurgimento e revitalização do rock progressivo nos últimos dez anos. No início da sily season editou um ambicioso disco duplo, "Lost In The New Real". Trata-se de uma obra conceptual, cuja história sci-fy é narrada de forma arrepiante por Rutger Hauer (ator de culto, também holandês, que na década de 80 trabalhou com os últimos cineastas clássicos em filmes como "Fim de Semana de Osterman", de Sam Peckinpah, "Blade Runner", de Ridley Scott, "A Mulher Falcão", de Richard Donner, "Flesh and Blood", de Paul Verhoeven, "Terror na Auto-Estrada", de Robert Harmon, "Fúria Cega", de Philip Noyce, entre outros filmes de culto): num futuro indeterminado vive-se uma distopia cibernautica que anulou a dor e a morte, mas onde a perceção humana do real é manipulada (aliás, a questão central do disco é saber distinguir o real do virtual) e o preço a pagar é a hipervigilância de um big brother que acompanha todos os nossos passos, decide quem pode procriar e as escolhas que podemos fazer. Ah, nesse espaço e tempo (o new real que dá nome ao álbum) já tudo foi inventado e está registado numa imensa base de dados (ouça-se a canção deliciosamente retro Pink Beatles In A Purple Zeppelin). Deprimente, sobretudo para quem precisa de criar para se sentir vivo (o paraíso artificial é viajar em sonhos por múltiplas realidades).

É um pesadelo orwelliano, contaminado pelas distopias digitais imaginadas por Philip K. Dick. E já que de música se trata, pois bem, fiquem sabendo que o disco de Arjen Lucassen é um autêntico caleidoscópio musical que apetece ouvir vezes sem conta.  

Arjen Anthony Lucassen - "Lost In The New Real"


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Se isto é um homem" - obra incontornável de Primo Levi

Escrito entre o final de 1945 e o início de 1947, ou seja, imediatamente após os factos narrados, Se isto é um homem é, antes de mais, a narrativa seca e minuciosa, a crónica submissa e por vezes intencionalmente humilde, de uma experiência extrema: um ano vivido por Primo Levi (1919-1987) no campo de concentração de Auschwitz, vítima e testemunha do maior horror que o século XX produziu. E um horror que ressalta em toda a sua evidência "natural", justamente pela firme recusa por parte do autor de qualquer forma de amplificação retórica, de qualquer forma de "fingimento" literário, ainda que legítimo; um horror nu e cru, e totalmente autêntico: por isso mesmo, tanto mais aterrador, tanto mais iniludível e impossível de exorcizar.

Trata-se definitivamente de um testemunho sobre a condição humana, sobre os seus limites e os seus insuspeitáveis recursos, sobre a sua obstinada capacidade de conceber o bem e sobre a fragilidade das suas defesas perante a sugestão do mal. Não é tanto a relação carrasco-vítima que interessa a Levi (os carrascos raramente aparecem no livro, longínquos e ausentes, encerrados numa dimensão quase estranha), mas sim a que se cria entre uma vítima e outra, nas absurdas hierarquias internas, nos ingénuos conluios com o poder e nas igualmente ingénuas esperanças numa humanidade sobrevivente, no escárnio dos prisioneiros "veteranos" nos confrontos com os "noviços", ou de alguns grupos étnicos nos confrontos entre si.

E é no lúcido registo da terrível desumanização a que todos, sem exceção, se submetem no campo de concentração, que encontramos a mensagem da mais elevada e sofrida ética contida em Se isto é um homem. O juízo moral, naturalmente, não invalida nem ignora as responsabilidades individuais e coletivas, conseguindo sempre, no entanto, avaliá-las na base simples mas difícil da consciência humana: o inapelável tribunal dos justos que se encontra no fundo de cada um de nós, e que Primo Levi consegue inteira e miraculosamente trazer à luz do dia. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A urgência do silêncio na esplanada

Gostava de entender o outro, mas às vezes não chego lá. Há um outro que me atazana o juízo nestes dias de verão, porque ao fim da tarde, a melhor hora para contemplar em sossego o céu a alaranjar-se no oceano, insiste em ouvir música (?) minimal eletrónica, de graves intensos, que estremecem a areia, desfazem as conchas e afugentam os escaravelhos. Esse outro, que não concorda comigo, é uma multidão que se abana em fato de banho e biquíni num bar de madeira, emborcando bebidas coloridas, gritando inanidades aos ouvidos, enquanto o sol - pobre coitado que prefere o silêncio - lá se esconde no horizonte, lamentando que a natureza não lhe permita que acelere o processo. 

Devem render bastante estas licenças de décibeis, atendendo à propagação de festas do género nos últimos verões. E se tantos concelhos se orgulham de ter praias com bandeira azul, questiona-se que raio de classificação é esta que não contempla a poluição sonora. 

Se é assim ao lusco-fusco, durante o dia a coisa não melhora muito. Os veraneantes são maioritariamente citadinos e devem andar tão viciados no tráfego que, só para matar saudades, enquanto descansam na praia, regalam-se a ouvir o som de fundo das motas de água. São cada vez mais os pontos de entrada desses hediondos brinquedos. Quase desapareceram as gaivotas. Não me refiro aos pássaros, outros pobres coitados, mas das pequenas embarcações a pedal, demasiado simples para um mundo tecnológico. Gosto dos surfistas, que desafiam o mar com uma prancha, mas nunca desses demónios a motor, que empestam o mar de gasolina e barulho, deixando-o, tenha a certeza, um pouco menos azul.

O último grito da tecnologia é o silêncio - esse é o verdadeiro luxo. Mas é um luxo desprotegido e em vias de extinção porque, por mais que se levante o volume do silêncio, o ruído ouve-se sempre mais alto. O silêncio não se pode gritar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"Polissia" - um filme direto ao osso

Para que não restem dúvidas: "Polissia", magistralmente realizado por Maïwenn (que também participa como atriz), é um filme fabuloso. Posto isto, podemos ir direto ao osso.

Acompanhamos uma brigada de proteção de menores em França, imergindo sem rede num universo extremamente duro, difícil, nauseabundo e aversivo. Tal como a personagem interpretada pela própria realizadora também nós vemos através de uma lente a rotina de polícias que lutam diariamente contra pesadelos; sentimos no seu quotidiano o terror e a frustração por saberem que, muitas vezes, têm o seu grito de presença abafado; imaginamos quão difícil deve ser regressarem a casa, ao final do dia, com a memória de tantas crianças tratadas de forma indigna por adultos com - como diz um dos personagens da película - complexos de Édipo mal resolvidos; crianças a quem foi roubada a infância, obrigadas a participar no mundo insano e criminoso de adultos com fixações execráveis. O título do filme (com a palavra polícia escrita com dois 'ss') remete simultaneamente para o erro ortográfico naturalmente cometido por crianças a aprender a escrever e para os desejos distorcidos/doentios de pedófilos e de pais que não têm competências para cuidar dos seus filhos.

"Polissia" é uma obra brutal na verbalização dos casos das crianças vítimas de abusos e maus tratos, mas não menos forte quando nos embrenhamos na intimidade dos polícias. Estamos, portanto, perante um filme que se enquadra numa matriz realista em que poucos cineastas se têm destacado. Maïwenn consegue a proeza de agarrar o espectador do princípio ao fim, num filme de câmara cru, ousado e que nunca nos dá tréguas. Venceu justamente o prémio do júri do Festival de Cannes de 2011.

Trailer de "Polissia", de Maïwenn

terça-feira, 24 de julho de 2012

Nunca te deixei partir - dias 26 e 27 de julho, 21h45, no Rivoli

Nos dias 26 e 27 de julho apresentaremos os dois últimos espetáculos de "Nunca te deixei partir", adaptação da obra "Morreste-me", de José Luís Peixoto.

Trata-se do relato comovente e avassalador da morte de quem mais amamos, a descrição do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem sentida sob a forma de memória redentora. Em palco, 17 atores desdobram-se no papel do filho que procura ultrapassar o momento de dor. Formalmente, é um texto contínuo, aqui repartido por vários monólogos e pequenos diálogos.

"Nunca te deixei partir" é um espetáculo intenso e sincero, que procura celebrar a vida, o amor entre pais e filhos, os laços afetivos mais puros, sólidos e incondicionais. O elenco da peça é constituído por jovens que se dedicam a este projeto em regime de complemento curricular, mas com a entrega dos melhores profissionais aliada à motivação e prazer genuíno de um artista amador.

Bilhetes à venda no Rivoli Teatro Municipal, Bilheteiraonline.pt, FNAC e CTT.
Reserva de bilhetes: 22 339 22 01


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Carta aberta ao reitor da Universidade Lusófona - por João Miguel Tavares

Exmo. Reitor,

Foi com grande satisfação que soube que a Universidade Lusófona conferiu uma licenciatura em Ciência Política ao Dr. Miguel Relvas em apenas 14 meses, reconhecendo dessa forma a sua elevada estatura intelectual. Sempre sonhei com o alargamento das Novas Oportunidades ao Ensino Superior e fiquei muito feliz por terem dado o devido valor à cadeira de Direito que o senhor ministro fez há 27 anos com nota 10. Depois, naturalmente, o processo foi "encurtado por equivalências reconhecidas" (palavras do Dr. Relvas), após análise do seu magnífico currículo profissional.

É dentro desse mesmo espírito que vinha agora solicitar igual tratamento para a minha pessoa. Embora seja licenciado pela Universidade Nova com uns simpáticos 17 valores, a verdade é que o curso levou-me quatro anos a concluir e o Jornalismo anda pela hora da morte. Nesse sentido, e após análise da oferta disponível no site da universidade, venho por este meio requerer a atribuição do grau de licenciado em: Animação Digital (tenho visto muitos desenhos animados com os meus filhos), Ciência das Religiões (às vezes vou à missa), Ciências Aeronáuticas (já viajei muito de avião), Ciências da Nutrição (como imensa fruta), Direito (fui duas vezes processado), Economia (sustento uma família numerosa), Fotografia (tiro sempre nas férias) e Turismo (visitei 15 países). Já agora, se a Universidade Lusófona vier a ministrar Medicina, não se esqueça de mim. A minha mulher é médica, e tendo em conta que eu durmo com ela há mais de dez anos, estou certo de que em seis meses posso perfeitamente ser doutor.
Respeitosamente,
João Miguel Tavares
in Correio da Manhã, 06/07/12

domingo, 8 de julho de 2012

As trafulhices de quem se arroga de nos (des)governar - ainda a propósito da licenciatura "honoris causa" de Miguel Relvas

Entre as várias características que podem determinar a vantagem competitiva de um país, uma cultura de seriedade é, sem sombra de dúvida, uma das mais significativas. Desde logo, porque a cultura deve ser entendida como o espelho de um povo, pelo que uma forte cultura organizacional pode servir para transformar a própria cultura sem que daí resultem as habituais resistências à mudança. Essa é uma indubitável vantagem competitiva, uma vez que os países, nessas circunstâncias, mudam porque os seus concidadãos têm consciência de que devem mudar e não porque são constrangidos a mudar. Em tais contextos, uma cultura de seriedade deve ser uma consciência quotidiana, de onde se segue que aquele que prevaricar - políticos incluídos -, para além dos tribunais, é ostracizado pela própria sociedade.

Hoje, quando olhamos para o país verificamos que, de há demasiados anos a esta parte, vivemos uma cultura de corrupção. Foi o BPN e a SLN, o Freeport, a Face Oculta, o caso da Cova da Beira, múltiplas parcerias público-privadas e tantos outros casos que já caíram no esquecimento porque, infelizmente, a memória dos portugueses é curta e, por essa razão, estamos a viver cada vez pior. Mas parece que, para além de terem memória curta, os portugueses aceitam resignadamente viver paredes meias com gente corrupta. O problema é que esta cultura de corrupção está a sair demasiado cara ao país.

É urgente tomarmos consciência de que a mentalidade permissiva que há muito habita no nosso espírito, sobretudo daqueles a quem o poder subiu à cabeça, atingiu os limites do impossível e, similarmente à democracia tão criticada por Sócrates - o filósofo - na Grécia Antiga, tornou-se legal. Senão vejamos: o que se ouve dizer é que Miguel Relvas do ponto de vista moral prevaricou, mas do ponto de vista jurídico não se lhe pode acusar de nada, o que significa que a corrupção aconteceu em conformidade com a lei e, como tal, passa a fazer parte dos não assuntos. Conclusão: legalizaram-se as trafulhices.

Ora, um país cujos governantes pensam desta maneira vai a caminho do cano de esgoto da História. Portugal não resiste muito mais tempo a esta cultura de corrupção. Haja vergonha!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O dilema de Passos Coelho - a propósito da licenciatura "honoris causa" de Miguel Relvas

Segundo a edição de ontem do jornal Público, o currículo profissional de Miguel Relvas no exercício de diversos cargos públicos permitiu-lhe concluir a sua licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Lusófona, em pouco mais de um ano. 

Passos Coelho tem rapidamente de decidir se quer sacrificar o Governo para salvar Miguel Relvas, ou sacrificar Miguel Relvas para salvar o Governo. Porque a questão é simples: pode um país ser governado por gente que não merece confiança? Claro que não pode, e ainda pode menos quando os tempos são de grande sacrifício, sobretudo para as camadas da população mais desfavorecidas.

De há uns anos a esta parte, os portugueses habituaram-se a ver a população, mais ou menos manipulada, a perder o respeito por aqueles que a governam. E quando o povo perde o respeito por aqueles que o governam, então, todos estamos sujeitos à falta de respeito. Ora, sem respeito não há confiança, sem confiança não há economia e sem economia não há sociedade que resista.

Assim sendo, o primeiro-ministro devia precaver-se. Já não se trata de uma disputa jornalística ao estilo do diz tu, direi eu. Agora, o caso fia mais fino porque se trata da credibilidade de uma das mais velhas instituições do País: a instituição universitária. Por isso, a dita licenciatura tem de ser esclarecida. Desde logo, quem foram os júris que assinaram as várias peças do processo de equivalência, na medida em que não podemos crer que tal assunto tenha resultado de uma decisão unipessoal.

Faz mal Passos Coelho considerar a licenciatura em causa como um "não assunto". Porque, ou mata o assunto de uma forma definitiva, ou o "não assunto" passará a ser ele próprio, Passos Coelho. E nessa altura só lhe resta a demissão ou, em alternativa, a desconsideração dos portugueses. 

O primeiro-ministro tem de decidir urgentemente se quer sacrificar o Governo para salvar o Miguel ou sacrificar o Miguel para salvar o Governo. Poderá, por exemplo, sugerir a Relvas que vá tirar um curso de Ciência Política para Paris...

terça-feira, 3 de julho de 2012

Legendar o silêncio icónico (21) - a Índia também somos nós (2)

As autoridades indianas revelaram, no dia 1 de julho, que pelo menos 61 pessoas morreram e cerca de dois milhões foram afetadas pelas inundações que se têm registado desde o final de junho no estado de Assam. As cheias, provocadas pelas fortes chuvas da monção, alagaram duas mil aldeias, levando a que cerca de meio milhão de pessoas tenha procurado abrigo em acampamentos preparados pelas autoridades.

domingo, 1 de julho de 2012

Banda sonora para o verão (22) - a propósito do concerto dos Echo and the Bunnymen na Serra do Pilar

Os Echo and the Bunnymen estão no ativo desde 1978. Desde então, lançaram 11 álbuns de estúdio, entre coletâneas, registos ao vivo e algumas desavenças, que levaram o carismático vocalista e cofundador, Ian McCulloch, a abandonar, durante alguns anos, a banda para se dedicar a uma curta, mas interessante, carreira a solo. 

Ontem à noite, deram um bom concerto em Gaia, na Serra do Pilar, com vista privilegiada para o Rio Douro. Foi, sobretudo, uma oportunidade para o público revisitar memórias de adolescência e conhecer algumas canções da segunda fase da discografia dos autores de "Crocodiles" (o álbum de estreia, de 1980). Para muitos críticos, "Ocean Rain" (editado em 1984) foi um disco de uma qualidade melodiosa irrepetível. Quanto a mim, tenho "What Are You Going To Do With Your Life?" (gravado já em 1999) como a obra mais inspirada dos Echo and the Bunnymen. É, de resto, um dos CD que levaria para uma ilha deserta... no verão.

Echo and the Bunnymen - "Rust"

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Um primeiro post explicitamente sobre Futebol

Paulo Bento deve ser hoje um homem satisfeito. O selecionador trilhou um caminho muito próprio desde que assumiu o comando. Antes de mais, soube esperar pelo momento certo. Desde que saiu do Sporting teve oportunidades para voltar ao ativo, mas só quando foi convidado pela Federação Portuguesa de Futebol é que aceitou. Não era fácil: Portugal tinha empatado com o Chipre e perdido com a Noruega, mas Paulo Bento é um homem corajoso. O mote estava dado: "Se tivermos sucesso, o mérito é dos jogadores, se falharmos, a culpa será minha."

Foi assim que o coletivo foi conquistado. Os incidentes com Ricardo Carvalho e José Bosingwa foram tratados de forma célere e sem espaço para marcha-atrás. Quem não estava com ele, quem não respeitava a equipa, não interessava. Se o fez com a dupla, também soube fazer o inverso com Carlos Martins e Silvestre Varela, dois jogadores que tinham sido quase que ignorados no Sporting. Não foi orgulhoso e formou com eles um grupo vencedor: o primeiro esteve durante toda a qualificação e fez o golo à Espanha no 4-0; o segundo foi ao Euro-2012 apesar de algumas críticas, mas respondeu com um golo decisivo na partida com a Dinamarca.

As críticas choveram em vários momentos, mas Paulo Bento foi fiel à estratégia. Não interessava quem o dizia, mesmo que o nome fosse Figo ou outros internacionais. O selecionador tinha uma estratégia, tinha algo em mente e mostrava muita teimosia, mas daquela que tinha ajudado Luiz Felipe Scolari a chegar a uma final de um Europeu e a uma meia-final de um Mundial. Os jogadores corresponderam, mostraram estar com ele desde o primeiro momento e começaram a render mais, fosse Cristiano Ronaldo, a bater os números que tinha conseguido com Scolari e Queiroz, ou com João Moutinho, o médio que tinha sido ignorado para o Mundial-2010.

Portugal falhou a final, mas as declarações no final do jogo ajudaram a perceber o que sentia depois da primeira grande prova ao serviço da seleção nacional: "Caímos como deve cair uma grande equipa, com honra e com orgulho. Fizemos um campeonato da Europa extraordinário. Devolvemos essa confiança, de termos uma equipa para chegar à final, aos portugueses. Penso que eles estão orgulhosos daquilo que é a seleção nacional." É essa a vitória que Paulo Bento sentiu com esta campanha. Seja como for, Paulo Bento sai do Euro-2012 com poderes reforçados. O Mundial-2014 é a próxima meta.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Em dia de Portugal-Espanha, nada melhor que o velho Afonso Lopes Vieira para nos recordar que ainda vale a pena ser português



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Por Afonso Lopes Vieira
1878-1946 
Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
fui eu que t'as cedi num dote de princesa.
e para te ensinar a ser correcto já,
coloquei-te na mão a xícara de chá...

E se for um francês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
de ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
fui eu que as depenei primeiro, e às gloriosas
o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
por essa Espanha acima, até casa a coxear

E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Quando um dia arribei à orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
— eu era então o João Fernandes Labrador...
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.

Se for um Alemão que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor...
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.

Se for um Japonês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa à tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.

Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
e penso que não são oceanos, continentes,
as pérolas em monte e os diamantes ardentes,
que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
— São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
extasiado fixou pela primeira vez...
Estrelas coroai meu sonho Português!
P.S.

A um Espanhol, claro está, nunca direi: — Pois bem!
Não concebo sequer que me olhe com desdém.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Legendar o silêncio icónico (20) - a Índia também somos nós

19 de Junho de 2012. Na Índia, uma sobrevivente das cheias que afectaram o distrito de Barpeta, de pé sobre uma jangada improvisada feita de troncos de bananeiras, auxilia o seu filho enquanto transporta para terra firme os poucos pertences que conseguiu salvar. As notícias dos telejornais nacionais têm passado ao lado desta tragédia, que se arrasta há já algumas semanas. Será este um mundo globalizado?

sábado, 23 de junho de 2012

Banda sonora para o Verão (21)

É um pecado não acrescentarmos o novo álbum de Peter Gabriel, "Live Blood", à nossa cdteca. É um disco registado ao vivo, em Londres, nos dias 23 e 24 de Março de 2011, no The HMV Hammersmith Apollo. Nele, o fundador dos Genesis é acompanhado pela The New Blood Orchestra, que insufla novo sangue a clássicos como "Washing of the Water", "Biko", "Downside Up", "Blood of Eden", "Mercy Street", "Solsbury Hill", "In Your Eyes" e "Don't Give Up", havendo ainda tempo e espaço para algumas versões de Paul Simon ("The Boy in the Bubble"), Regina Spektor ("Après Moi"), Magnetic Fields ("The Book of Love") e Lou Reed ("The Power of the Heart"). 

"Live Blood" é a apresentação ao vivo do díptico "Scratch My Back" (dedicado a versões orquestrais de músicas de outros artistas) e "New Blood" (registo em estúdio que revisita composições do próprio Gabriel). Tenho os dois discos e aprecio-os, escutando-os com regularidade, mas essas canções ganham muito mais garra e intensidade em "Live Blood", o que não é de estranhar se tivermos em conta que o autor de "So" é, sobretudo, um animal de palco. Diz quem o viu no Dramático de Cascais, nos idos de 1974, ao leme dos Genesis que Peter Gabriel é o melhor artista em palco da história do rock. Não duvido. Há momentos em "Live Blood" em que a voz de Gabriel acompanhada pela orquestra e coros são incrivelmente arrepiantes. Quem quiser, terá oportunidade para confirmar a genialidade deste enorme artista no dia 7 de Julho, na Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco, no âmbito do festival Super Bock Super Rock.

Peter Gabriel - "The Book of Love"

terça-feira, 19 de junho de 2012

Legendar o silêncio icónico (19) - as crianças de Cabul também somos nós

Num campo de refugiados em Cabul, Ibrahim segura no seu filho mais novo à entrada da cabana de lama onde vive com a sua mulher e onze filhos. Várias crianças morreram de hipotermia neste campo, em Janeiro de 2012, devido às baixas temperaturas que se fizeram sentir naquela região.

domingo, 17 de junho de 2012

Banda sonora para a Primavera (17)


Patriarcas do metal progressivo, os Dream Theater gravaram e editaram o seu mais recente disco de originais ainda em 2011. No entanto, outros álbuns se sobrepuseram na minha discoteca pessoal e a audição cuidada e atenta de "A Dramatic Turn Of Events" foi sendo adiada. Agora que a obra foi escutada repetidas vezes, aqui vai o meu verdicto: não sendo tão ousado do ponto de vista conceptual, nem tão consistente no que ao trabalho de composição musical diz respeito quanto o seu predecessor ("Black Clouds And Silver Linings"), é ainda assim um disco interessante, que expõe de forma harmoniosa todo o virtuosismo da banda. São todos excelente músicos sem se anularem mutuamente; pelo contrário, nos Dream Theater o todo não é uma mera soma de partes, o que não é um pormenor de somenos importância, tendo em conta que este é o projecto de John Petrucci, talvez o maior guitarrista da cena rock no activo. Mas o destaque evidente em "A Dramatic Turn Of Events" tem a ver naturalmente com a substituição do carismático baterista cofundador da banda, Mike Portnoy (que em 2010 decidiu dedicar-se exclusivamente aos seus inúmeros side projects), por Mike Mangini, que se revela um instrumentista exímio, não deixando os créditos por mãos alheias.

Quanto às nove canções que compõem o disco, como é habitual nos Dream Theater, escapam ao formato convencional dos standards do rock, sendo quase impossível destacar uma. De qualquer forma, as baladas "Far From Heaven" e "Beneath The Surface" são sérias candidatas a melhor banda sonora para este final de Primavera em tons outonais.

Dream Theater - "Far From Heaven"

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Síria também somos nós

Na onda da Primavera Árabe, a revolta impera na Síria há 15 meses e, ao contrário do Egipto, Líbia, Iémen ou Tunísia, sem alterações de liderança à vista. Os protestos escalaram para a guerra civil, alimentada pela recusa de Bashar-al-Assad em abandonar o poder. As notícias cansam, repugnam, volta-se a cara às imagens da destruição. Mas, depois de massacre de Houla, de 25 para 26 de Maio, com 108 pessoas assassinadas (das quais 49 crianças e 34 mulheres), cuja autoria o governo sírio refuta, até quando se pode continuar sem fazer nada?

Banda sonora para o (final de) Verão (47): "O Rapaz da Montanha" - memória e identidade na música de Rodrigo Leão

Em O Rapaz da Montanha , Rodrigo Leão regressa ao formato conceptual que atravessa grande parte da sua obra, desta vez numa dimensão assumi...